“Somos todos irmãos”

Imagem obtida no Google

Texto inspirado na “Fratelli Tutti”, do Papa Francisco

Sempre sonhei com um “Mundo Novo”, um mundo cheio de amor, de respeito, de solidariedade, de justiça e de paz. Um mundo sem nenhum tipo de preconceito ou discriminação, um mundo sem fronteiras, um mundo de irmãos. Este anseio, esta possível “utopia” está em nós, em cada um de nós, no mais profundo do nosso ser, mesmo que, muitas vezes, as aparências revelem o contrário.

Há um poema que me chamou a atenção e, sempre que o releio, sinto-me profundamente tocada. Chama-se “O Descobrimento”. Nele, o poeta modernista, Cassiano Ricardo, nos diz que o ser humano já descobriu tantas coisas consideradas impossíveis e até inatingíveis; no entanto, falta ainda descobrir o principal, o mais simples e importante de tudo: descobrir que “somos irmãos uns dos outros.”

Fico me perguntando: Por que há tanta relutância em acolhermos o outro como irmão? Por que tanta resistência ao fraterno amor? Ora, se amar é a nossa essência, é a nossa missão aqui na terra, é o que dá sentido à nossa vida — natural seria vivermos como uma grande família — a mesma família de um mesmo “Pai Nosso”, proclamado por tantos nas mais diversas línguas e culturas! Sabemos que nas famílias ocorrem desentendimentos, confusões e até brigas; no entanto, todos os membros entendem que pertencem àquela família, gostando ou não, e se amam apesar de tudo. Já imaginou se tivermos esse entendimento de que SOMOS TODOS IRMÃOS? Membros de uma mesma e grande família?

Apesar da não aceitação por parte de alguns, somos sim, TODOS IRMÃOS, pertencentes a mesma família, à família do Amor, à família de Deus! Somos filhos e filhas do Amor Maior! Esta essência do nosso ser, entretanto, é constantemente sufocada, abafada, esquecida e até negada por causa dos nossos condicionamentos, da nossa autossuficiência e presunção, do nosso orgulho e egoísmo que nos embaçam os olhos da alma e do coração.

Vivemos em contextos diferentes, variadas culturas, diferentes realidades, porém, no mais profundo do nosso ser “Somos todos iguais, braços dados ou não”, conforme nos diz Geraldo Vandré em sua canção “Pra não dizer que não falei das flores.”

Será que adianta se revoltar, excluir e desprezar os outros? Independentemente da nossa rejeição aos outros, a Deus e até a nós mesmos, isto não mudará a nossa essência de filhas e filhos do amor, criados para viver no amor. Imaginemos alguém que nasceu numa determinada família, que rejeita e até odeia aquela família e não a aceita de jeito nenhum, mas não pode mudar o fato de ser da mesma! Assim somos todos nós, membros da mesma família humana, quer aceitemos ou não.

Nosso Criador nos envia um modelo de homem perfeito, para nos ensinar a amar e a viver como irmãos — Jesus de Nazaré — que nos ensina através dos seus gestos, das suas palavras, do seu modo de ser e viver. Deixa-nos um recado muito especial: “Amem-se uns aos outros, como Eu amei vocês.” (Jo 13, 34). Não basta amar, é necessário que seja do jeito de Jesus.

Como parte de sua pedagogia, para nos ensinar a amar de verdade, Jesus nos conta muitas histórias e parábolas, nos chama de amigos e dá a própria vida por nós. Ele é o nosso Irmão Salvador que precisa de nós para nos salvar. Salvar de que mesmo? Do nosso egoísmo, orgulho, presunção, arrogância, indiferença diante da vida e dos outros. Nem sequer temos a desculpa de que estamos “às cegas”, de que não temos uma referência, um norte, um caminho a seguir. Temos sim, o modelo do homem para toda a humanidade, Jesus Cristo, um ser “tão humano que só podia ser divino”, segundo Leonardo Boff. Ele é o caminho que podemos seguir com segurança, a quem podemos tomar como referência, pois sua vida é pura expressão do amor, que se manifesta em bondade infinita. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6).

Meu modelo é Jesus Cristo”, dizia Pierre Bonhomme, fundador da congregação das Irmãs de Nossa Senhora do Calvário e acrescentava que é bom “assemelhar-se a quem se ama”. Podemos, portanto, aprender com o Mestre de Nazaré, pois o seu sagrado coração é o verdadeiro lugar do “Fraterno Amor”. Com Ele, e a partir Dele, seremos “novas criaturas” (2Cor 5, 17) e já começaremos a pôr em prática, aqui na terra e com todas as nossas limitações, o projeto inicial da criação: vida digna para todos. “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10) é uma das mensagens profundas do Mestre, que num dos seus relatos a respeito do julgamento final (Mt 25, 31–46), nos deixa claro que seremos julgados de acordo com a nossa capacidade de amar, sobretudo, os irmãos mais sofridos e marginalizados. Amar estes irmãos é amar o próprio Jesus, conforme nos diz o canto de Padre Zezinho:

Seu nome é Jesus e é todo homem

que vive neste mundo e quer união.

Pra ele não existem mais fronteiras,

só quer fazer de nós todos irmãos […]”

Em sua Carta Encíclica “Fratelli Tutti”, o Papa Francisco nos fala sobre a Fraternidade e a Amizade Social. Já em sua apresentação, faz referência a São Francisco de Assis, que propunha aos seus irmãos e irmãs uma forma de vida com sabor de Evangelho, ou seja, com sabor de amor, pois o Evangelho é o próprio Jesus Cristo, que é puro amor.

Segundo o Papa Francisco, um amor que ultrapassa todas as fronteiras ou barreiras da geografia e do espaço. Uma fraternidade aberta a todos, reconhecendo, valorizando e amando “todas as pessoas independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita.” É feliz quem ama o seu irmão assim: tanto o próximo como o distante, o presente ou o ausente.

O Papa refere-se a São Francisco como o “Santo do amor fraterno, da simplicidade e da alegria”, que o inspirou a escrever a referida encíclica. Para o nosso tempo, suas palavras “caem como luvas”, pois é urgentíssimo que enxerguemos com o coração todas as pessoas como irmãs e a natureza como mãe. Nada mais apropriado do que se inspirar no exemplo do padroeiro da Ecologia, que se sentia irmão do sol, do mar, do vento, de todos, e até do próprio lobo. Foi um exemplo muito próximo ao do próprio Jesus, semeando a paz por toda a parte; andando junto com os pobres, os abandonados, os descartados; socorrendo os doentes, os desprezados da sociedade desumana, injusta e cruel.

Um Amor sem Fronteiras” é caminho para que possamos renovar a face da terra, colaborando com o Mestre Jesus na restauração de toda a obra do Criador: um projeto de vida, amor, justiça, paz e fraternidade.

Pery_Açu

Irmã do Fraterno Amor

Bananeiras, agosto de 2021

Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com

Fonte: Medium, 13/05/2024

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