Para tentarmos perceber as relações entre estes dois termos, teríamos que ter uma noção clara do que sejam, de um lado, a sociologia e, do outro, a terapia comunitária. No entanto, por serem ambas, coisas em movimento, corpos de conhecimento e/ ou movimentos heterogêneos e contraditórios, em constante mudança, apenas poderemos ter alguns vislumbres, umas poucas intuições, e fazer algumas incursões nas interfaces de sociologia e Terapia Comunitária.
De um lado, da sociologia, temos um corpo, de conhecimentos, diverso, complexo e contraditório, integrado por formas de pensar oriundas de distintas etapas da história da humanidade, voltadas para o ser social, o ser humano, a sociedade, nos seus diversos aspectos. Do outro lado, da Terapia Comunitária, temos uma prática recente, com mais de 22 anos de existência, oriunda do Nordeste brasileiro, e em expansão para outros países da América do Sul, Europa e África. Nem uma nem outra são neutras, nem poderiam ser, pois têm propósitos, finalidades, objetivos e motivações.
Interfaces: Sociologia e Terapia Comunitária
Feitos estes esclarecimentos iniciais, necessários para construir o foco destas reflexões, passemos à interface essencial, objectual, referente ao ser, entre sociologia e Terapia Comunitária. Quanto à sociologia nos referimos à sociologia humanista que integra as contribuições da vertente compreensiva de Max Weber, desalienadora de Karl Marx e integradora de Émile Durkheim. Por outro lado, concebemos a Terapia Comunitária Integrativa, como um conjunto de formas de ser, fazer, pensar, e sentir, de agir e de estar no mundo, de relacionamento das pessoas consigo mesmas, com os outros, o ambiente, o futuro, o passado, a história pessoal e grupal, a identidade, a memória, as raízes histórico-sociais e os valores culturais. Ou seja, entendemos aqui a Terapia Comunitária como um fato social no sentido durkheimiano (DURKHEIM, 1974), ou, um fenômeno social total, no dizer de Gurvitch (1987)
Na interface que nos interessa, a da construção de saberes, práticas, visões de mundo e formas de relacionamento social, vamos nos ater aos estudos de, Durkheim (1974, 1983) Weber (2005, 2009) e Marx (1978, 1986). Quanto a Durkheim, remetemos os leitores a “As regras do método sociológico” (1974), quando o autor trabalha o conceito de consciência social e consciência coletiva como lugar das representações. Nesta análise, retomada em “Da divisão do trabalho social” (1983), as diferenças individuais, no seio da sociedade, são vistas como elementos dinamizadores, por vezes antecipadores de mudanças necessárias no todo social. Em relação a Weber remetemos a leitura de A ética protestante e o Espírito do Capitalismo (2005) e Economia e sociedade (2009). No que diz respeito a Marx, a noção da contraditoriedade (na história, nas relações sociais, nas relações entre formas de consciência e de existência, entre exploração/alienação e emancipação) perpassa toda a sua obra.
Os propósitos da sociologia e a Terapia Comunitária
Desde o seu começo, a sociologia se propôs a melhoria da condição humana. Embora tenha tido significados diferentes para cada uma das correntes principais do pensamento sociológico, a saber: a sociologia compreensiva de Max Weber, a sociologia dialética de Karl Marx e a sociologia orgânica de Émile Durkheim; existem coincidências essenciais com o que se propõe a Terapia Comunitária, que é necessário rastrear com precisão.
Para Marx, o conhecimento do social deveria conduzir a uma sociedade sem classes, em que as pessoas, libertas de qualquer mediação, tivessem para si de volta o que lhes roubara a sociedade capitalista: a própria essência da pessoa, seu ser social, expropriado tanto pela estrutura econômica que separa os seres humanos e os contrapõe uns aos outros por interesses opostos e conflitantes, quanto pelas estruturas ideológicas (o Estado, a religião, as idéias dominantes, a falsa consciência ou consciência alienada).
Este tema é desenvolvido por Marx em vários de seus textos: A ideologia Alemã, (Teses sobre Feuerbach) (1986), Para a Crítica da Economia Política (1978), e Sobre a questão judaica (2010). A libertação da consciência seria possível pela eliminação das relações de propriedade e de produção que criam a ilusão de um mundo de objetos autônomos com relação aos seres humanos. A destruição deste “mundo da pseudo-concreticidade” é desenvolvida por Karel Kosik em Dialética do concreto (2000) e envolve uma ação ao mesmo tempo na consciência social e na existência social.
Na TC, busca-se o retorno do indivíduo a si mesmo, o fim da alienação, e, nesse sentido, a convergência com o pensamento de Marx é total. Na TC este regresso do ser humano a si mesmo, esta des-alienação, ocorre, em parte, pela pedagogia de Paulo Freire, que restitui à pessoa o seu lugar no mundo, a sua autonomia e a sua auto-estima. As comunidades e os indivíduos recuperam-se para si através de um reencontro consigo mesmos que se processa nas rodas da Terapia Comunitária, como parte da rede social. Esta des-alienação ocorre, também, porque na Terapia Comunitária a pessoa aprende a se ter de volta, independentemente dos papéis sociais que poderiam aprisioná-la.
Convém citar a “catividade no rol”, uma categoria sociológica que se refere à prisão da pessoa em papéis sociais. Isto fica claro nas formações, em que muitas vezes ouvimos alguém dizer: “eu vivia para o meu marido e para os meus filhos, agora vivo para mim mesma”. Para Durkheim, a sociologia deveria ser capaz de trazer de volta a coesão social perdida com o fim da sociedade feudal, que introduzira a anomia na vida doméstica e econômica, política e social.
Para Max Weber (1944), a sociologia compreensiva era uma ferramenta que poderia e deveria descobrir, na ação social, a intervenção dos valores que a orientam e que a constituem como tal, na reciprocidade e complementariedade das expectativas, dando aos sujeitos da ação social a capacidade para escolherem racionalmente o curso da ação.
Esta visão sumária dos eixos ou objetivos das principais correntes da sociologia, estabelece coincidências com a visão da TC enquanto recurso ou tecnologia de cuidado. A TC diminui o sofrimento mental e revitaliza ou cria redes sociais, recompondo o poder das pessoas e comunidades, a partir do reencontro com os próprios valores e história, que dão sentido à existência individual e social.
A TC repõe, revitaliza, recria a sociabilidade inata e genuína do ser humano (LAZARTE, 2011). Temos estabelecido algumas inter-relações referentes aos objetivos, metas ou propósitos da Sociologia e da Terapia Comunitária, mostrando a sua convergência. Resta examinar, agora, de maneira detalhada, o que pode ser dito sobre 1) os pontos de vista de uma e outra ou as perspectivas de abordagem, isto é, as formas de ver e de conceber o mundo humano e social, sua existência e funcionamento. Isto deve conduzir a um exame em detalhe das distintas correntes da Sociologia: clássica, compreensiva, organicista, humanista, materialista, entre outras. Do lado da terapia Comunitária, por sua vez, será preciso observar as direções do olhar para dentro e para fora do terapeuta comunitário, por um lado, e, por outro, as formas como estes olhares ou perspectivas confluem para criar uma ou mais visões da pessoa e a sua inserção e funcionamento na teia social e comunitária. 2) As ênfases causais ou explicativas, ou seja, as formas como são compreendidos os comportamentos individuais, grupais (comunitários e familiares), sociais, etc. 3) as inter-relações entre os diversos planos ou níveis da realidade: material, emocional, mental, psíquico, espiritual; 4) as concepções de mundo subjacentes a uma e à outra, como fundamentações das formas de ser, fazer, pensar e sentir.
Preliminarmente, vejamos algumas áreas do conhecimento social e da ação social, em que se entrecruzam a Terapia Comunitária, e a análise sociológica.
Mobilização social
Entendemos a mobilização social como um processo pelo qual as pessoas ultrapassam as fronteiras ou as delimitações dos seus grupos sociais de pertencimento. Neste sentido, mobilização social é igual à livre circulação e inserção de pessoas na sociedade como um todo, ou em alguma das suas sub-sociedades (famílias, bairros, comunidades, movimentos).
A Terapia Comunitária promove a mobilização social, uma vez que nela colaboram, lado a lado, pessoas de níveis culturais diversos, estudantes e donas de casa, dependentes químicos e membros das mais variadas igrejas, com o objetivo comum de superarem juntos, os problemas emocionais e relacionais de todo ser humano. Neste sentido, a TC age como um elemento de dissolução das barreiras que separam as pessoas em sub-grupos, bloqueando as relações mútuas e o intercâmbio, aumentando as possibilidades de crescimento recíproco e a construção de uma sociedade enriquecida pelo acréscimo das diferenças próprias de cada pessoa e sub-grupo social.
Talvez seja esta, a eliminação dos pré-conceitos, uma das interfaces mais evidentes e positivas da sociologia com a Terapia Comunitária. Durkheim (1974), um dos fundadores da sociologia, estabelecia como uma das regras do método sociológico, a eliminação sistemática de todas as pré-noções, ou seja, de todas as idéias-feitas que impedem o conhecimento dos outros e de si mesmo. Neste sentido, a TC cria espaços de conhecimento e de inter-relacionamento, que estabelecem pontes de reconhecimento mútuo entre as pessoas, além dos elementos que poderiam as separar, como etnia, crença, classe social, aparência física e hábitos. As pessoas se reconhecem como seres humanos.
Isto pode ser notado com clareza nas rodas, nos cursos de cuidando do cuidador, nas vivências. Aos poucos, a pessoa vai percebendo o outro, não importa a sua aparência, a cor da sua pele, a sua condição econômica ou o nível educacional, como alguém que passa por experiências de vida, nas quais pode se espelhar. Ao dizermos aqui que a TC opera como um fator de mobilização social, queremos dizer que, as pessoas passam a se tratar, a se verem umas às outras, além dos recortes separativos da estratificação social. Neste sentido, há uma indicação para a inclusão social.
Nas rodas de terapia, os estudantes saram do autismo universitário, da miragem de um saber sem gente, de um conhecimento sem experiência. E as pessoas do meio popular colaboram com o que tem de mais próprio, seus valores originais: sua generosidade, simplicidade, solidariedade, entre outros.
Um dos pilares da Terapia Comunitária, a pedagogia de Paulo Freire, afirma a autonomia dos sujeitos e a horizontalidade do saber. Isto é praticado a partir do momento em que se entra numa roda de terapia. Ninguém lhe pergunta a profissão, embora possa ser declarada. Mas quando alguém fala, os outros escutam. Todos têm algo a dizer. Todas as histórias, problemas, sonhos, anseios e ansiedades, são importantes. Ninguém dá conselhos nem interrompe quando os outros falam. Não há ninguém mais importante que os demais. Todos se tocam, se abraçam, trocam olhares e palavras de carinho, de afeto, de apoio, de compreensão.
Como afirma Barreto (2008) na Terapia Comunitária, a pessoa se torna terapeuta de si mesma. Não há a pretensão de que o terapeuta cure ninguém. É a comunidade que cura. A sua comunidade interna e a externa. A que a pessoa é em si, e a que ela forma, faz parte, fora dela, na relação com os demais.
Quebra-se a dependência, cada um pode, os outros podem, todos podemos mais. E se isto possa soar como algo ilusório ou pueril, se pode testar a veracidade, de várias formas: participando de rodas de terapia ou ouvindo alguém que já participou ou participa. E, ainda, tomando conhecimento do impacto que esta atividade vem mostrando em diversos municípios do Brasil, na criação ou reforço de redes solidárias, estimulando o aumento da autoestima de pessoas e comunidades, promovendo a reintegração de ex-dependentes de álcool ou outras drogas, mobilizando coletivos das periferias urbanas e de nichos de classe média das cidades, que, aos poucos, mas evidentemente, começam a sair do imobilismo e da apatia, da resignação e da manipulação externa, para serem, cada vez mais, pessoas e comunidades, agentes ativos da sua vida e do seu destino.
Participação social
O tema da participação social há muito tempo tem transbordado os âmbitos acadêmicos e/ou tecnocráticos dos governos e entidades de pesquisa, para se tornar, cada vez mais, assunto do cotidiano das pessoas e instituições. No caso concreto do Brasil, há já várias iniciativas como a Terapia Comunitária de Adalberto Barreto, que vêm ganhando espaços na construção e reforço de laços sociais, agregando pessoas e comunidades, em sentido contrário ao das tendências dissociadoras e anomizantes do mercado.
As relações, cada vez mais, são permeadas por valores solidários na ética cotidiana de pessoas e comunidades, de gestores em saúde e ambientes acadêmicos e de mobilização social, pela recuperação e fortalecimento das identidades pessoas e sociais, reforçando instituições e indivíduos numa marcha silenciosa mas eficiente. Pode parecer idílico ou sonhador, mas o certo é que, pela base da sociedade brasileira, este e outros movimentos, como o da Teologia da Libertação e a Educação Popular de inspiração freireana, vêm ganhando espaço de forma animadora.
Os valores cotidianos, que pareciam entregues ao imediatismo e ao pragmatismo utilitário bem ao gosto do capitalismo diário, cedem espaço para o interesse pelo outro, pela ajuda mútua em várias modalidades. Isto permite conjecturar que, em não muitos anos, várias das lacunas de participação no Brasil possam estar fechadas ou em vias de fechamento. A educação em expansão, em moldes integrativos, com programas como o da Universidade Aberta; o crescente interesse e participação de pessoas de todas as idades em atividades voluntárias de várias tonalidades e formatos, vão construindo, com outras iniciativas nos terrenos da arte e da cultura, da dança e da música, do artesanato, e da reciclagem de resíduos, uma perspectiva de coesão e de participação social impensável pouco tempo atrás.
O analfabetismo, a expulsão dos pequenos agricultores das terras nos interiores, o desemprego e o subemprego, a subremuneração e a exclusão social que em grande medida ainda prevalecem no País, cedem terreno, como dissemos, em escalas não pequenas, a estas ações concretas que pontuamos, visando a construção de um tecido social mais firme e unido.
Verdadeiramente os desafios são enormes. Embora estes sinais apontados sejam alvissareiros, os obstáculos internos e externos não são de pequena monta. O que vale, neste contexto, é que a esperança que nos é possível vislumbrar, está longe de ser um devaneio ou um desideratum abstrato, ao contrário, se alimenta de inúmeras experiências vivenciadas tanto no Brasil, especialmente, mas não exclusivamente na Paraíba e no Ceará, em ações pela base, em que nos foi possível construir este retrato esperançoso que, temos certeza, será ainda aprimorado pela colaboração de muitos pelo Brasil afora, nessa construção calada que marca as mudanças internas e externas que consolidam, dia a dia, a efetiva construção de um mundo melhor, feito de amor e de paz, de justiça e de respeito à diversidade, no marco de uma humanidade, uma e única, sem distinções de qualquer espécie, reintegrada à matriz cósmica de que vem e à qual pertence desde sempre pois que é o seu lugar.
Sabemos que muitos terapeutas, em distintos lugares, somam as suas ações e intenções, seu trabalho silencioso, melhorando as relações interpessoais, de maneiras tão diversas que seria impossível enumerar. São veredas alinhadas com o projeto de humanização do ser humano, de reintegração da humanidade ao cosmos, às matrizes primordiais que dormem no interior de cada pessoa e de tudo que existe, uma vez que tudo é oriundo do mesmo lugar e a ele retorna após os ciclos individuais das pessoas, das espécies, dos povos, das civilizações, das nações.
Paulo Freire (2002) e a sua pedagogia libertadora desfazem as estruturas alienantes do saber privatizado, empossando pessoas de todas as idades e condições sociais, quebrando a síndrome da miséria psíquica, e tantas mazelas como o consumismo, a passividade, a resignação, a omissão.
A Terapia Comunitária, entre outras coisas, talvez a mais importante, restitui a identidade da pessoa, melhor dizendo, a pessoa se reencontra na Terapia. Volta a si mesma. Retorna ao que sempre foi. Descobre-se poderosa, capaz, vencedora de tantas batalhas que venceu ao longo da sua vida. E ao seu redor, outras tantas pessoas que também fizeram ou fazem o caminho de volta. Gente que deixou a bebida, as drogas, a depressão, a solidão, para se juntar a outros, numa caminhada infinita de ajuda mútua e de construção coletiva de melhores condições de vida para todos.
Cada leitor poderá acrescentar da sua própria experiência, ações de que participa ou das que tem conhecimento, em que a esperança viva se faz verdade, de modos simples e efetivos. Por isto, podemos dizer como o poeta, alguma palavra que nos anime a seguir nesta trajetória, confiando que a herança de que somos depositários nos torna capazes de seguir vencendo, em direção a um horizonte que cada vez está mais perto.
Inclusão social
Nos dias de hoje, muito se ouve falar sobre inclusão social. O conceito de inclusão social remete a uma integração de setores marginalizados no quadro da estrutura social vigente. No contexto destas breves reflexões, a inclusão social tem um aspecto de integração da personalidade e integração na sociedade. Nas rodas da terapia comunitária, que é chamada de integrativa, as pessoas passam a perceber a unidade das suas vidas, o fio condutor que costura, unificando, os fatos primeiros e derradeiros das suas vidas.
Isto ocorre de várias formas. A história pessoal de cada um vem a tona, e se emparenta com as histórias de vida dos outros presentes. A saída da roça ou da cidade pequena para a grande cidade, para a periferia urbana, com a conseqüente sensação de perda de identidade, são sentimentos comuns aos migrantes no Brasil e em qualquer parte do mundo. Mudam os costumes, deixa-se de ser alguém inserido numa trama de relações habituais, para passar a ser algo estranho, um desenraizado, uma alma penada, como diz Adalberto Barreto (2011) em “As dores da alma dos excluídos no Brasil”.
Quando passamos a fazer parte da roda da terapia, começa a se costurar a própria história, ela ganha coerência e consistência. Já não somos mais um João ninguém. Outros pronunciam o nosso nome uma vez à semana, ao menos. São lembrados aos aniversários, canta-se e dança-se juntos. Muitas donas de casa que não saiam de sua casa, vêem outras pessoas, sorriem, encontram um sentido maior no seu viver, do que meramente atenderem marido e filhos que, muitas vezes tem suas próprias vidas à margem delas. Aposentados que apenas viviam à espera da morte, recuperam a alegria de viver, brincam, contam chistes, dançam nas rodas e entoam orações com crianças, com jovens, com estudantes e doutores da universidade e técnicos em saúde, agentes comunitários, etc. A integração funciona para todos, para os de baixo e os do meio, na verdade, uns e outros geram uma mandala giratória, em que ninguém sabe quem é o outro.
Assim, a inclusão funciona para dentro e para fora da pessoa. Ela se inclui na medida em que se sente parte de história comum, numa fala comum em que se reconhece. Neste sentido, inclusão e integração, funcionam quase como sinônimos. Os estudantes e doutores, médicos e professores, por sua vez, quebram a barreira do isolamento que a educação superior produz com freqüência, e se redescobrem gente, apenas gente. Nestas rodas, se processam momentos de encontro das pessoas consigo mesmas, motivo pelo qual se pode dizer que a terapia comunitária é uma ferramenta de inclusão social.
A recuperação da pessoa humana: des-alienação, autoconhecimento
Des-alienação significa, aqui, o retorno da pessoa ao seu ser original, o abandono de imagens falsas ou equivocadas a respeito de si mesma, vir a se conhecer da forma como cada um de nós é. Isto acontece no processo de autoconhecimento que começa a se verificar a partir do momento em que a pessoa começa a se integrar nas rodas da Terapia Comunitária, e, de maneira ainda mais forte e evidente, no processo de se tornar um terapeuta comunitário.
No processo formativo (que começa, mas não termina no curso de formação), o terapeuta se defronta com o que ele pensava que era, as idéias prévias que tinha a respeito de si, o que ele tinha internalizado como pensamentos e sentimentos sobre si mesmo. Estes preconceitos são o que podemos chamar de “inimigo interno”, as noções equivocadas, que nos dizem constantemente: “você não pode, você não vale nada, você está só, nunca foi amado, não tem futuro”. Esse diálogo interno negativo começa a ser mudado por uma percepção correta da pessoa sobre o que ela é, o que ela pode, qual foi a sua história, quais os seus valores fundamentais, qual o seu projeto de vida, qual a sua identidade, o seu valor (WATTS, 1950?, FREIRE, 1987; HAY, 1993, BRANDEN, 1995).
Neste processo de autopoiese contínua, a pessoa vai se ressignificando e ressignificando o seu passado, o seu modo de ser e de se relacionar com os demais, as suas metas e objetivos, a sua razão de ser e de viver. Isto é des-alienação. Este processo tem formas específicas de acontecer no processo formativo. A pessoa é levada a se ver como alguém que é o que é, ou, ao contrário, como alguém que é o que os outros querem que seja. O processo da pessoa vir a saber o que ela é, quem ela é, é gradativo e aproximativo, nunca totalmente concluído. Nas rodas da Terapia Comunitária, no processo de vir a se tornar um terapeuta comunitário, a pessoa se defronta com o seu ser verdadeiro. Obviamente, isto ocorre apenas se a pessoa estiver disposta a se ver como ela é de verdade, e não se ela estiver for alguém que vive fazendo de conta, tentando agradar ou tentando cumprir papéis que lhe foram atribuídos ou que se auto atribuiu. A Terapia Comunitária cria as condições para este reencontro profundo.
Vamos tecer agora algumas considerações sobre o autoconhecimento, neste processo de autodescoberta do ser autêntico que é a maior convergência dos ideais libertários da sociologia, a sua meta emancipatória, e a Terapia Comunitária como recriação da matriz livre e autêntica da existência humana.
O autoconhecimento tem sido visto, em parte corretamente, como uma atividade essencialmente solitária. Na medida em que somos seres sociais, no entanto, isto é verdade apenas de um lado, desde uma perspectiva, a perspectiva interna, presente em todas as interações sociais. Saber quem somos é uma preocupação e interesse dos mais genuínos da pessoa humana, e acompanha os primeiros passos do despertar da consciência de cada um de nós.
Percebermo-nos vivos, existindo, respirando, tendo sensações e sentimentos, um corpo que se move, com desejos, passado, ambições ou expectativas, esperanças e decepções. Isto tudo desperta a natural curiosidade por saber quem é esse ser que cada um de nós é.
Este processo de busca ganha força na hora em que a pessoa entra nas rodas da terapia comunitária, seja como curioso, como usuário, ou bem como membro formador nos encontros, nas vivências, nos congressos, nas reuniões de pesquisa. Nestas oportunidades, as pessoas se encontram com o objetivo de se tornarem cada vez mais elas mesmas. Isto supõe um resgate da criança interior, do menino ou da menina que todos fomos um dia e que de alguma forma somos ainda e continuaremos a ser.
Uma das premissas básicas deste reencontro interior, desta volta a si mesmo, é saber o se quer, o que se é, o que vamos sendo e o que temos sido ao longo da vida, e como isto foi mudando nosso modo de ser, nossas aspirações, frequentemente nos distanciando do que de verdade somos, do nosso ser verdadeiro e genuíno. “Eu sou quem eu sou, e não quem os outros querem que eu seja”, escutamos uma e outra vez. “Eu não apenas tenho sofrido, mas tenho crescido com as minhas dores”. Isto alude aos processos de socialização primária e secundária, em que a pessoa vai adquirindo habilidades e se inserindo em papéis sociais, para desempenho de funções, muitas vezes em conflito com as suas vontades ou desejos.
Ninguém nasceu para sofrer, mas todos podemos crescer, e de fato crescemos, com a dor. Para chegar a ser quem somos hoje, tivemos que vencer muitos desafios. Nas rodas da Terapia Comunitária, percebemos que não somos os únicos, que outras pessoas passaram por experiências de triunfo, de luta e de dor como as nossas. Isto tem um potencial libertador acima de qualquer expectativa, uma vez que reinsere a pessoa, por este expediente tão simples, na trama da existência humana e social.
Considerações finais
Temos visto aqui, algumas das convergências que podem ser encontradas entre a Sociologia e a TC. Em algum sentido, pode ser dito – e a análise aqui apresentada caminha nessa direção – que a Sociologia enquanto ferramenta de recuperação da pessoa humana e a TC enquanto metodologia de diminuição do sofrimento mental que se concretiza no regresso do indivíduo a si mesmo e para si mesmo, coincidem totalmente.
A finalidade é a mesma: a recuperação da pessoa, de sua essência, na recriação de um útero social primitivo, redundando num constante fortalecimento da sua integralidade, na relação consigo mesma, com a sua história de vida, sua memória e suas origens; isto é: uma unidade na diversidade, um respeito às diferenças, onde o que nos distingue uns dos outros, é fonte de enriquecimento e completamento recíproco e constante.
Pode se dizer, a título de conclusão provisória e parcial, que a Sociologia e a Terapia Comunitária são dois braços com que a humanidade atual se traz de volta a si, de si para si. Um esforço de reconstrução da vida sobre novas bases, ou melhor, sobre bases antigas, primordiais, resgatadas e ressignificadas nos dias de hoje, em direção a um futuro de integração positiva das diferenças, de mútuo estímulo construtivo das oposições, onde o próximo, que de cada um de nós difere, é visto como um colaborador na construção do destino de cada um e do destino comum.
REFERENCIAS
BARRETO, Adalberto. Terapia Comunitária passo a passo. 2 ed. Fortaleza: LCR, 2008.
________. As dores da alma dos excluídos no Brasil. Disponível em: http://www.consciencia.net/as-dores-da-alma-dos-excluidos-no-brasil-%E2%80%93-por-adalberto-barreto/ Acesso em: 6 mar 2011.
BRANDEN, Nathaniel. Auto – estima: como aprender a gostar de si mesmo. São Paulo: Saraiva, 1995.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 26. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974. 128 p.
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Ed. Abril, 1983. 245 p.
FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 26ª. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. 158 p.
________. A Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GURVITCH, Georges. Dialética e sociologia. São Paulo: Vértice-Editora Revista dos Tribunais, 1987. 122 p.
HAY, Louise L. Modificando o diálogo interior. In: Coleção Pensamentos e Textos. A Essência da Meditação. São Paulo: Martin Claret, 2002.
KOSIK, K. Dialética do concreto. 7ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000. 230 p.
LAZARTE, Rolando. La terapia comunitaria y la recuperación de la persona humana. Revista La Nave, Mendoza/Argentina, n. 3, 2011. p 34 – 35.
MARX, K, ENGELS, F. A ideologia alemã: teses sobre Feuerbach. 5ª ed. São Paulo: Hucitec, 1986. 138 p.
MARX, K. Para a crítica da Economia Política, in Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. (São Paulo: Abril Cultural, 1978) 2ª ed.
_________. Crítica da filosofia do direito de Hegel (São Paulo: Boitempo, 2010)
_________. Sobre a questão judaica. (São Paulo: Boitempo, 2010)
WATTS, Allan. Tabu: o que não deixa você saber quem você é. n. 53. Ed. Especial de Revista Planeta, [1950].
WEBER, M. A ética protestante e o Espírito do Capitalismo (São Paulo: Pioneira) 2005.
________. Economia e Sociedade: Fundamentos da sociologia compreensiva: v.1 São Paulo: Imprensa Oficial, 2009.
Fonte: Revista Uruguaya de Enfermería
http://www.fenf.edu.uy/rue/sitio/num12/12_art05_lazarte.pdf

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

Bravo, Rolando!
Que texto bem escrito e esclarecedor!
Abs.
Obrigado pelo seu comentário, Mey!