Em São Paulo, foi adiado o comício de Fernando Haddad com a participação da presidenta Dilma Roussef, que estava marcado para a sexta, dia 19 de outubro. A coordenação da campanha do PT chegou à conclusão de que “não haveria ninguém”, pois o comício seria realizado no mesmo dia e horário do capítulo final da novela Avenida Brasil, da Rede Globo. Em Santa Catarina, foi divulgado recentemente um fenômeno de queda do consumo de energia durante o horário em que a novela está no ar. De acordo com a Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina – Celesc), a queda de consumo diário de eletricidade gira em torno de 5% entre as 21h e as 22h. Basta haver o congelamento clássico, em preto e branco, do final de cada capítulo que reaparecem os picos. Só então, parece, os telespectadores retomam o ritmo de vida.
Avenida Brasil tem também alimentado grande parte da mídia hegemônica. É comum notícias sobre a trama nos jornais impressos e revistas. Nina e Carminha, as protagonistas da novela, já foram até capa da revista Veja, na sua edição de 8 de agosto de 2012. Na última edição do programa de domingoFantástico, a pergunta que reuniu artistas e jogadores de futebol em torno do assunto foi: “Quem matou o Max?”, personagem interpretado por Marcello Novaes. O coordenador do NPC, Vito Giannotti, disse que a Avenida Brasil mostra o imenso poderio da TV aberta no Brasil hoje. E a esquerda precisa se apropriar dessa linguagem para disputar a sociedade.
Um dos perfis mais fiéis à novela são os grupos mais populares, que se sentem identificados pelos personagens que ali transitam. Segundo a professora Maria Immacolata, coordenadora do Centro de Estudos em Telenovela da USP, o que ajuda nesse reconhecimento é a visibilidade da chamada nova classe C. Em entrevista ao jornal O Globo, ela diz que são esses consumidores que estão tendo destaque nesta novela, e em outras também.
Mas é preciso começar a pensar: que valores tais novelas vêm reforçando?
No nosso último boletim, divulgamos uma avaliação de Gas-PA, do Coletivo Hip Hop LUTARMADA, acerca da novela. Ele lembra que a cidade do Rio está se remodelando para sediar grandes eventos esportivos mundiais, como a Copa do Mundo, a Copa das Confederações e as Olimpíadas. Essa reconfiguração passa pela chamada “faxina étnica”, que expulsa pretos e os mais pobres no geral das áreas mais valorizadas da cidade.
Para Gas-PA, a novela ajuda nesse processo, pois uma série de personagens acaba trocando a “frieza” da Zona Sul pelo fictício bairro da periferia chamado Divino. Este é o caso de Cadinho e de Monalisa. Ele pergunta: “Então, por que motivo moradoras e moradores do Santa Marta, Pavão-Pavãozinho, Chapéu Mangueira, Canta Galo, Tabajaras, Quilombo do Sacopã… não aceitariam recomeçar suas vidas longe da fria, cara e tumultuada Zona Sul do Rio?”. E dá a dica: “Se a principal fonte de informação da maior parte do nosso povo é a televisão, temos que estar vigilantes e combativos ao conteúdo da informação que o nosso povo recebe e consome, principalmente as subliminares que são transmitidas através de ‘inocentes’ obras de arte, como telenovelas”.
Um bom passo para começar a pensar.
(*) Matéria reproduzida do Boletim do NPC.

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