
‘Temos que exigir o banimento do glifosato’, diz pesquisadora Larissa Bombardi após despublicação de artigo que atestava segurança do agrotóxico.
Texto usado como referência por agências regulatórias foi retirado após revelação de participação de cientistas da Monsanto.
Ana Rosa Carrara e Lucas Salum / Brasil de Fato,
Um artigo divulgado no ano 2000, que atestava a segurança do uso do glifosato, agrotóxico mais usado no mundo, foi oficialmente despublicado 25 anos depois pela revista científica Regulatory Toxicology and Pharmacology.
Entre as motivações para a retirada do texto da publicação estadunidense estão as revelações de conflitos de interesse e violações éticas no desenvolvimento do artigo, já que tornou-se pública a informação de que cientistas da Monsanto, a companhia que desenvolveu o produto, participaram de forma velada da escrita do estudo.
Em entrevista ao Conversa Bem Viver, Larissa Bombardi, pós-doutora em Geografia Humana e autora do livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico, aponta que o caso do estudo sobre o glifosato não é isolado. Ela destaca que a participação de pessoas ligadas à indústria química, de forma secreta, no desenvolvimento de estudos científicos sobre agrotóxicos é algo recorrente.
Bombardi avalia que casos como este são escandalosos, considerando que agências regulatórias por todo o mundo, assim como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil, se utilizam desses estudos para validar ou não o uso da substância, por isso mesmo a cientista defende o banimento do glifosato.
A especialista em agrotóxicos comenta ainda que tanto os trabalhadores rurais no Brasil, como populações indígenas, estão hoje cronicamente expostos a diversos agrotóxicos que, comprovadamente, são substâncias cancerígenas e revela que a utilização de drones na pulverização dos pesticidas agrava ainda mais a realidade no país.
Confira a entrevista na íntegra
Brasil de Fato: Larissa, quero que você nos ajude a entender o impacto que significa um estudo ser despublicado depois de 25 anos. Isso é normal?
Larissa Bombardi: Bem, primeiro que não é normal que isso seja publicado. Não é normal, mas é corriqueiro. Tem um termo em inglês para definir esse tipo de artigo científico, científico entre aspas. E o termo em inglês é ghostwriter, quer dizer, escritores fantasmas.
Por que esse artigo foi despublicado? Porque se descobriu, em 2017, nem tão recentemente, há quase 10 anos, portanto, que os escritores desse artigo, que são todos professores de universidades, Gary Williams, Robert Kroes e Ian Munro, um é americano, o outro é canadense e o outro é holandês e descobrimos que eles receberam financiamento da Monsanto para poder escrever esse artigo, não de forma direta, mas indireta. E que os funcionários da Monsanto estruturaram o artigo e que forneceram os dados que seriam utilizados nesse artigo.
Por que que eu estou falando de Monsanto? Porque a Monsanto foi a empresa que patenteou o glifosato. O glifosato é o agrotóxico mais utilizado no Brasil. É um herbicida que as pessoas popularmente chamam de mata-mato. Então, quando a gente ouve falar em mata-mato, a gente tá falando dessa substância química que é o glifosato.
O escândalo já está na maneira como os agrotóxicos são registrados. Quem é que providencia um relatório para avaliar o risco de uma substância? A própria empresa. Eu vou repetir isso de outra forma porque parece uma maluquice, mas é o seguinte: quando um agrotóxico vai ser registrado, quem fornece os relatórios indicando que essa substância não é cancerígena ou não provoca má formação fetal, ou não provoca desregulação endócrina, que não provoca tais males à saúde, é a própria indústria que vai registrá-lo. É como se fosse a raposa cuidando do galinheiro. Eu acho que essa é a melhor expressão para definir isso.
Obviamente que depois outros cientistas também antes e depois vão fazer outras pesquisas avaliando os efeitos dessas substâncias e os riscos, mas esse artigo, que foi publicado numa revista chamada Regulatory Toxicology and Pharmacology, em 2000, ele foi todo orientado, todo estruturado nos interesses da Monsanto. E por que esse artigo foi tão importante? Porque ele fez parte de uma estratégia que a gente chama de consolidação de narrativa, construiu uma narrativa de que o glifosato apresentaria baixo risco para a saúde humana em condições de uso normais, entre aspas. E quando a gente fala de um artigo de revisão, a gente está falando de um artigo que revisa a literatura, quer dizer, é um artigo que compila as informações que já estão disponíveis sobre determinado assunto.
E quando uma agência governamental vai fazer uma regulação, normalmente esses artigos de revisão são muito utilizados. Porque eles são curtos e supostamente trazem um consenso científico, e isso agiliza a tomada de decisão.
Como é um artigo que foi publicado numa revista que foi avaliada por pares, avaliada por outros cientistas, isso supostamente dá uma garantia de que não tem conflito de interesses. E o que começa a acontecer também é que outros artigos científicos passam a ter esse como referência, passam a citá-lo. Então, ele constrói justamente essa ideia de consenso, entende? E isso é muito temerário, porque, no fim das contas, quem estava construindo essa narrativa, era a própria indústria.
Frente a isso, a gente pode esperar que tenha uma nova revisão por parte da Anvisa, talvez uma mudança nas regras de uso do glifosato, principalmente na proibição, enfim, o que a gente pode esperar a partir de agora?
Eu acho que a gente tem que exigir isso. No mínimo, a gente tem que exigir o banimento do glifosato. Obviamente que não são caminhos fáceis, porque não é uma substância que foi banida, por exemplo, na União Europeia, mas ela foi severamente restringida na União Europeia, na última revisão que foi feita em 2022 e há toda uma mobilização da sociedade civil na União Europeia que argumenta que essa decisão foi inconstitucional, essa decisão de renovar a autorização do glifosato e isso está em julgamento.
E o escândalo do glifosato vai muito longe. Um pesquisador chamado Gilles-Eric Séralini usou exatamente a mesma metodologia da Monsanto para provar que o glifosato não era cancerígeno, um estudo com ratos e ele provou que sim [era cancerígeno]. A diferença é que ao invés de acompanhar os ratos por três meses, ele acompanhou por dois anos e mostrou o aumento do desenvolvimento de câncer e de outros tumores nos ratos quando observados por mais tempo. Ele foi perseguido, o artigo dele foi despublicado, mas ao fim foi republicado.
E ele faz parte parte de um grupo, que eu também faço parte hoje, que se chama Ensser, que é uma rede de pesquisadores europeus comprometidos social e ambientalmente. Essa rede teve um papel forte no sentido de denunciar, primeiro, o escândalo que é a maneira como os agrotóxicos são registrados no mundo e, segundo, de denunciar o enorme conflito de interesses. E como a Ensser, outras entidades também também tiveram esse papel.
É muito bem-vinda essa despublicação. Obviamente que um estrago gigante já foi feito, porque não só a Anvisa, mas outras agências de regulação ao redor do mundo tomaram esse artigo como ferramenta para entendimento regulatório. Como diria um professor muito querido, Carlos Walter Porto Gonçalves, que era professor da Universidade Federal Fluminense, e faleceu há pouco tempo: “Olha, não por acaso a gente chama o papa da matemática, o papa da biologia, o papa disso, o papa daquilo, porque a ciência, ela tem essa voz de verdade, como a igreja tinha na Idade Média”.
É de fato um escárnio, porque o que faz com que a sociedade, com que a população, acredite no que é confiável, o que não é confiável, é a palavra dos cientistas, Então, quando algo desse porte acontece, quantas milhares de pessoas não se intoxicaram e tantas outras que desenvolveram doenças e tantas outras morreram por causa de algo como assim. É um castelo de areia que se desmancha frente aos nossos olhos.
É fundamental que a Anvisa tome um posicionamento. Eu espero que o governo caminhe nesse sentido. Quando algo que era estruturante no marco regulatório de tantos países se desmancha, é a hora de olhar para aquilo que a gente regulou.
Na sua publicação “Agrotóxicos e colonialismo químico”, você explica muito bem como funciona essa lógica dos agrotóxicos. Eles são produzidos na Europa, por lá eles são proibidos, mas são vendidos para o Brasil e para a América Latina. Resumidamente, dos 10 agrotóxicos mais vendidos no Brasil, cinco são proibidos na União Europeia. Neste sentido, o glifosato é um caso isolado ou daqui a pouco a gente vai perceber que são vários os agrotóxicos que têm esse estudo completamente fraudulento?
Não é um caso isolado. Há essa conexão direta entre a indústria e aquilo que vai ser publicado em revistas científicas. Então, essa expressão de escritor fantasma [um escritor do artigo ligado à indústria e que o nome não aparece no artigo] não vem só do glifosato, é uma recorrência.
Nos anos 70, houve escândalos enormes relacionados justamente à indústria química. Por exemplo, estudos com animais, onde o animal que ficou doente ou foi afetado era substituído e isso não aparecia nos relatórios. Disso passou-se a utilizar globalmente um protocolo que se chama de boas práticas laboratoriais. De acordo com isso, é possível rastrear os estudos que foram feitos pela indústria, o que poderia parecer positivo. Contudo, o que acontece é que as próprias agências governamentais, não têm recurso para fazer isso, para fazer essas avaliações e reavaliações. E as universidades públicas também não têm, onde supostamente deveria estar o lugar da isenção de interesses. Então, quem promove esses estudos são as indústrias.
E o que que acaba acontecendo é que o acefato, por exemplo, que é uma das substâncias que tá na lista dos cinco maiores vendidos no Brasil, como você comentou, é proibido na União Europeia há 20 anos. É uma substância que é neurotóxica. A Atrazina, que também é proibida na União Europeia há 20 anos, é autorizada no Brasil. Ela, além de tudo, é cancerígena.
E o que acaba acontecendo, é que a gente não sabe, de fato, quando a gente tem mais de uma dessas substâncias juntas, o que que pode acontecer. Nenhum desses estudos avalia a combinação de mais do que uma substância. Eles são voltados para o registro de uma substância única, como se fosse se possível isolar, como se, na realidade, a gente estivesse exposto a uma só substância. E a gente sabe que não, tanto que a gente usa a expressão coquetel, muitas vezes.
Quando a gente fala de resíduo de agrotóxico na água, de que em tal amostra foi encontrado esse resíduo de agrotóxico, a gente fala: “Tem um coquetel”. E, efetivamente, a gente não sabe o que acontece quando mais do que um agrotóxico é encontrado num mesmo alimento ou na água. E isso é muito grave.
A gente carece muito de estudos que consigam minimamente diagnosticar qual é a situação. Mas o Brasil está conseguindo avançar com estudos que minimamente conseguem dimensionar onde esses agrotóxicos estão presentes e aqui eu me refiro ao Idec, o Instituto de Defesa do Consumidor. Em um dos mais recentes, eles analisaram 70 ultraprocessados e metade, 35, tinha presença de glifosato e esses produtos estão na nossa alimentação, mas sem dúvida os maiores prejudicados são os trabalhadores e trabalhadoras rurais que têm contato direto com essa substância. Neste sentido, o que a gente pode falar sobre os efeitos tanto para o consumidor de alimentos quanto para os agricultores?
Importante que você trouxe esse elemento, pelo seguinte: outro problema grave nesses estudos é a falta de verificação do que acontece na exposição a pequenas doses. Tem toda uma linha de estudos que indica que, muitas vezes, em pequeníssimas doses, inclusive, pode ser mais grave, porque o nosso corpo não reconhece imediatamente como um risco. Então, a população como um todo tá muito exposta. Acho que isso é muito grave. Esse trabalho que o Idec fez, que você mencionou, é maravilhoso, porque ele justamente desmistifica essa ideia de que o agrotóxico ele tá nas frutas, verduras e legumes apenas. Porque, como o monitoramento que existe no Brasil, que é minúsculo, ele é majoritariamente feito sobre alimentos frescos, isso dá à população a ideia de que então os produtos industrializados não estão na lista dos mais envenenados. O Idec trazer à luz isso é de uma importância tremenda.
Agora, obviamente que a população está exposta, e a mais exposta a essas substâncias são os trabalhadores rurais, os camponeses, e a população indígena que vive próxima a áreas com com uso intensivo de agrotóxicos, porque eles estão recebendo isso na pele, eles estão respirando essas substâncias, não é ingerindo os resíduos.
Os escândalos no Brasil só crescem. O mais recente é o uso de drones para pulverização aérea que está trazendo enormes danos. A população rural no Brasil está cronicamente exposta a essas substâncias. E estar cronicamente exposto a substâncias que são cancerígenas ou que provocam desregulação hormonal, é justamente saber que no futuro próximo doenças serão desenvolvidas.
Inclusive, quando a gente fala de malformação fetal, não é só a mãe exposta que pode gerar um bebê que porta malformação fetal. A exposição do pai, meses antes da concepção, pode gerar efeitos em crianças que tenham malformação congênita. E é um problema gravíssimo. E, pelos estudos que a gente já tem no Brasil, sabemos que as áreas em que mais se utiliza agrotóxico são aquelas em que há maior prevalência de câncer, em alguns casos, o dobro da média nacional e também de malformação fetal.
Conversa Bem Viver

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