Como palestinos e israelenses comportam-se durante um jogo de futebol da Copa do Mundo? Para quem torcem? Como a identidade nacional se expressa nesse momento? Durante o período da Copa do Mundo da África do Sul, Arturo Hartmann, João Carlos Assumpção, José Teles de Menezes e Lucas Justiniano foram para Israel e Palestina, onde ficaram por alguns meses. O resultado é o documentário “Sobre Futebol e Barreiras” (Brasil, 2011, 110 min), que responde às perguntas acima. O trabalho foi selecionado para a 35ª Mostra Internacional de Cinema, que começou nessa quinta, 20.
A Caros Amigos conversou com um dos diretores, o jornalista Arturo Hartmann, que explica que o que procuraram fazer foi “usar a Copa do Mundo, a festa popular por excelência das nacionalidades, para entender como as nacionalidades de israelenses e palestinos se manifestam no momento do cotidiano. Era talvez aproximar um conflito que para muitos parece incompreensível para um âmbito que pode ser compreendido por todos, uma linguagem que pode ser compreendida por todos”. Confira abaixo.
Caros Amigos- Como surgiu a ideia de fazer o documentário?
Arturo Hartmann- Antes de fazermos as filmagens do documentário, viajei três meses sozinho por Israel e Palestina, como uma pesquisa para um livro, uma pesquisa jornalística, que acabou servindo como pesquisa para o filme. Eu já escrevia sobre a questão aqui, mas isso já não bastava. Precisava ir até lá. Uma noite, estava em um bar em Belém, nos Territórios Ocupados, assistindo com algumas pessoas ao jogo Egito x Argélia, semifinal da Copa Africana de seleções. Isso por volta de fevereiro. Foi uma coisa incrível. Todos os palestinos ali estavam torcendo para a Argélia, talvez apenas um para o Egito – devia ter família lá, não sei. Todos torciam para a Argélia porque, na época, o então governo de Mubarak era uma espécie de parceiro de Israel no cerco à Gaza, já que o Egito controla a fronteira sul, com a cidade de Rafah. E eles diziam que o exército egípcio trabalhava em parceria com o israelense. Achei aquilo demais. E um dos palestinos, que inclusive acabou virando um dos entrevistados do filme, me disse: “Você tem que ver isso durante a Copa do Mundo”. Foi irresistível jornalisticamente. Aí falei com o Lucas (Justiniano) – cineasta – por Skype, e ele adorou a ideia também. E aí ele conversou com José (Menezes) – também cineasta – e o João (Carlos Assumpção) – jornalista -, e todos acharam demais e toparam fazer o documentário. Foi uma coisa que nasceu do completo acaso.
Por que a escolha de tratar o conflito israelense-palestino tendo o futebol como pano de fundo?
Na verdade, tratar a questão tendo o futebol como fundo não é uma coisa inédita. Acho que na verdade o que procuramos fazer foi usar a Copa do Mundo, a festa popular por excelência das nacionalidades, para entender como as nacionalidades de israelenses e palestinos se manifestam no momento do cotidiano. Era talvez aproximar um conflito que para muitos parece incompreensível para um âmbito que pode ser compreendido por todos, uma linguagem que pode ser compreendida por todos. Acho que o que fizemos foi inserir uma visão particular e específica do conflito, foi dar uma visão disso que eu vejo como a “sociedade do conflito” interagindo de uma outra forma. O que não quer dizer que deixamos o conflito de lado.
Como encontraram os personagens do documentário? E como os escolheram?
Alguns personagens eu já havia encontrado na minha primeira viagem, eu conhecia da pesquisa que eu havia feito. Outros encontramos na segunda viagem, quando toda a equipe foi para lá. Acho que houve uma rápida percepção de todos os diretores, acho que foram sensíveis em entender as complexidades locais da sociedade e então pensarem no filme como um todo. O João já havia estado lá anos atrás, mas os outros dois não. A busca dos personagens foi muito dada ao acaso. Chegamos 15 dias antes de a Copa começar e viajamos por todo o território de Israel e Cisjordânia (Palestina) buscando personagens que gostassem em alguma medida de futebol e que pudessem falar de questões sociais e políticas. Entrevistamos quase 30 pessoas. Onze ficaram na versão final.
A região, e as pessoas que nela vivem, aparecem, no geral, sempre em notícias relacionadas a conflito e violência. No documentário, vocês humanizaram o conflito, mostrando os palestinos e israelenses assistindo aos jogos da Copa e comentando sobre futebol. Essa foi a intenção desde o começo do projeto ou decidiu-se por isso ao longo do trabalho?
Na verdade, a inserção do futebol foi decidida desde o começo. Talvez não soubéssemos como entraria exatamente, afinal íamos lidar com torcedores que se relacionavam com os times de formas diferentes, mais ou então menos apaixonadamente. E a forma como discutiríamos política e sociedade com eles também não tinha um roteiro. As questões e os pontos, sim, mas a forma não. A ideia era deixá-los à vontade, não dizer “sente aqui, olhe pra cá. Agora comemore”. Não queríamos sentar pessoas para entrevista como em um programa de TV. Acho que a ideia dos jogos, além de levantar questões de nacionalidade, era criar um clima mais leve para falar de assuntos pesados, e algumas vezes polêmicos.
A Copa do Mundo mexe muito com o sentimento de identidade nacional. Como foi lidar com isso numa região em que essa questão é tão complexa e delicada?
Essa sim acho que era a questão central para nós, e isso tínhamos muito claro desde o momento que saímos daqui. Isso era claro. A base do documentário foi aquela história do Egito X Argélia que te contei antes. E até uma dificuldade quando explicávamos o projeto para as pessoas. Elas achavam que usaríamos o futebol e a Copa para amenizar o conflito. Ao contrário. Queríamos talvez, no limite, exacerbar o conflito de uma outra forma num outro momento, na “janela” da Copa do Mundo. Há documentários sobre a questão que escolhem mostrar o conflito armado, ou imagens aterradoras de Gaza, ou como é passar por um posto de controle. São mais violentos, digamos assim. O nosso documentário, apesar de ter discussões polêmicas, momentos dramáticos e tensos, também incorpora momentos engraçados, piadas, ou então a leveza de simplesmente torcer por um time de futebol. No fim, nosso filme é uma discussão atual da sociedade Israel/Palestina.
O filme é dirigido por quatro pessoas. Como foi conciliar a visão de cada um sobre o tema?
Bom, acho que ajuda sermos todos amigos. Mas na verdade acho que há uma outra coisa, especialmente quando se fala da questão palestina. É uma questão polêmica, sem dúvida, é na verdade um conflito de guerra, que exacerba paixões dos dois lados. Mas o problema, quando falamos de cobertura jornalística, por exemplo, é que você é ou pró-palestina ou é antissemita, ou é pró-Israel, enfim, anda-se numa corda fina. Ou cai para um lado ou o para outro. Por exemplo, mantivemos um blog durante as filmagens. Em um post me elogiavam, no outro a mesma pessoa dizia que eu era pró-Hamas. Acho que o que conseguimos fazer foi discutir a questão de um ponto de vista social. O jornalismo, ou outras profissões de comunicação, como o caso do cinema, sofrem com isso, pois esse tipo de estrutura engessa a cobertura. Não posso falar de crianças presas nos territórios ocupados porque isso é anti-israelense. Não posso falar da ocupação, porque não vejo o lado israelense. Mas ela existe, a ocupação não é uma grande ilusão. Por outro lado, não posso humanizar os israelenses porque eles são “grandes assassinos” ou porque “são nazistas”. Se quiséssemos agradar a um dos lados, ou aos dois, não sairia nada. Acho que se você sentar com os quatro, ouvirá opinião e relação diferentes ao que viu e viveu lá. Ou sobre a questão em si. Mas acho que havia uma consciência entre todos de que queríamos mostrar o retrato de uma realidade que não inventamos do nada, mas que existia, sem perder de vista todas as complexidades do conflito e daquela sociedade. E, no fim, em alguma medida, acho que há a opinião e visão de todos no filme. As contradições e complexidades dessa sociedade israelense/palestina estão no filme, sem deixar de ignorar a realidade que vimos por lá.
Serviço:
Sobre Futebol e Barreiras
De Arturo Hartmann, Lucas Justiniano, José. Menezes, João C. Assumpção (110′). BRASIL. Falado em português, inglês, hebraico, árabe. Legendas em português. Indicado para: Livre.
UNIBANCO ARTEPLEX 2 – 24/10/2011 – 19:10 – Sessão: 270 (Segunda)
RESERVA CULTURAL 1 – 02/11/2011 – 17:00 – Sessão: 1045 (Quarta)
ESPAÇO UNIBANÇO POMPÉIA 1 – 03/11/2011 – 15:40 – Sessão: 1151 (Quinta)
*Em São Paulo. Entrevista publicada originalmente na Caros Amigos.
