Série do ‘Globo’ sobre violência é criticada

Moradores de favelas e intelectuais criticam a série de reportagens do jornal O Globo sobre a violência na periferia carioca.
Por Marcelo Salles – Fazendo Media

A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra, foi uma das primeiras fontes procuradas pela reportagem do “Globo” ainda durante a formulação da pauta. Ela ressaltou a importância das matérias, mas fez duras críticas ao conteúdo dos textos e, sobretudo, à chamada da capa do domingo dia 19, o primeiro dia da série, cuja manchete foi “Tráfico impõe leis de exceção para 1,5 milhão de cariocas”.

“Eles dizem que 70% dos casos dos desaparecidos são feitos pelo tráfico e pelos grupos paramilitares. Isso é um absurdo! Porque esquecem o Estado. É uma forma de absolver o Estado”, afirmou a professora do departamento de psicologia da UFF.

Wanderley da Cunha é coordenador do Pré-Uni Acari, curso pré-vestibular da Favela de Acari, e morador da região. Em sua opinião, que é também a de outros moradores da periferia, os moradores de favelas foram enganados pelo jornal. “É sempre assim: uma jornalista de voz simpática nos liga e nos diz que está fazendo uma matéria que vai ajudar a nossa favela na luta contra a violência e pelos Direitos Humanos. Mas, nem bem termina a série de reportagens e descobrimos que fomos ‘traídos’ mais uma vez, que não devíamos ter confiado de novo em gente bem ‘intencionada’ como Carla Rocha e não devíamos abrir nossas portas e nossas vozes para ela”, afirmou Wanderley.

O coordenador do Pré-Uni Acari também deixou claro que a responsabilidade maior é dos donos e editores do jornal: “No final, a aparente boa intenção de repórteres ditos investigativos como ela é desmascarada por seus chefes, editores e donos de jornal. Toda a série de reportagem, com toda aparência de independência, serve apenas para ilustrar o que pensa o jornal sobre a gente favelada: a favela é uma doença urbana. E a gente favelada mais uma vez constata que governantes, mídia impressa, falada e etc. pensam e vêem a favela e o favelado como uma doença”.

Wanderley se refere ao editorial do Globo da terça-feira dia 21, cujo título é “Ditadura na favela”. Sua primeira frase foi particularmente muito criticada: “Embora seja uma doença urbana disseminada pelo país, a favelização virou a cara do Rio”. O termo “doença” remete ao início do século passado, quando o prefeito Pereira Passos destruiu o cortiço Cabeça de Porco com a justificativa de higienização do centro da cidade. E a idéia de “limpar” ou “curar” remete ao pensamento nazi-fascista, ainda muito presente na sociedade atual e na maneira de pensar dos donos das corporações de mídia.

A socióloga Vera Malaguti, secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia, relembrou o editorial de um jornal carioca de 1835, com o título “Mais polícia”. O trecho está reproduzido em seu livro “O medo na cidade do Rio de Janeiro”: “precisamos de uma polícia que a nós inspire confiança e aos escravos infunda terror”. Para Vera, “trata-se da matriz discursiva da questão da polícia no Brasil”.

Cecília Coimbra ressalta que os meios de comunicação de massa produzem um deslocamento subjetivo do eixo da violência. “O tempo todo a gente diz que a violência não está com a pobreza, porque se a pobreza fosse violenta a gente não saía na esquina. A violência está com os agentes do Estado. São os agentes do Estado que promovem a violência nessas comunidades”, diz.

Vera Malaguti concorda. E responsabiliza as corporações de mídia pela produção do medo que vai justificar políticas repressivas contra as populações de baixa renda. “Da saída da ditadura pra cá, acho que os meios de comunicação martelaram o medo, e o medo sempre concentrado no varejo da pobreza, na criminalização da pobreza. [Por outro lado], nós não tivemos medo do privatizador, embora o Brasil tenha perdido muito mais com isso do que qualquer outra coisa”, comparou.

Por fim, Wanderley da Cunha observa que “na verdade, talvez a verdadeira doença social do país esteja por detrás das grandes e das guaritas dos condomínios fechados da Zona Sul e da Barra da Tijuca. Pois é de lá que os verdadeiros donos do tráfico comandam seus negócios e lucram com o sangue e a vida que se esvaem dos corpos dos jovens favelados”. (Original da matéria, clique aqui)

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