Reduzir o tratamento da depressão a um ato medicamentoso é um descuido e um maltrato

Esta leitura não é contrária aos avanços científicos e aos avanços da biomedicina, tão necessários, mas sim uma complementação. Articular essas duas leituras de forma complementar, não excludente, é salutar para todos que cuidam da saúde e valorizam a vida humana. 

Tendo essa noção, como psiquiatra e psicoterapeuta, tenho como objetivo sensibilizar o paciente para procurar fazer uma terapia que o permita compreender as mensagens inconscientes que o levaram a produzir o “curto-circuito psíquico” que resultou num impulso destrutivo de sua própria existência.

Quando um paciente me fala que está tendo ideias de morte, muitos inclusive dizem ouvir vozes atribuídas a espíritos maus, o incitando a se matar, inicialmente, eu procuro medicá-lo para protegê-lo destes impulsos de morte e início uma reflexão com ele dizendo: seu cérebro não está possuído por nenhum espírito do mal e nem está doente, ele está te alertando que tem algo que precisa morrer, ser eliminado de sua vida.

O objetivo central do processo terapêutico é identificar o que deve ser eliminado ou modificado. Numa metáfora, o que atrapalha a vida do cão é a pulga. Mas para matar a pulga, não precisamos matar o cachorro.

Dessa maneira, o tratamento psiquiátrico não se limita a eliminar as ideias suicidas com o uso de psicotrópicos, a matar a pulga, mas sim a decifrar essas mensagens inconscientes e fazer as mudanças necessárias em sua vida ou em seu ambiente familiar, ou de trabalho.

Eliminar um sintoma sem compreender o processo que o causou é uma falta de responsabilidade, uma falta de cuidado e um maltrato ao paciente.

Daí a importância da participação e do apoio da família e da comunidade no processo de tratamento. Muitas vezes, o paciente é o porta-voz de uma disfunção familiar. Devido à sua sensibilidade, ele somatiza. Ele é a ponta visível de um processo invisível. Enquanto não decifrar essas mensagens e fazer as mudanças necessárias, ela voltará e você terá recaídas. “Decifra-me ou devoro-te”. Isto não se resolve sozinho, precisamos de ajuda.

Inúmeras são as terapias que podem auxiliar a nos tornarmos terapeutas de nós mesmos, decifradores das mensagens inconscientes de nossos sintomas.

Além das psicoterapias tradicionais, realizadas pelos psicólogos e psicoterapeutas, dispomos de outras práticas integrativas de cuidados, como a terapia comunitária integrativa, biodança, ioga, massagem de bem-estar, dentre outras práticas. Daí a necessidade de ampliarmos os espaços de cuidado nas comunidades, usando todos os recursos culturais disponíveis. Insisto, eles não substituem o tratamento médico e sim complementam. Não podemos nos esquecer de que, em situações difíceis que enfrentamos, receber um abraço, uma massagem, uma oração, um ouvido atento são fundamentais.

A lei que regula o universo é a lei do amor. Cada um de nós tem em si esta força poderosa que transforma a si, os outros e o planeta. Nada é mais terapêutico do que um gesto de amor, afeto e cuidado. Para isso, não precisamos de cursos, diplomas e não temos despesas adicionais.

Durante todo o mês de setembro amarelo, o projeto 4 varas, na barra do Ceará, com o apoio do governo do estado, terá uma ação de cuidados para toda a comunidade incluindo além de terapias, orientação jurídica, emissão de documentos, atendimento psicossocial, ajuda psicológica, oficinas da CEART, oficinas de prevenção à violência entre outras atividades. É um momento de cuidar, de prevenir e melhorar a saúde mental, física e cidadã do Fortalezense.

 

Foto: Natinho Rodrigues/SVM, 05 de Setembro de 2024

Texto e foto extraídos do Diário do Nordeste: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/adalberto-barreto/reduzir-o-tratamento-da-depressao-a-um-ato-medicamentoso-e-um-descuido-e-um-maltrato-1.3554087

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