O estabelecimento de um discurso hegemônico baseado no paradigma científico é, sem dúvida, uma das razões que levaram a religião a não mais ocupar uma posição de autoridade junto à sociedade, como acontecia em tempos mais remotos.
Essa disciplinarização científica e tecnológica da cultura também está por trás de eventuais perdas de fieis, de quedas nos índices que medem a porcentagem de religiosos no mundo ou de adeptos efetivamente praticantes, ou, simplesmente, de reformulações de igrejas e do aparecimento de novas, estas mais adaptadas aos “tempos modernos”.
No entanto, um dos aspectos que seguramente favoreceram esse panorama guarda relação com a rigidez da doutrina – que tem, nos dogmas, sua maior expressão – e com o maniqueísmo característico do discurso religioso, que, por conseguinte, demanda, no mínimo, certo grau de ingenuidade (e/ou conveniência) de seus seguidores.
É certo que há diferentes níveis de maniqueísmo dentre as variadas correntes religiosas mundo afora. Inegavelmente, o quão mais fundamentalistas forem, maior será o grau de intolerância a visões e comportamento dissonantes com o que o evangelho em questão prega em suas páginas.
Mas mesmo as doutrinas mais “lights” precisam se apoiar, em algum momento, em verdades absolutas, que atuam justamente como pilares da interpretação humana da palavra divina, e que devem, preferencialmente, não ser questionadas. E esse é um traço que acaba se manifestando nos mais triviais posicionamentos de representantes e seguidores religiosos.
Um exemplo, é a forma como é concluído o texto de abaixo-assinado criado pelo pastor Renê de Araújo Terra Nova, do Ministério Internacional da Restauração, que está circulando, neste momento, na internet. O documento conclama as pessoas a expressarem sua contrariedade em relação a uma piada feita pelo apresentador Jô Soares em programa veiculado pela Rede Globo, em novembro deste ano, exigindo que ele se retrate.
Na ocasião, o humorista diz que “a bíblia tem mil e uma utilidades”, após assistir trecho de um documentário – exibido durante o programa – em que um entrevistado revela que o grupo Novos Baianos fazia cigarros de maconha com páginas da Bíblia.
A redação do abaixo-assinado termina da seguinte maneira: “Este é um ato que deve ser compartilhado por todos os que temem a Deus e zelam pela Sua Palavra”.
Não fosse por essa última frase, era capaz de o pastor Renê de Araujo conseguir angariar ainda mais apoio a sua causa, mesmo por parte de ateus e afins, que fossem mais sensíveis ao desrespeito às crenças religiosas. Afinal, a piada de Jô foi, de fato, um tanto quanto infeliz, ainda que o apresentador estivesse apenas ironizando a atitude absolutamente desnecessária dos integrantes do conjunto musical.
Porém, seguindo o vício da fórmula maniqueísta, o texto do documento não poderia deixar de colocar, de um lado, aqueles que são do “bem” e, do outro, os que não necessariamente veem com os mesmos olhos críticos o que Jô Soares falou, ou seja, aqueles que pertencem ao grupo do “mal”.
A questão é: será mesmo que todos os que temem a Deus se importariam tanto com o que o apresentador da Globo falou? Será que nenhum deles riu da piada ou “levou na esportiva”? Por que Renê de Araújo tem tanta certeza de que, para ser um bom seguidor de Deus, um cidadão tem, obrigatoriamente, de assinar o SEU abaixo assinado?
Por certo, a frase tem seu impacto e eficiência – não se discute o apelo do chamado fundamentalista –, mas, em pleno século 21, isso nem sempre poderá gerar simpatia, quanto mais na intenet.
De todo modo, ao menos uma boa mídia o pastor já está conseguindo.


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