Se eu fosse um morador de rua, tinha dançado

(Foto: selusava/flickr)

São 01h30 da manhã de quinta-feira, foi agora há pouco. O bairro é de classe média, zona norte do Rio de Janeiro. A situação faz parte da minha semana: por vezes, pegar a bicicleta nesse horário para cumprir a rota de apenas 10 minutos entre a minha casa e a casa da minha família, da Tijuca a Vila Isabel.

No caminho, nesse horário, sempre a mesma companhia. Alguns mendigos, moradores de rua, catadores de papel, às vezes trabalhadores da prefeitura. Um cenário de tranquilidade.

Mas hoje, 26 de abril, foi um pouco diferente. Logo no início, paro no sinal ao avistar um carro, um gol prata. O carro, em vez de seguir, desacelera. Um homem, mais ou menos a minha idade (30 anos), começa a olhar pra mim. Um short e camisa velhas, usava eu. O rapaz parece alterado. Subitamente, se dirige a mim:

– Olha pra rua, seu otário. Porra! Otário! [entre outros xingamentos]

O primeiro momento é de susto. Mas o segundo é uma reação natural, minha, impensada: mereço respeito. Em vez de baixar a cabeça, continuo olhando pra ele e, sem falar nada, o encaro. Foi impensado, é certo. Deveria ter baixado a cabeça – estava sozinho, de madrugada, de bicicleta, enquanto ele parecia acompanhado de um amigo, parecia drogado, de carro. O objetivo evidente dele era, pensei, arranjar confusão.

Quando ele percebeu que eu não me humilhei após os insultos, ele parece ter ficado furioso. Eu sai em disparada. Ele parecia ter acelerado também, para dar a volta – que era, no entanto, maior do que ele gostaria que fosse.

Fiz o que todo ciclista com experiência de 20 anos naquela região faria: corri por ruas pequenas, sempre na contramão, sempre que possível próximo a condomínios fechados para o caso de ele aparecer. Foram alguns dos 10 minutos mais tensos dos últimos anos. Tive certeza, pelo olhar dele, de que seria capaz de me perseguir.

Trabalhando com direitos humanos há pouco mais de 10 anos, conheço muito bem o cenário. E sei exatamente o porquê da expressão de medo e terror que levam em seus rostos os mendigos, catadores, moradores de rua. Pela primeira vez, no entanto, eu mesmo era uma vítima em potencial.

E ainda há quem acredite que a violência está diretamente relacionada à pobreza, ao pobre. Não está: a violência é de classe. É de cima pra baixo. É a regra do jogo, com suas exceções.

Tive sorte nessa. Se eu fosse um morador de rua, tinha dançado. Não seria o primeiro nem o último.

(Foto: selusava/flickr)

Deixe uma resposta