Seminário Internacional da Cúpula dos Povos define críticas e soluções à Rio+20

Sandra Morán, Marcelo Durão, Graziela Rodrigues e Pablo de la Vega, em coletiva realizada nesta segunda (19/3), no Rio (foto: Isabela Fraga)

Representantes de entidades da sociedade civil de diversas regiões do país e da América Latina estão no Rio de Janeiro para organizar a programação da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Conferência das Nações Unidas (ONU) sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, em junho. Desde domingo (18) cerca de 60 pessoas de diversos países participam do Seminário Internacional, promovido pelo Comitê Facilitador da Cúpula dos Povos, para acertar a metodologia do evento, sua operacionalidade e divulgação.
Os temas prioritários da Cúpula serão direitos humanos e dos territórios e soberania alimentar. As atividades vão se orientar em três eixos: causas estruturais da crise ambiental, falsas soluções da economia verde, e propostas com base nas experiências concretas dos povos do mundo inteiro. O modelo de produção agrícola é um dos principais problemas apontados, assim como as políticas de compensações ambientais na emissão de crédito de carbono.
Em coletiva à imprensa, o Comitê disse que se reuniu com o prefeito Eduardo Paes nos últimos dias e ficou acertada a realização das atividades no Aterro do Flamengo, zona sul do Rio. Mas a prefeitura, segundo os organizadores do evento, está dificultando a instalação de acampamentos e alojamentos na região, e quer levar as cerca de 10 mil pessoas esperadas para a Quinta da Boa Vista, longe do Centro da cidade. A estimativa dos organizadores é de até 20 mil pessoas participarem da Cúpula.
“Está em disputa a política de visibilidade, porque a ECO 92 foi um marco nesse território. É um espaço de grande convergência da cidade. Até quinta feira a prefeitura vai nos oferecer uma possibilidade”, afirmou Graciela Rodrigues, do Comitê Facilitador.
Na Cúpula dos Povos haverá convergências auto gestionadas com temas específicos, que serão debatidos e levados à Assembleia Geral, na qual um documento será sistematizado pela sociedade civil e entregue aos governos. Outras propostas estão em discussão, como a instalação de tendas indígenas, disponibilização de alimentos orgânicos, dentre outras características típicas dos povos durante a realização.
Sandra Móran, da Guatemala, representante da Marcha Mundial das Mulheres, destacou a importância do Seminário e lembrou que os povos também estarão realizando atividades em seus territórios enquanto a Cúpula ocorrer no Rio de Janeiro.
“Esse é um momento para nos encontrarmos e fortalecermos os movimentos e nossas propostas, a articulação de nossas forças. Na Guatemala estão vendendo os territórios, militarizaram a sociedade, isso implica a abertura dos territórios para as transnacionais. Vão criar, por exemplo, um mega projeto ligando a Guatemala com o Canal do Panamá, que atingirá 5 cidades. Precisamos nos articular enquanto movimento para resistir às multinacionais”, afirmou a militante.
De acordo com Pablo de La Vega, equatoriano coordenador regional da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o modelo atual de desenvolvimento está nos auto destruindo. Ele deu destaque à questão dos territórios, ao lembrar a quantidade de conflitos e mortes de camponeses, indígenas e comunidades tradicionais na disputa pela terra na América Latina.
“A disputa da terra está ligada ao poder. Terras são retiradas dos campesinos e indígenas. É preciso um amplo debate sobre a disposição das terras e suas implicações na vida dessas pessoas no continente. Na Guatemala, por exemplo, a impunidade dos assassinatos de povos indígenas é assustadora. É preciso ter respeito pela Pachamama”, afirmou La Vega.
A principal proposta da Cúpula é sair da crítica e denúncia para a apresentação de propostas concretas dos povos. Nesse sentido, Marcelo Durão, representante da Via Campesina, deu alguns exemplos.
“A reforma agrária continua em pauta, e a agricultura familiar esfria o mundo, tem maior relação com a natureza. É de uso, mas não degradação. Vamos debater essas experiências que a gente não consegue visibilizar, como a agroecologia, que é toda uma relação diferente que o agricultor tem com seu território, a natureza e com o consumidor. É um conjunto de mudanças na produção e desenvolvimento, mas não é só uma mudança técnica”, apontou Durão.
Os movimentos temem o descumprimento dos compromissos assumidos pelos países, assim como ocorreu com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, acordados nas Nações Unidas, nos últimos 10 anos. E sustentam que o sistema capitalista está procurando sua revitalização após a crise de 2008, à custa de direitos adquiridos pelos trabalhadores nas áreas ambientais e trabalhistas. A mercantilização dos bens comuns é uma denúncia recorrente feita pelas organizações.
Segundo Graciela Rodrigues, da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) e membro do Comitê Facilitador da Cúpula, há um sequestro da democracia em diversos países, e é preciso resgatar a governabilidade. Ela denunciou, ainda, que a governança global está concentrada, no momento, na mão de poucos países que integram o grupo das 20 nações mais ricas do planeta, que “não têm legitimidade para governar o mundo, porque não têm o conjunto das opiniões. Tem que se dar um basta às assinaturas de governos que não são cumpridas. Essa economia verde transforma a natureza em lucro”, concluiu.
Haverá uma Caminhada dos Povos no dia 25 de março, a partir das 15h, do Morro Cantagalo até o Parque Garota de Ipanema, no Arpoador, onde vão ocorrer várias atividades. Está previsto na programação shows, oficinas de pipa, agroecologia, arte com lixo e feira de trocas, dentre outras realizações.
(*) Matéria reproduzida da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

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