Um consolo nestas eleições

Em termos gerais, as eleições deste ano apresentaram tão somente mais do mesmo, já que, apesar do surpreendente número de votos angariado por Marina Silva, a disputa pelo cargo de presidente ficou mesmo entre PSDB – representando as tradicionais oligarquias brasileiras – e o PT que, embora se vanglorie por ter incluído os mais pobres no mercado consumidor, não operou uma sequer reforma estrutural no país, a despeito das origens revolucionárias de sua bandeira.

No entanto, seria injusto deixar de valorizar o fato de a democracia brasileira permitir que um candidato a presidente, como Plínio de Arruda Sampaio, por menores que fossem suas chances de lograr o pleito, tenha tocado em pontos tão sensíveis quanto desconhecidos pela massa de eleitores brasileiros (e isso em plena Rede Globo!).

Para aqueles com formação superior e que são incluídos social e culturalmente, ouvir o articulado senhorzinho falando em coisas como “classe dominante”, “status quo”, “hegemonia” e “lógica do capital” não se traduz em novidade alguma. Em alguns casos, inclusive, tais concepções correm o risco de soar como ideias antiquadas e conspiratórias; enfim, como oriundas de uma ordem discursiva da época em que o próprio candidato era jovem.

Mas há de se comemorar que milhões de brasileiros menos instruídos tenham escutado as “loucuras” do velhinho, que se contrapuseram aos discursos pré-programados, vazios e carentes de novidades por parte de situação e oposição, e apresentaram um radicalismo que nem Marina Silva pôde imprimir em seus argumentos.

Não que o ponto de vista radical seja o ideal. A candidata verde, por exemplo, conseguiu, por meio de seu discurso racional, ponderado e sincero, influenciar diretamente o rumo das eleições, ao tirar parte dos votos de Dilma. A (agora ex) presidenciável sabe que, para implementar modelos revolucionários, como a transição para uma economia verde, é preciso, em certa medida, inserir-se diplomaticamente no “establishment” governista, pois não dá para sair simplesmente distribuindo bofetadas para todos os lados. Porém, por mais obsoletas que possam parecer, falas radicais como a de Plínio são sempre um alerta a naturalizações discursivas, lembrando que verdades apriorísticas e consensuais não são lá de total confiança.

2 comentários sobre “Um consolo nestas eleições”

  1. Ainda assim, é triste que o Plínio tenha recebido menos de 1% dos votos. Não que eu quisesse que ele efetivamente assumisse a cadeira de presidente (de fato, eu não queria), mas seria muito bom ver o povo brasileiro de desprender um pouco dessa política de coroneis, um ciclo vicioso, que ameaça qualquer esboço de mudança com a retirada de concessões que são direitos conquistados pela população, e que, em tese, deveriam ser garantidas por qualquer governo, seja ele de qualquer bandeira.

    Eu mesmo votei no Plínio. Repito, não para que ele fosse presidente, mas, sabe aquela coisa de que “toda unanimidade é burra”? Então…

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