Entre uma passo e outro de carnaval e no descanso preparatório para mais carnaval, leio com sabor e paciência uma obra filosófica magistral: “Assim falou Zaratustra”, do velho e bom Nietzsche. Foi lançado no final do ano passado em português com tradução direto do alemão e notas bastante esclarecedoras. Traduçao, notas e posfácio de Paulo Cesar Souza, conhecido pelo seu rigor e conhecimento em germanistica. Em titulo completo “Assim falou Zaratustra. Um livro para todos e para ninguém”.
Serve para dizer o que é esta obra um trecho de Fernando Pessoa no livro do desassossego: “Há prosa que dança, que se declama a si mesma. Há ritmos verbais que são bailados, em que a ideia se desnuda sinuosamente, numa sensualidade translúcida e perfeita”. Está nas palavras de Pessoa uma sintese do que é a obra máxima de Nietzsche. Primeiro, a ideia de palavras serem como dança. Tipico da estrutura de pensamento de Nietzsche: tentar encontrar para o pensamento uma gramática que fuja do esquema tradicional que tanto marcou a escrita filosófica no ocidente e que fez de uma forma de Razão à forma canônica.
Resultado: tornarama filosofia algo insuportável e para um grupinho de iniciados desgarrados da vida e de sua seiva. Segundo, as palavras ganhando uma “sensualidade”, um “desnudar-se” enquanto prática de pensamento. Nietzsche brinca com as palavras tirando-lhes coisas muito sérias. Por que coisas sérias como a vida não podem nos parecer sensuais? as palavras do Zaratustra querem desnudar o pensamento e dár-lhe algo humanos, mas demasiado humano. Nada mais carnavalesco, como bem pensou Julio Bressane acerca de Nietzsche.
Afirmam alguns comentadores, que Nietzsche arquitetou o Zaratustra numa afinidade eletiva com obras musicais. Não tanto porque as quatro partes corresponderiam aos movimentos de uma sinfonia – seus tema s não são ordenados e modulados como na sinfonia clássica -, mas pelas proporções numéricas exatas entre as partes e o empenho em dar expressão a muitos tons e sentimentos.
Por fim, desde muito tempço faltava nas traduções de Nietzsche do alemão o Zaratustra. Tinhamos uma tradução vinda de portugal e uma brasileira. Agora temos mais uma tradução bem recomendada em nossa lingua desta obra que marcou definitivamente a filosofia contemporânea, mas não só. Nietzsche hoje é lido na critica literária, na história, na teoria social, na linguistica… Tai, uma leitura para durante e depois do carnaval.
