O primeiro debate eleitoral de presidenciáveis no 2º turno foi tão melancólico que levei bom tempo até reunir coragem para me defrontar com ele.
Não passou de uma sucessão exasperante de ninharias superdimensionadas, pegadinhas, má fé e má postura.
Foi anedótico, p. ex., José Serra pretender que poucas e desimportantes privatizações sob governos petistas equivaleriam à avalanche de privatizações sob Fernando Henrique Cardoso (nos seus dois mandatos presidenciais e como ministro da Fazenda de Itamar Franco).
Mais inteligente teria sido ele dizer que quem iniciou as privatizações, afinal, foi Fernando Collor (o qual, aliás, é o estranho mais estranho no ninho dos aliados do Governo Lula!).
Também a Dilma não ocorreram as melhores réplicas em vários momentos, como quando Serra comparou os ex-presidentes da República que o apoiam àqueles que a apoiam.
Bastaria ela lembrar que tem o apoio do presidente Lula, mais bem avaliado e querido pelo povo do que os quatro citados juntos.
Quando Serra se diz um homem coerente com seu passado, está pedindo que lhe atirem na cara o fato de que, como ex-presidente da UNE, jamais poderia ter determinado a invasão da Cidade Universitária pela truculenta tropa de choque da PM, revivendo os piores tempos da ditadura militar.
Aliás, no momento em que Dilma sofre acusações tão falaciosas, fico pasmo com a não colocação no ar das chocantes agressões a estudantes e professores paulistas durante o governo de Serra.
OS CACIQUES DA DITADURA E SEU ÍNDIO
Também é totalmente incongruente com seu passado de exilado político o apoio que recebe do DEM, a quarta denominação do partido criado para dar sustentação à ditadura militar: já se chamou Arena, PDS e PFL, sem nunca conseguir fazer com que esquecêssemos os tempos em que respaldava o mais grotesco arbítrio e as piores atrocidades.
Por conta dessa aliança Serra teve de engolir um sapo descomunal, a escolha de Índio da Costa para seu vice. A retórica do dito cujo parece saída diretamente dos sites ultradireitistas, lembrando o primarismo iletrado e destrambelhado dos Ustras e Bolsonaros da vida.
Mesmo assim, na batalha dos currículos maquilados por marqueteiros, das promessas vazias e da satanização do adversário, Serra leva ligeira vantagem, por ter mais chão nessa estrada.
Será suficiente para contrabalançar a enorme popularidade do Lula?
A óbvia tendenciosidade da mídia golpista faz temer que um factóide exagerado ao máximo acabe funcionando, depois de tantos que se mostraram inócuos. A Folha de S. Paulo e a Veja garimpam sofregamente tal factóide.
Então, já passou da hora da campanha de Dilma sair do terreno que favorece ao adversário e focar as diferenças ideológicas.
Chega de ajudar a burguesia a impingir a ilusão de que presidentes são homens providenciais que tudo podem, decidem, fazem e acontecem.
Há muito tempo o PT deveria estar tratando esta eleição como uma disputa entre o campo progressista e o reacionário, entre um projeto político que contempla alguns interesses populares e outro totalmente subjugado ao capitalismo, inclusive no que ele tem de mais selvagem.
Estava certíssimo Plínio de Arruda Sampaio quando enfatizava estar representando seu partido na eleição. Para a esquerda, isto é o bê-a-bá: seus candidatos não são capos mussolinescos, mas expressão de um coletivo. Não é uma disputa de individualidades, e sim de forças políticas, econômicas e sociais.
Então, ao colocar em dúvida o cumprimento das promessas de Serra, deveria Dilma dizer claramente que seu adversário é refém dos interesses mais predatórios e retrógrados, de forma que, quando tiver de optar entre eles e o povo, ficará contra o povo, como ficou contra os universitários que nada mais faziam do que repetir os passos por ele mesmo dados no comecinho da sua jornada.
Só Dilma e o PT poderão resgatar essa campanha da vala comum em que os demotucanos e sua brigada virtual neofascista a estão atirando.
Eles não têm nada de diferente a oferecer, pois a burguesia nada de substancial quer conceder e resistirá com unhas e dentes às tentativas de limitarmos seus lucros escandalosos e impedirmos que continue produzindo desigualdade social tão aberrante. Então, os serviçais da burguesia se limitam a desconstruir tudo, na esperança de se tornarem herdeiros de uma terra arrasada.
Se depender dos demotucanos, a política continuará sendo a da entropia, da marcha para a destruição.
Só o PT e as forças de esquerda poderão trazer esperanças para o povo.
Mas, adotando uma postura bem diferente, muito mais para Lula-lá do que para Lulinha paz & amor.
A atual é um salto no escuro, com riscos enormes de redundar em terrível derrota e gravíssimo retrocesso.


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Olha, gostei do seu site! Muito informativo apesar de ser bastante tendencioso. Tendencioso não, claramente Petista, ou a favor do presidente Lula. Tenho de elogiar muitas atitudes suas em mostrar o que teve de podre no governo FHC, mas fico triste por não citar (pelo menos não vi) a parte ruim do atual governo. Época de eleição é um momento onde devemos ver e comparar o que foi bom e o que representa um bom futuro para nós. Quando você diz “desimportantes privatizações sob governos petistas”, eu discordo, pois pude acompanhar a jornada do PT e eles eram totalmente contra qualquer privatização. Então, me pergunto: Se eles são capazes de fazer algo que são totalmente contra, o que me garante que eles não farão isso com outras empresas? Se não tivessem privatizado nada, eu teria mais certeza. E eu não preciso lembrar que Dilma não é nordestina, eu sou nordestino e não confio que ela olhará para nós com o mesmos olhos de um nordestino. Mas Parabéns pelo seu site e Sucesso a você.
Ps.: Não sou partidário, e não apóio nem Dilma nem Serra, mas defendo uma Eleição justa!
Prezado Igor,
o site não é meu, sou apenas um dos colaboradores.
Quanto às privatizações petistas, pareceram-me mais iniciativas isoladas de administrações municipais, enquanto as dos tucanos eram uma política oficial do Governo FHC. Não têm o mesmo peso.
Também não pretendo fazer textos aparentemente isentos (no fundo, todos têm uma preferência e a deixam transparecer em algum ponto do artigo). Eu jogo limpo: sou pertencente ao campo progressista e escrevo como tal, tentando evitar o que considero um retrocesso histórico.
O que não quer dizer que eu seja petista. Não sou, como ficou claro em vários textos que escrevi antes do 1º turno, quando defendi que as pessoas de esquerda votassem nos candidatos que melhor as expressassem, e não na única com chance de vitória.
Antecipei que, no caso de um 2º turno entre Serra e Dilma, aí sim é que seria chegado o momento do voto útil, pois não se sabe o que poderá acontecer se o eleito for um associado da bancada de apoio da ditadura militar (o DEM) e cujo vice é garantia de turbulência, se por uma infelicidade qualquer chegar ao poder.
Dilma significa a continuidade das políticas do Governo Lula, que não são as ideais, mas distribuíram um pouco melhor a renda, pelo menos.
Já Serra, tendendo como está para a direita mais boçal, seria um salto no escuro. Tudo de que não precisamos é um novo 1964.
Abs.