Reflexão do Papa Francisco por ocasião da abertura do “Convegno Ecclesiale” da diocese de Roma

papaBoa noite a todos! Caros irmãos e irmãs!

O Apóstolo Paulo concluía esta passagem da sua carta dirigida aos nossos antepassados, com estas palavras: “Vocês não estão mais debaixo da lei, mas sob a Graça.” É esta a nossa vida: caminhar sob a Graça, para tanto o Senhor bem o quis: Ele nos salvou, nos perdoou. Tudo fez, o Senhor, e esta é a Graça, a Graça de Deus. Estamos no caminho sob a Graça de Deus, que veio até nós por Jesus Cristo, que nos salvou. Mas isto se abre para um grande horizonte, e isto para nós é alegria. “Vocês não estão mais sob a lei, mas sob a Graça.” Mas, o quê significa isto, “viver sob a graça?” Vamos buscar explicar esse “viver sob a graça”. É a nossa alegria, é a nossa liberdade. Somos livres. Por quê? Porque vivemos sob a Graça. Já não somos escravos da Lei: somos livres porque Jesus Cristo nos libertou, nos deu a liberdade, aquela plena liberdade de filhos de Deus, de que vivemos sob a Graça. Isto é um tesouro. Buscarei explicar um pouco tão belo mistério, tão grande: viver sob a Graça.

Este ano, vocês traballharam muito sobre o Batismo e também sobre a renovação da pastoral pós-batismal. O Batismo, este passar de “debaixo da Lei” em direção a “Sob a Graça”, constitui uma revolução. Há tantos revolucionários na história. Houve muitos. Mas, nenhum teve a força desta revolução que Jesus nos trouxe: uma revolução para transformar a história, uma revolução que muda em profundidade o coração do homem. As revoluções da história mudaram os sistemas políticos, econômicos, mas nenhuma delas modificou verdadeiramente o coração do homem. A verdadeira revolução, aquela que transforma radicalmente a vida, foi Jesus Quem a cumpriu por meio de Sua Ressurreição: a Cruz e a Ressurreição. E o Papa Bento XVI dizia, acerca dessa revolução, che “é a maior mutação da história da humanidade.” Mas, pensemos nisto: é a maior mutação da história da humanidade, é uma verdadeira revolução, e nós somos revolucionárias e revolucionários desta revolução, porque caminhamos por esta estrada da maior mutação da história da humanidade. O cristão que não é revolucionário no tempo de hoje, não é cristão! Deve ser revolucionário pela Graça! A graça que o Pai nos dá por meio de Jesus Cristo morto e ressuscitado faz de nós revolucionários, porque – e cito de novo o Papa Bento – “é a maior mutação da história da humanidade.” Porque muda o coração. Il Profeta Ezequiel já o dizia: “Tirarei de vocês o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne.” E esta é a experiência que vive o Apóstolo Paulo: após haver encontrado a Jesus, na estrada de Damasco, muda radicalmente sua perspectiva de vida e recebe o Batismo. Deus transforma o seu coração! Mas, pensem bem: um perseguidor, alguém que perseguia a Igreja e os cristãos, torna-se um santo, um cristão até os ossos, um verdadeiro cristão! Primeiro, é um perseguidor violento, agora se torna um apóstolo, uma testemunha corajosa de Jesus Cristo, a ponto de não ter medo de sofrer o martírio. Aquele Saulo que queria matar, agora é quem anunciava o Evangelho. Eis a mutação, a maior mutação da qual falava o Papa Bento. Muda o seu coração, de pecador – de pecador: todos somos pecadores – transforma-o em santo. Há algum dentre nós que não é pecador? Se entre nós houver algum, levante a mão! Todos somos pecadores, todos! Todos somos pecadores! Mas, a Graça de Jesus Cristo nos salva do pecado: nos salva! Todos, se acolhermos a Graça de Jesus Cristo, Ele muda o nosso coração de pecadores e nos faz santos. Para nos tornar santos, não é preciso arregalar os olhos para cima ou ter uma feição de imagem! Nâo, não, não é preciso isto! Basta apenas uma coisa para nos tornarmos santos: acolher a Graça que o Pai nos dá em Jesus Cristo. Aí está: essa graça muda o nosso coração. Nós seguimos sendo pecadores, porque somos todos frágeis, mas também com essa Graça que nos faz sentir que o Senhor é bom, que o Senhor é misericordioso, que o Senhor nos espera, que o Senhor nos perdoa, esta grande Graça que muda o nosso coração.

E dizia o Porfeta Ezequiel, que dum coração de pedra transforma num coração de carne. O quê quer dizer isto? Um coração que ama, um coração que sofre, um coração que se alegra com os outros, um coração cheio de ternura para quem, trazendo impressas as feridas da vida, se sente na periferia da sociedade. O Amor é a maior força de transformação da realidade, porque derruba os muros do egoísmo e liberta os oprimidos que se acham distantes, uns dos outros. E este é o Amor que vem de um coração transformado, de um coração de pedra que foi transformado num coração de carne, um coração humano. E isto é a Graça que faz, a Graça de Jesus Cristo que todos nós recebemos. Algum de vocês sabe quanto custa a Graça? Onde se vende a graça? Onde é que posso comprar a graça? Ninguém sabe dizê-lo: não. Vou compra-la junto à Secretária paroquial, talvez ela venda a graça? Algum padre vende a graça? Escutem bem isto: a graça não se compra nem se vende; é um presente de Deus em Jesus Cristo. Jesus Cristo nos dá a Graça. É o único que nos dá a Graça. É um presente: é Ele quem nos oferece. Tomemo-la. Isto é lindo. Assim é o Amor de Jesus: dá-nos a graça gratuitamente. Gratuitamente. E nós devemos dá-la aos irmãos, às irmãs, gratuitamente. É triste quando a gente pessoas a venderem a graça: na história da Igreja, algumas vezes isto ocorreu, e fez tanto mal. Mas, a Graça não se pode vender. Você a recebe gratuitamente, e a doa gratuitamente. Esta é a graça de Jesus Cristo.

Em meio a tantas dores, a tantos problemas, existe em Roma gente que vive sem esperança. Cada um de nós pode pensar, em silêncio, nas pessoas que vivem sem esperança, e se acham imersas em profunda tristeza de pessoas que buscam sair crendo encontrar a felicidade no álcool, na droga, no jogo, no poder do dinheiro, na sexualidade desregrada… Mas, se encontram ainda mais desiludidos e, por vezes, desafogam sua raiva com a vida, por meio de comportamentos violentos e indignos do ser humano. Quanta gente tirste, quantas pessoas tristes, sem esperança! Pensem inclusive em tantos jovens que, após haverem experimentado muitas coisas, não encontram sentido para a vida, e buscam o suicídio, como solução. Vocês sabem quantos suicídios de jovens há, hoje, no mundo? A cifra é alta! Por quê? Não têm esperança. Experimentaram tantas coisas, e a sociedade, que é cruel – é cruel! – não lhe pode dar esperança. A esperança é como a graça: não se pode comprar, é um dom de Deus, e nós devemos oferecer a nossa esperança cristã com o nosso testemunho, com a nossa liberdade, com a nossa alegria. O presente que Deus nos concede da graça traz a esperança. Nós que temos a alegria de nos acolher-nos, porque não somos órfãos, que temos um Pai, não podemos ser indiferentes em relação a esta Cidade que nos clama, ainda que inconscientemente, sem sabe-lo, uma esperança que as ajude a olharem o futuro com maior confiança e serenidade. Nâo podemos ser indiferentes. Mas, como podemos fazer isto? Como podemos ir adiante e oferecer a esperança? Caminhar pela estrada, dizendo: “Eu tenho esperança”? Não, mas com o seu testemunho, com o seu sorriso, dizer: “Eu acredito que tenho um Pai”. O anúncio do Evangelho é este: com a minha palavra, com o meu testemunho, dizer: “Tenho um Pai. Não somos órfãos. Temos um Pai”, e compartilhar esta filiação com o Pai e com todos os demais. “Pai, agora entendo: trata-se de convercer os outros, de fazer prosélitos”. Nâo, nada disto. O Evangelho é como a semente: você a semeia, você a semeia com sua palavra e com o seu testemunho. E depois, não faz a estatística de como isto evoluiu: é Deus quem faz isto. Ele faz crescer essa semente; mas, devemos semear com aquela certeza de que Ele dá a água, Ele faz crescer; não fazemos a colheita: outro padre a fará, outro leigo, outra leiga, outra pessoa a fará. Mas, a alegria de semear com o testemunho, porque não basta apenas com a palavra. A palavra sem o testemunho é árida. Não bastam as palavras. O verdadeiro testemunho de que fala Paulo.

O anúncio do Evangelho é destinado, antes de tudo, aos pobres, àqueles a que, muitas vezes, faltam as coisas necessárias para levar uma vida digna. A eles é anunciado, em primeiro lugar, a mensagem de que Deus os ama, com predileção e vem visita-los por meio das obras de caridade que os discípulos de Cristo fazem em Seu nome. Antes de tudo, vão em direção aos pobres: estes são os primeiros. No momento do Juízo final, podemos ler em Mateus 25, todos seremos julgados em cima disto. Mas, alguns, pensando que a mensagem de Jesus seja destinada aos que não têm uma preparação cultural. Não! Não! O Apóstolo afirma com ênfase eu o Evangelho é para todos, inclusive para os doutos. A sabedoria que deriva da Ressurreição, não se opõe àquela humana, mas, ao contrário, a purifica e a eleva. A Igreja sempre esteve presente nos lugares onde se elabora a cultura. Mas, o primeiro passo é sempre a prioridade aos pobres. Mas, antes, devemos ir às fronteiras do intelecto, da cultura, na esperança do diálogo, do diálogo que faz a paz, do diálogo intelectual, do diálogo racional. O Evangelho é para todos! Ir aos pobres não significa que devemos nos tornar “pauperista”, ou uma espécie de “barboni spiritiuali”! Não, não, não significa isto! Significa que devemos ir em direção à carne de Jesus que sofre, mas também sofre a carne de Jesus daqueles que não O conhecem, com seu estudo, com sua inteligência, com sua cultura. Devemos ir por aí! Por isso, agrada-me usar a expressão “ir às periferias”, as periferias existenciais. Todos, todos aqueles da pobreza física e real à pobreza intelectual, que é real. Todas as periferias, todas as encruzilhadas dos caminhos: vão por lá. E aí, lançar a semente do Evangelho, com a palavra e com o testemunho.

E isto significa que devemos ter coragem. Paulo VI dizia que não entendia os cristãos acabrunhados: não os entendia. Estes cristãos tristes, ansiosos, esses cristãos em relação aos quais não se sabe se acreditam em Cristo ou na “dea lamentela”: nunca se sabe. Todos os dias se lamentam; e como vai o mundo, olha quanta calamidade, as calamidades. Mas, pensem bem: o mundo não é pior do que há cinco séculos atrás! O mundo é o mundo; sempre foi o mundo. E quando a gente se lamenta: segue assim, não se pode fazer nada, ah! os jovens… Faço-lhes uma pergunta: vocês conhecem cristãos assim? Há muitos, há muitos! Mas, o cristão deve ser corajoso e, diante do problema, diante de uma crise social, religiosa, deve ter a coragem de seguir em frente, ir adiante com coragem. E quando nada se pode fazer, com paciência: suportanto. Suportar. Coragem, paciência, essas duas virtudes de Paulo. Coragem: segure em frente, fazer as coisas, dar forte testemunho; adiante! Suportar: carregar sobre os ombros as coisas que ainda não é possível mudar. Mas, seguir adiante, com essa paciência, com essa paciência que nos dá a graça. Mas, o quê devemos fazer com coragem e paciência? Sair de nós mesmos: sair de nós mesmos. Sair de nossas comunidades para ir lá onde os homens e as mulheres vivem e trabalham e sofrem, e anunciar-lhes a misericórdia do Pai que se fez conhecer aos homens em Jesus de Nazaré. Anunciar esta graça que nos foi presenteada por Jesus. Se aos sacerdotes, na Quinta-Feira Santa, pedi para serem pastores com cheiro de ovelhas, a vocês, caros irmãos e irmãs, digo: sejam por toda a parte portadores da Palavra de vida em nossos bairros, nos lugares de trabalho e por toda a parte em que as pessoas se encontam e desenvolvem relações.

Vocês devem ir para fora. Não entendo as comunidades cristãs que ficam enclausuradas em paróquias. A vocês quero dizer uma coisa. No Evangelho, é linda aquela passagem que nos fala do pastor que, quando volta ao rebanho, se dá conta de que falta uma ovelha, deixa as noventa e nove, e vai à procura da que falta. Mas, irmãos e irmãs, nós temos uma delas; faltam-nos noventa e nove! Devemos sair, devemos ir até elas! Nesta cultura – digamo-nos a verdade – só temos delas apenas uma, somos minoria! E será que sentimos o fervor, o zelo apostólico para ir e sair e encontrar as outras noventa e nove? Esta é uma grande responsabilidade, e devemos pedir ao Senhor a graça da generosidade e a coragem e a paciência para sair, para sair a anunciar o Evangelho. Ah! isto é difícil. É mais fácil ficar em casa, com aquela única ovelhinha! É mais fácil ficar com aquela ovelhinha, acariciando-a …mas nós padres também vocês cristãos, todos: o Senhor nos quer pastores, não acariciadores de ovelhas; pastores! E quando uma comunidade fica fechada, sempre em si mesma pessoas que falam, esta não é uma comunidade que dá vida. É ima comunidade estéril, não é fecunda. A fecundidade do Evangelho vem da graça de Jesus Cristo, mas por meio de nós, a nossa pregação, a nossa coragem, a nossa paciência.

A coisa se torna um pouco longa, não é verdade? Mas não é fácil! Devemos nos dizer a verdade: o trabalho de evangelizar, de levar adiante a graça gratuitamente não é fácil, porque não estamos sozinhos; estamos com Jesus Cristo;há também adversário, há inimigo que quer manter os homens separados de Deus. E por isso instala nos corações desilusões, quando não vemos recompensados de imediato o nosso empenho apostólico. O diabo, todo dia, joga em nossos corações sementes de pessimismo e de amargura, e a gente se desencoraja, nós nos desanimamos. “ Não vá! Fizemos isto, não vá; fizemos aquilo mais e não vá! Olha aquela religião como atrai tanta gente e nós não!”. É o diabo que faz isso. Devemos preparar-nos para luta espiritual. Isto é importante. Não se pode pregar o evangelho sem esta luta espiritual: uma luta de todos os dias contra a tristeza, contra a amargura, contra o pessimismo; uma luta cotidiana! Semear não é fácil. É mais belo realizar a colheita, mas semear não é fácil, esta é a luta de todos os dias dos cristãos.

Paulo sentia que tinha urgência para pregar e ele tinha experiência desta luta espiritual, quando dizia: “tenho em minha carne um espinho de satanás e todos os dias sinto em mim”. Também nós temos espinhos de satanás que nos fazem sofrer e que nos fazem andar com dificuldade e muitas vezes nos desencorajam. Prepara-nos para a luta espiritual: a evangelização pede de nós verdadeira coragem, também para esta luta interior, em nosso coração, para dizer pela oração, com a mortificação, com a vontade de seguir a Jesus, com os sacramentos que são encontro com Jesus, dizer a Jesus: obrigado, obrigado pela tua graça. Quero leva-la aos outros. Mas isto dá trabalho: isto dá trabalho. Isto se chama- não se apavore- chama-se martírio. O martírio é isto: travar a luta, todos os dias, para testemunhar. Isto é martírio. E para alguns o Senhor pede o martírio da vida, mas é o martírio de toda a vida , de todo dia, de toda hora : o testemunho contra o espírito do mal que não quer que sejamos evangelizadores.

E agora, gostaria de terminar pensando numa coisa. No tempo presente, em que a gratuidade parece arrefecer nas relações interpessoais porque tudo se vende e tudo se compra, e a gratuidade é difícil encontrar, nós cristãos anunciamos um Deus que pode ser nosso amigo nada pede sem ser acolhido. A única coisa que Jesus pede: ser acolhido. Pensemos em quantos vivem no desespero, porque nunca encontraram alguém que lhes tivesse dado atenção, os tenha consolado, os tenha feito sentir que são preciosos, são importantes. Nós, discípulos do Crucificado, podemos recusar de andar por aqueles lugares onde ninguém quer andar por medo de comprometer-nos por conta das opiniões dos outros e assim negar a esses nossos irmãos o anúncio da Palavra de Deus? A gratuidade! Nós recebemos esta gratuidade, esta graça, gratuitamente; devemos dá-la gratuitamente. E isto é aquilo que, no final das contas, quero dizer-lhes. Não tenham medo, não tenham medo. Não tenham medo do amor de Deus, nosso Pai. Não tenha medo. Não tenham medo de receber a graça de Jesus Cristo, não tenham medo da nossa liberdade que foi dada pela graça de Jesus Cristo ou, como dizia Paulo:” vocês não estão debaixo da Lei, mas sob a graça”. Não tenham medo da graça, não tenhamos medo de sair de nós mesmos, não tenhamos medo de sair de nossas comunidades cristães para ir ao encontro das 99 que não estão em casa. E ir dialogar com elas, e dizer-lhes que coisas pensamos, ir e mostrar o nosso amor que é o amor de Deus.

Caros irmãos e irmãs: não tenhamos medo! Sigamos em frente para dizer aos nossos irmãos e as nossas irmãs que nós estamos sob a graça, que Jesus nos dá a graça e esta nada custa: apenas recebê-la. Adiante!

https://www.youtube.com/watch?v=3F2ThQG9prQ
Do minuto 0:21 ao minuto 31:46
Trad.: AJFC

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