Um homem para chamar de Pai

Ainda sinto e lembro através de minhas faculdades mentais, os bons momentos de minha infância. Ainda sinto cheiro do café sendo  preparado com o seu despertar bem cedinho. Ele costumava levantar muito  cedo e dizia que todos deveríamos fazer o mesmo. Ficar até tarde na cama era perda de tempo e, que no  futuro iriamos entender que ele estava certo. Ainda sinto sua mão gelada de lavar a louça do  dia anterior, tocar no meu pescoço para levantar para ir a escola. Aqueles invernos rigorosos de São  Paulo que se desejava não existir escola. Ele tocava e falava com suavidade o anúncio de que eu  precisava levantar para ir a escola mas, aquela ação misturada com o intenso desejo de não  levantar pelo clima frio dava uma ira que fazia qualquer um perder o sono e levantar, só de raiva. 

Ele não foi um homem de sucesso. Não para os grandes analistas. Daqueles que apareciam na televisão. Dos que moravam em uma casa luxuosa, tinha um carrão daqueles de invejar as pessoas na rua, um mega trabalho dos que dava uma boa renda e que anualmente permitia uma viagem para Disney ou excursão para os grande parques de diversões brasileiros. Ao contrário. Aquela casa de madeirite pintada a óleo diesel queimado para evitar que os cupins a consumisse com o tempo, com o chão liso a base de cimento  queimado  e “xadrez” colorido dava um aconchego  para os três filhos e sua esposa. A bicicleta “Barra Forte” com breque de pé para-lamas e um selim coberto com uma capa do time do  Santos o transportava diariamente muitos quilômetros, fizesse chuva ou sol. A capa de chuva o acompanhava.  Como não  sobrava dinheiro, a diversão ficava em tomar um bom banho  de maré com direito a almoço com frango cozido  e farofa preparada pela mãe.

Sempre pudemos estudar e, trabalhar, somente quando  optamos pelo início. Ele nunca parou para ensinar o alfabeto ou mesmo ler e escrever. Seu estudo, como  dizia ele, não alcançava para ensinar. mas, matemática básica, era com ele mesmo. Dava o orçamento de uma construção em  minutos com todos materiais para comprar e o valor da obra. Não  costumava errar. Com relação  aos ensinamentos da vida, ele era um autêntico  professor e ainda segue sendo.   

O tempo foi  passando  e fomos ficando adultos porém  com  algumas imprecisões dignas de adolescentes  e adultos jovens. Ele sempre que podia e tinha oportunidade, fazia suas correções. Nunca precisou levantar quer seja um chinelo, cinto ou outro tipo  de agressão para entendermos seu descontentamento a respeito  de algo errado que pudéssemos ter feito, Mesmo em seus auges de bebedeiras que anos mais tarde foi abolida completamente, tornando-o um homem mais digno e próspero. Pôde comprar sua motocicleta e facilitar seus longos deslocamentos que a fiel Barra Forte lhe havia servido até aquela data. Em casa, quando estava e, nos via estudando, não  entendia por que era necessário  tantas horas de sentado desvendando os segredos que cada matéria oferecia mas interferiu e, isso nos deixou avançar um futuro mais confortável. 

Apesar da falta das consideradas “necessidades” que em muitas famílias é demonstrada para os herdeiros, ele conseguiu  criar os seus filhos com pouco  ou, quase nada. Mostrou com sua humildade que o homem não  precisa de muito  para viver e ser feliz e, que só é possível  compartilhar algo,  quando ele existe duplicado em sua vida. Não  é possível compartilhar algo do que não  é seu. 

Ele ainda segue nos ensinando, segue em suas considerações infalíveis e, enquanto ele permanecer no planeta fisicamente, seguirei pedindo  seus conselhos. Cada conversa com ele é um novo conhecimento ou a sensação de que estou protegido com o grande homem. Um “rei leão”. Aquele que me permitiu a partir de meus primeiros passos  e primeira palavras não  chamá-lo pelo nome e sim, de Pai. E eu me orgulho disso.   

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