Um ano do desaparecimento de Danielle Gonçalves e Leandro Neves

Da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência

No dia 28 de novembro de 2006, por volta das 14h, Danielle Gonçalves saiu da creche onde trabalhava no bairro do Lins de Vasconcelos, após um telefonema de seu marido Leandro Neves, que se encontrava ferido por policiais em Quintino. A vítima foi de moto-táxi até Quintino, e a partir de então Danielle Lima Gonçalves Fontes e Leandro de Freitas Paiva Neves se encontram desaparecidos.

O registro de ocorrência foi feito três dias depois pelos familiares na 24ª DP, a polícia apresentou dois cadáveres como as supostas vítimas, estes encontrados no Engenho da Rainha pelo 3º Batalhão. O inquérito solicitou exame de DNA dos restos para identificação, mas até hoje, um ano depois, ainda não foi feito, sob alegação de falta de materiais para a realização do exame. Os familiares sempre cobram, e às vezes recebem como outra desculpa que há outros exames “prioritários” na frente.

Nós perguntamos: diante de tanta matança no Rio de Janeiro, muitas cometidas por policiais, quais são os critérios de prioridade de investigação da polícia? Serão aqueles casos que estão na mídia? Ou será que os casos envolvendo policiais como possíveis assassinos são propositalmente “não-prioritários”?

Pai do rapaz perdeu terceiro filho em pouco mais de um ano

O desaparecimento de Danielle e Leandro foi o terceiro golpe recebido pelo pai do rapaz, Sr. Áureo Neves, em pouco mais de um ano, devido a ações criminosas da polícia. No dia 15 de setembro de 2005 por volta das 10h, os policiais do 3º BPM entraram no Complexo do Lins pela Rua Maria Luiza. Uma viatura seguiu pela Rua Sincora e outra viatura seguiu pela Rua Engenheiro Eufrásio Borges.

Eduardo Magno Neves, de 33 anos, filho de Sr. Áureo, desempregado, se encontrava nesta mesma Rua, quando foi atingido pelos policiais. A vítima, já ferida (com um tiro na perna), tentou se esconder atrás da caixa d’água de uma casa próxima. Então estes mesmos policiais o encontraram através do rastro de sangue e o executaram no local. O corpo foi levado para o Hospital Salgado Filho.

Os familiares entraram com uma queixa contra os policiais na 23a DP (Méier). Os policiais alegam que já encontraram a vítima ferida pois já havia um confronto, porém os moradores testemunham que não havia nenhuma troca de tiros. Até agora o processo não evoluiu em nada. Um grande problema é que testemunhas afirmam que a vítima teria inicialmente levado um tiro na perna antes de se esconder, porém no laudo cadavérico não consta este fato, isto descrito pela inspetora do caso já que a família ainda não teve acesso ao laudo. Outro grande problema foi que na delegacia o registro foi feito com o nome da vítima errado, com o nome de Eduardo Magno Alves.

No dia 4 de janeiro de 2006, por volta das 17h, no morro da Cutia, Áureo Neves Filho, de 16 anos, que trabalhava com o pai (Sr. Áureo) numa criação de suínos, foi assassinado no alto do morro próximo à boca de fumo, e arrastado pelas pernas pelos policiais do 6º BMP por uma escadaria que levava até a Av. Menezes Cortes, colocado na viatura e levado ao Hospital do Andaraí, onde seu pai o encontrou já morto com tiro na cabeça, e o crânio esfacelado devido a forma que vítima foi arrastada.

Na 25ª DP, onde o caso foi registrado, afirma-se ter encontrado junto ao jovem uma quantidade absurda de drogas e uma pistola. O jovem não possuía nenhum antecedente criminal. Este caso foi levado para a OEA (Organização dos Estados Americanos) para divulgação e pressão para solução. Porém não evoluiu, como sempre se trata quando a vitima é pobre e os assassinos policiais.

As perdas e a dor de Áureo Neves são um símbolo do que sofrem os moradores de favelas no Rio de Janeiro, sem os serviços públicos que a Constituição manda o Estado prover, e ainda humilhados, desrespeitados e assassinados por policiais covardes, protegidos por seus comandantes e pelos governantes (políticos). Mas não desistimos, nossa união e nossa luta será capaz de trazer a alegria de volta a familiares sofridos como Áureo Neves.

Manifestação lembra um ano sem casal

Amanhã, 28 de novembro de 2007, será realizada uma manifestação em lembrança de um ano do desaparecimento dos dois jovens e em protesto contra o não andamento das investigações. A concentração começará às 14h na Rua Villela Tavares (Lins, altura do nº 34, próximo ao ponto das kombis na subida do Morro do Gambá), depois a caminhada repetirá o trajeto feito por Danielle no mototáxi até o desaparecimento, e acabará com manifestação na 24ª DP.

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