Sobre o sentido de ser e de viver

riosTentando atender a uma necessidade interior, ao mesmo tempo que a um compromisso com o coletivo católico do qual faço parte*, esta manhã decidi deixar vir ao papel algumas ideias. O que significa para mim, o que poderia vir a significar ser cristão para mim, nos dias de hoje? Em primeiro lugar, acredito cada vez menos nas auto-definições ideológicas, as auto-rotulações. Sempre as considerei enganosas, e continuo as encontrando mais como formas de se esconder, do que de se comprometer. Isto tem a ver com a minha história de vida, mas acredito que tenha a ver também muito com a realidade. Não creio que eu me definir como alguma coisa, me torne mais humano, mais fiel a mim mesmo, mais consequente com o que considero que nos é dado viver e ser, como seres humanos. Isto está em permanente descoberta. Acredito que devemos ir para um tipo de ação integral, não dissociada. “Isto é religioso, isto não é.” Isto é uma forma de manter a dissociação e a vida é unidade, ou devemos tender para uma vida una. Vida integrada.

Nesse sentido, não creio que pertencer a um grupo ou a uma instituição, possa fazer algo de bem para mim, se eu mesmo não estiver disposto a ser honesto comigo mesmo, a ir em busca da verdade constantemente, e a me comprometer com a verdade que for descobrindo. Acredito que isto possa ir me livrando de mentiras interiores, e fazendo de mim uma pessoa mais justa. Com todas estas ressalvas e esclarecimentos, sinto-me cristão e católico, talvez no sentido original e puro que estas palavras contém, e que nada tem a ver com instituições no sentido formal do termo. Todo grupo é alguma forma de institucionalização, mas é uma institucionalidade leve. Fazer parte deste coletivo cristão de que participo, tem uma importância fundamental para suprir necessidades interiores e sociais, de fraternidade, de pertencimento, de aposta no futuro, de compromisso com uma forma de ser e de estar na vida e no mundo.

Não acredito em seitas nem partidos, nem em iluminados. Acredito em coletivos mobilizados, entrelaçados. Acredito e participo de redes sociais. Por aí é onde encontro razões para viver fortemente ancoradas no sentido do viver. Sem exclusivismos nem privatizações. Sem salvacionismos nem exclusões. Sem prisões conceituais, e com uma apertura para o diverso, ao sopro da vida, ao fluir da existência.

Participo sobre tudo da rede e do movimento social que é a Terapia Comunitária Integrativa, uma prática de recuperação da pessoa humana e de valorização da experiência e do saber das classes populares, em confluência com o conhecimento científico e acadêmico. Esta prática, nascida na favela de Pirambú, em Fortaleza, hoje está expandida por vários países da América Latina e Europa. Não é uma panaceia nem um remédio miraculoso, mas uma forma de criação de sentidos de comunidade, uma forma de criar laços positivos entre as pessoas, alimentar a confiança em si mesmas e nos seus projetos de vida. Recuperar e manter o sentido da vida. Os sentidos da vida. A pedagogia de Paulo Freire é uma das bases de sustentação desta prática. Acredito sobre tudo nas pequenas ações, invisíveis na aparência, mas de enorme efetividade no interior das pessoas e das famílias, das comunidades.

Nenhuma igreja, nenhum partido, nenhuma ideologia pode ser mais do que as pessoas. Nada pode nem deve pretender ser mais do que o ser humano, o valor máximo para nós, humanos e humanas.


*Kairós-Nós Também Somos Igreja

Um comentário sobre “Sobre o sentido de ser e de viver”

  1. Excelente texto Rolando.
    Discutíamos ontem o ser “caçador de mim”, esta essência mutável, estável na instabilidade do movimento da vida, do universo.
    Grande abraço. Ilza

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