Tributo a Boal na 1ª Conferência Internacional do Teatro do Oprimido

teatrodooprimido1Coral Internacional do Teatro do Oprimido: música feita e cantada em homenagem a Boal, em diversas línguas, por integrantes do grupo de vários países e a platéia. Foto: Ney Motta/Conferência Internacional do Teatro do Oprimido.

A 1ª Conferência Internacional de Teatro do Oprimido está sendo realizada no Rio de Janeiro, entre os dias 20 e 26 de julho, nos Teatros Arena e Nelson Rodrigues, ambos da Caixa Cultural, e também na sua sede, com a participação de integrantes do grupo em 25 países e 16 estados brasileiros.
Representantes do Centro de Teatro do Oprimido (CTO) em todo o mundo estão não só dando palestras e praticando o intercâmbio cultural, como também fazendo um tributo a Augusto Boal, idealizador do projeto, que faleceu em maio deste ano.
O CTO está com sua sede na Lapa, no Rio de Janeiro, desde 2002. Foi fundado em 1986, por Augusto Boal, teatrólogo brasileiro reconhecido em todo o mundo, indicado a prêmio Nobel da Paz em 2008.
A filosofia do projeto visa à democratização dos meios de produção cultural, estimula a participação ativa e protagonista das camadas oprimidas da sociedade, em busca da transformação da realidade a partir do diálogo e através de meios estéticos. Seus trabalhos abordam os mais variados temas e têm diversos campos de atuação, como na educação, saúde mental, sistema prisional, movimentos sociais, comunidades, sindicatos etc.

teatrodooprimido2Rosa Marquez ao microfone, com uma foto sua ao fundo em companhia de Boal. Sentados, da esquerda para a direita, estão Geo Brito do CTO; Bárbara Santos do CTO e Célio Turino, secretário da Cidadania Cultural do MinC. Foto: Ney Motta/Conferência Internacional do Teatro do Oprimido.

A cerimônia de abertura da Conferência foi proferida por Bárbara Santos, do CTO; Rosa Marquez, da Universidade de Porto Rico; e Célio Turino, secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, responsável pelo Programa Cultura Viva (MinC). Bárbara contou a dificuldade financeira em que se encontra o CTO, lembrando que muitos dos participantes vieram ao Brasil por conta própria, pois o patrocínio do Sesc Nacional e o apoio da Caixa Econômica se restringiram à estrutura local: “Foi uma realização coletiva, sem suporte financeiro”, afirmou.
Apesar dos problemas com a burocracia do governo federal, Bárbara reconhece que o programa Cultura Viva ajudou muito o CTO e por isso chamou Célio Turino. Atualmente o CTO tem trabalhos em comunidades quilombolas e indígenas, por exemplo, graças às redes estabelecidas através desse programa. O método vai se multiplicando em “resposta a uma realidade, na troca, em um fato concreto”; não há formatos pré-estabelecidos, ressaltou.
Atualmente a estética foi uma necessidade no trabalho popular, procurando demonstrar as amarras estéticas que aprisionam as pessoas. Através das perguntas que levam à produção, exemplificou Bárbara, as pessoas desenvolvem metáforas em representações estéticas que, naturalmente, buscam reformar as formas. O CTO busca transformar o mundo a partir de transformações locais, dentro de um contexto de intervenção política. “As pessoas se redescobrem como potência, todos nós somos potencialmente artistas”, foi dito no início da cerimônia.
Célio Turino descreveu os projetos realizados no Ministério da Cultura, atribuindo muitos deles como “herdeiros do Teatro do Oprimido” devido à semelhança de seus métodos. Em relação aos pontos de cultura, por exemplo, destacou o protagonismo sócio-cultural, milhares de formatos, pontos e redes infinitas que se cruzam, quebram hierarquias, têm a generosidade intelectual na partilha e se aproximam, assim como os métodos de Boal. Questionado sobre o que achava do Teatro do Oprimido, respondeu: “O Teatro do Oprimido é mudar o ponto de vista e extrair o que há de melhor dentro das pessoas”.
Rosa Marquez relatou as experiências de Boal na França, quando estava em exílio devido ao regime militar brasileiro. Falou sobre sua aproximação através da arte aos trabalhadores, realizando peças com sindicalistas sobre as negociações com os patrões, sobre o racismo, a posição das mulheres nos sindicatos, o teatro jornal, dentre outras questões, sempre com um caráter transformador.
Apontando a educação como eixo fundamental de seu trabalho, Rosa lembrou da luta de Boal em integrar o teatro popular ao currículo escolar dos CIEPs, junto a Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, no Rio de Janeiro. “Tuas obras, Boal, estão em cada um de nós e são indestrutíveis. Nem tudo está perdido, nada está perdido”, finalizou.

teatrodooprimido3Entrada da exposição ‘A estética do oprimido’, após a cerimônia de abertura, no Teatro Nelson Rodrigues. Foto: Ney Motta/Conferência Internacional do Teatro do Oprimido.

Esse é o primeiro evento que Alvim Costa, Coordenador Geral do CTO em Maputo, capital de Moçambique, participa. No ano passado ele estagiou três meses na oficina do CTO, no Rio de Janeiro, e hoje multiplica o trabalho em seu país. Para ele o evento “é uma ótima oportunidade de trocar experiências com pessoas que estudam com profundidade os conceitos do Teatro do Oprimido. Eu só uso a arte para comunicar idéias”. São 167 grupos em 98 dos 128 distritos em Moçambique. Só em Maputo há 11 oficinas, destacou.
Segundo uma nota recente da ONU, comentou, são 500 infecções de Aids por dia na região. O trabalho que ele desenvolve “usa o CTO como uma linguagem comunitária para comunicar maneiras de prevenção e tratamento do vírus. No país há somente uma rede televisão e rádio que se concentra nos centros e há muitas tribos de etnias diferentes que não se comunicam. A falta de informação é o principal fator da proliferação da doença”.
A cerimônia se encerrou com o Coral Internacional, participantes de vários países subiram no palco para cantar, cada hora numa língua, em tributo ao mestre. Partilhando a canção também com a platéia, do jeito que Boal gostaria de ver se estivesse vivo.
A Conferência é também um marco histórico para a continuidade de sua obra, um estímulo à reflexão sobre o Movimento Internacional de Teatro do Oprimido, seus métodos e princípios, a fim de estruturar a Encontro Internacional que acontecerá em julho de 2010, em Belém, dentro do Congresso Mundial IDEA.
Na Conferência está prevista a apresentação de vídeos, peças, exposições e palestras, dentre outras realizações culturais, tratando de temas como a participação do Teatro do Oprimido na política, na educação, em relação ao gênero, às raças, à juventude, aos direitos humanos, dentre outras experiências países afora. Confira a programação em www.ctorio.org.br

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