
Canto, logo existo
Cantar faz bem à alma, ajuda a manter a força das cordas vocais e contribui para a interação social
Por Marcelo Lima – marcelolimanatal@yahoo.com.br / Jornal A União – Diversidade 60 + / 13 de outubro de 2025
Mais que um instrumento de comunicação individual, a voz é a nossa “impressão digital” sonora. Com ela, anunciamos a nossa chegada ao mundo e os últimos desejos antes de partir; persuadimos, comemoramos, desabafamos; declaramos amor e guerras. Ela é capaz de acompanhar lágrimas solitárias discretamente e de disparar ideais por meio de palavras de ordem lançadas nas ruas. A voz diz quem somos.
Depois do 60 anos de idade, há quem opte progressivamente pelo silêncio, mesmo com muito para contar ou até a cantar. Além de ajudar a manter a força das cordas vocais, o canto estimula funções cerebrais, é oportunidade para ampliar o círculo de amizades e ganhar a admiração de apreciadores da arte.
Colocar a voz para dançar foi a escolha do professor universitário aposentado Rolando Lazarte. Desde maio de 2024, ele entrou para o Coral do Sindicato dos Docentes da UFPB (AdufPB) junto com a mulher. O casal morava numa praia do litoral Sul da Paraíba, mas decidiram retornar à capital para se livrar da monotonia gerada pelo isolamento.
“
Sem querer
ser exagerado,
diria que é
uma sensação
angelical,
superior, de outra
natureza, porque
desaparece
qualquer
preocupação
Rolando Lazarte
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Mas só a mudança não foi suficiente. Era preciso encontrar espaços para fazer amigos e aprender algo novo coletivamente. “Encontramos antigos colegas de departamento, gente de outros departamentos. Eu, que sou bastante tímido e tenho dificuldade de socialização, me ajudou muito e continua me ajudando”, disse o argentino, que mora no Brasil desde 1977.
Aposentado há 25 anos, Lazarte deu aulas pelo Departamento de Ciências Sociais da Federal da Paraíba. Ele nunca teve laços fortes com o canto. Na infância, participou de um coral na escola. Na juventude, entoava músicas folclóricas e de protesto contra a ditadura argentina que o expulsou da universidade. Sem o direito de estudar na sua pátria sequestrada por um regime político autoritário, o Brasil – à beira da transição democrática – foi seu destino, uma vez que seus irmãos já haviam rumado pra cá.

Efeitos
Nos ensaios e apresentações do coral, ele consegue se reconectar a um passado distante. “Tanto o [maestro regente] Anísio quanto a Isadora, que é a nossa professora de canto, trazem essa evocação dos cantos infantis. Então isso traz essas memórias também da gente”, declarou Lazarte.
Por falar em memória, a ciência comprova que o canto na terceira idade auxilia na manutenção de funções cerebrais. Além de revolver a memória afetiva de longo prazo, como no caso do professor Lazarte, a memória de curto prazo também é estimulada, haja vista a necessidade de decorar o ritmo e letra das músicas.
“Tentar acompanhar uma música conhecida ativa o hipocampo (centro da memória), o córtex frontal inferior. A leitura musical estimula o córtex visual e relembrar letras aciona os centros da linguagem, a área de Wernicke e Broca, e os lobos temporal e frontal. Acompanhar ritmos mobiliza os circuitos de regulação temporal do cerebelo”, informou o artigo científico Os Benefícios do Canto e da Música na Maturidade.
Publicado no periódico Kairós-Gerontologia, a produção científica afirma também que se aventurar na música para além do canto estimula as áreas cerebrais responsáveis pelo movimento e planejamento. “Tocar, cantar, ou reger, ativa os lobos frontais no planejamento do comportamento, o córtex motor do lobo parietal e o córtex sensorial, conferindo a resposta tátil do instrumento, as percepções sensoriais do canto e os movimentos da regência”, completam as autoras.
Mas para o professor Lazarte essa arte vai além dos efeitos neurológicos. “Sem querer ser exagerado, diria que é uma sensação angelical, superior, de outra natureza, porque desaparece qualquer preocupação, angústia, tristeza nesse momento. E a gente está só nas emoções elevadas”, disse sobre a experiência de colocar sua voz para dançar.
E ele nem tinha falado sobre. “A gente vem porque só de ficar conversando, rindo, contando histórias e cantando, a vida ganha outra vivacidade, outro ânimo”, testemunhou.
Voz ativa
O maestro regente do coral da Aduf/PB e do Coro de Câmara Villa-Lobos, Carlos Anísio, lembra que as cordas vocais também envelhecem, mas podem ser exercitadas a fim de retardar esse processo, tanto quanto se faz com os músculos do corpo. “A gente pode fazer esse exercício com canto, porque você vai trabalhar com respiração, relaxamento, emissão. As cordas vocais são músculos. Você pode exercitar”, disse.
Com experiência de trabalho com adultos e crianças, Anísio ressalta que o canto pode contribuir com a saúde de quem normalmente não se vê cantando. “No caso do adulto, às vezes, a gente encontra um ex-fumante, uma pessoa com problema respiratório e, de certa forma, o canto pode ajudar a pessoa a colocar melhor a voz. Na realidade, ajudá-la a se expressar melhor através da voz”, especificou.
Atividades realizadas em grupo fortalecem os laços de amizade
Se cada voz é singular, cantar em coral é abrir mão da sua individualidade em favor do canto coletivo. Baseados nesse princípio, coralistas trilharam uma vida toda nessa modalidade de canto.
O servidor público federal Ottoni Melo, de 85 anos, tem uma história de 73 anos em busca da harmonia coletiva perfeita. Aos 12 anos de idade, entrou para um coral num seminário. Ele saiu do seminário, mas nunca mais deixou o canto coral de lado. Quando adulto, trabalhava durante o dia e, à noite, soltava a voz.
Além de fazer amigos e espantar seus males, Melo lembra que a participação em corais lhe rendeu viagens pelo Brasil e pelo mundo. “Não é só espantar seus males, aquele momento que você está aprendendo vai embora tudo, você esquece de tudo, fica só centrado na música. Para quem está aposentado, mesmo para quem ainda não está, vá participar de um coral. É sempre bom estar aprendendo coisas novas, você se mantém vivo”, disse, um dos membros fundadores do Coro de Câmara Villa-Lobos.
A professora aposentada Beth Pimenta, de 73 anos, foi literalmente embalada pela música desde sempre. Sua mãe era professora de piano. Nos primeiros anos na escola, num colégio católico, em Areia, entrou para o coral. No início da vida adulta, no entanto, ela se desencaminhou. “Eu fui fazer administração por impetuosidade da idade. Se existisse, na época, [o curso de] música, provavelmente eu teria ido fazer”, revelou.
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Aquele
momento
que você está
aprendendo
vai embora.
Tudo fica só
centrado na
música
Ottoni Melo
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Já como professora universitária, Pimenta chegou a participar de três corais ao mesmo tempo. Embora tenha escolhido uma profissão em que a voz é instrumento de trabalho, ela reconhece que não tomou muitos cuidados hoje considerados imprescindíveis. “Hoje eu não daria uma aula sem antes fazer um aquecimento. Na hora que tivesse uma balbúrdia, usaria uma técnica de chamar a atenção sem levantar a voz para você não estragar”, confessou. Para Beth, cantar “é a forma mais rápida de conversar com Deus”.
Apesar disso, o que cantamos também pode realçar os tons mais graves na nossa vida. Ou seja, o cérebro também pode dançar conforme a música. “Ela puxa você pra baixo ou pra cima. Existe a área do cérebro que quando é estimulada vai liberar mais da dopamina e os neurotransmissores que são ligados ao prazer, relaxamento”, disse psicóloga Adriana de Melo.
