TV Memória Latina aposta no audiovisual para divulgar ações dos movimentos social e sindical


A TV Memória Latina está dando um suporte audiovisual às lutas dos movimentos sociais e sindicais, divulgando vídeos de diversas atividades pela internet. Localizada no Rio de Janeiro, a TV é um projeto do Coletivo Tatuzaroio de Comunicação e Cultura. “Basicamente somos um grupo de marxistas, freirianos, gramscianos, vindos de diferentes partes da América Latina que escolheram o Rio de Janeiro para atuar”, explica o jornalista André Vieira, integrante do coletivo. O grupo se conheceu no mestrado em comunicação da UFRJ e resolveu criar a TV Memória Latina para colocar em prática suas reflexões sobre a comunicação. “Nossas conclusões na academia passam pela constatação de que a mídia no Brasil é desfavorável para nós da classe trabalhadora. Por isso, decidimos nos juntar aos diversos meios de comunicação alternativos que existem no país e nos apresentamos para a comunicação popular”, conta Vieira. O objetivo é, segundo ele, oferecer o acúmulo audiovisual do grupo para os movimentos sociais e contribuir para o diálogo latino-americano, ajudando a contar as histórias dos povos de nosso continente que não têm espaço na mídia tradicional.
Confira uma breve entrevista sobre o projeto.
Quando surgiu a TV Memória Latina? Quantas pessoas estão na equipe?
No ar estamos desde 15 de junho, primeiro dia da Cúpula dos Povos, mas a ideia de criar um meio de comunicação contra-hegemônico acho que nasce desde quando escolhemos a comunicação pra ser nosso instrumento na construção da classe trabalhadora. Basicamente somos um grupo de marxistas, freirianos, gramscianos, vindos de diferentes partes da América Latina que escolheram o Rio de Janeiro para atuar. A Tv Memória Latina é um projeto do Coletivo Tatuzaroio, que desde 2010 vem produzindo comunicação para transformação social. Atualmente somos sete profissionais na Tv e quatro integrantes no Coletivo Tatuzaroio.
Por que a TV Memória Latina foi criada? Qual é o seu objetivo?
Mais que produzir comunicação, buscamos estudar o setor. Nos conhecemos no mestrado de comunicação da UFRJ e já desenvolvíamos individualmente trabalhos críticos sobre a comunicação. Criar a Tv Memória Latina era a oportunidade que tínhamos para colocar em prática nossas reflexões sobre a mídia no Brasil. Nossas conclusões na academia passam pela constatação de que a mídia no Brasil é desfavorável para nós da classe trabalhadora, por isso, decidimos nos juntar aos diversos meios de comunicação alternativos que existem no país e nós apresentamos para a comunicação popular. Nossa intenção com a Tv não é de criar programas atomizados, que pouco dialoguem com as demais produções existentes. Nosso objetivo é nos somar às redes existentes e levar o audiovisual para elas. Em síntese, nosso objetivo é oferecer nosso acúmulo audiovisual para os movimentos sociais e afirmar nosso diálogo latino-americano, ajudar a contar as histórias de nosso povos.
Atualmente vocês trabalham com alguns sindicatos e movimentos sociais fixos? Quais?
A Tv nasce no processo de construção da Cúpula dos Povos, onde amadurecemos nossa ideia da produção compartilhada. O processo que se deu na Cúpula foi fundamental para pensar na construção que queremos dentro da Tv. Atualmente estamos trabalhando com o Sindipetro/RJ e com o Senge/RJ, dois sindicatos que contribuíram politicamente e economicamente para esse projeto nascer. Não somos uma empresa, onde existe um lucro e a acumulação individual. Somos um grupo de trabalhadores e militantes que criticam esse modelo e recebem um salário-militante. Com o dinheiro que no mercado é chamado de “lucro”, nós conseguimos potencializar e produzir comunicação com outras organizações dos movimentos sociais, como por exemplo a Vila Autódromo, com quem temos uma construção mais antiga que a própria TV.

Foto tirada por Sebastián Soto, integrante da TV Memória Latina, em ato de solidariedade à Vila Autódromo realizado durante a Cúpula dos Povos

Como são definidos os assuntos que vocês irão cobrir?
Ainda estamos nos organizando, porque é tudo muito recente. Mas basicamente usamos as próprias redes sociais para produzir pautas e fazer as coberturas. Como estamos em rede dentro dos movimentos sociais, em toda cobertura conhecemos outros movimentos que nos convidam a participar de outras atividades. Assim queremos seguir, dialogando com histórias já existentes, compreendendo a importância de se manter em rede, contribuindo para a memória latina.
Como os coletivos e as organizações de esquerda podem trabalhar juntos com a Memória Latina?
A ideia da Tv Memória Latina é agregar ao máximo as organizações da classe trabalhadora que tenham carência na plataforma audiovisual. Nosso trabalho não é o do ficar criando programas “exclusivos”, tão comuns numa comunicação mercantilizada. Aos que querem experimentar do audiovisual, chamo a vir dialogar com a gente, e aos demais coletivos que já produzem audiovisual chamo para colocar em rede essa produção. Somente tratando a comunicação como um instrumento de luta e, portanto, um meio, é possível avançar a sociedade. A comunicação não pode ser tratada como uma mercadoria.
Qual a importância do vídeo na divulgação das lutas sociais?
O Brasil conheceu a televisão já como privada. Desde o início ela serviu como um instrumento de dominação, e para tanto, precisava que o público achasse que era muito difícil fazer televisão. Com a tecnologia mais próxima da apropriação pela classe trabalhadora, hoje é possível com bem menos dinheiro construir uma tv, potencializando a internet como distribuidora de conteúdo, e trazendo para a classe trabalhadora a produção de programas de televisão. O vídeo, que sempre foi um produto a ser consumido, agora serve como instrumento para a transformação social, produzidos pela classe social que sempre serviu como “consumidora” e passa a ser produtora de seu próprio vídeo. Por ser um país acostumado a ver televisão, o vídeo torna-se um ótimo instrumento mobilizador, só que agora produzido à esquerda. Nosso objetivo é somar ao audiovisual dos movimentos sociais.
(*) Entrevista reproduzida do Boletim do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC).

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