Somos racionais?

“Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cachorro”, dizia Blaise Pascal. A frase do pensador francês nos faz refletir sobre o tipo de sociedade em que vivemos, onde os interesses individuais estão acima do coletivo. Pensamos primeiro no eu,depois eu e o outro quem sabe seja eu também.
Nos últimos dez dias assistimos cenas revoltantes que estão de acordo com a frase acima. A primeira aconteceu no subúrbio da capital carioca: uma criança de dez anos foi atingida por uma bala que ninguém sabe quem e por que motivo atirou, mas ficou alojada na menina. Bem, a jovem Adrielly, a vítima dessa fatalidade, ficou oito horas dentro da emergência do hospital Salgado Filho. Por que esperou por tanto tempo? Não havia médico especialista de plantão. O escalado para o plantão simplesmente não estava, alegando que não concordava com a escala feita pelo hospital e, por capricho pessoal, não foi trabalhar.
Ora, onde está aquela promessa de salvar vidas? Se fossemos um país sério,esse médico seria punido severamente na sua instituição. E se fossemos um país muito mais sério, esse médico seria condenado por crime de homicídio .
O médico, Adão Crespo, destruiu uma família pelo resto de suas vidas. Não será o dinheiro dos cofres do município que recuperará e cicatrizará a dor desses pais que perderam sua filha de maneira tão imbecil. Talvez perguntem: cadê quem atirou? É importante esta pergunta, porém o bandido não tem noção de salvar vidas, enquanto o médico, ao contrário, tem o dever de salvá-las: mesmo que o paciente possa morrer depois, o médico fez sua parte. Com certeza a família de Adrielly, mesmo com a menina morta, não sofreria tanto como sofreu na porta de um hospital. Perdeu a filha por um capricho do médico.
O mesmo pensamento está valendo para os nossos políticos, em especial os prefeitos e governadores. Todo ano é a mesma novela: as enchentes. A tragédia é anunciada todos os anos, e nenhuma medida de contenção ou prevenção é feita. O dinheiro é escasso não pelo valor, e sim pelos desvios de verbas feitas por alguns servidores públicos. Se fossemos um país sério, muito sério, o servidor pagaria da mesma forma que foi feito o desvio. Veja no caso da Região Serrana do Rio.
Assistindo aqueles documentários sobre a vida selvagem, olho e observo aqueles animais e seus convívios sociais na hora da alimentação, tudo organizado. Chego à conclusão que esses animais são mas racionais que os humanos.
Na minha opinião, em casos como esses que assistimos onde a negligência e o descaso colocam vidas em risco merece uma resposta muito severa. A impunidade alimenta essas posturas do poder público. Enquanto não houver uma punição dura para os políticos omissos, responsáveis por tais atrocidades, essas tragédias vão se repetir sistematicamente. E não podem ser naturalizadas.
(*) Fábio Nogueira é militante da Educafro e Estudante de história da Universidade Castelo Branco.

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