Raça, terra e silêncio em Campos dos Goytacazes

Por Luciane Soares da Silva,
As primeiras casas avistadas da BR 101 não deixam dúvidas: Campos dos Goytacazes, no norte-fluminense, é uma cidade de contrastes. Estes contrastes, comuns as grandes cidades do Brasil, são perceptíveis se olhamos as construções a beira da estrada e as condições em que vivem aqueles que ali residem. Imersos em uma rotina muito próxima de zonas rurais, estes moradores acompanham de fora as transformações na cidade. Ou, no máximo, parte deles têm buscado a qualificação como uma forma de mobilidade social ascendente. O sonho de empregar-se no Porto do Açu, na Petrobras ou mesmo em um dos empreendimentos da região, alimenta parte das discussões públicas sobre o futuro da cidade e de seus habitantes. Esta sensação de que o “progresso está chegando” pode ser compartilhada em conversas informais com taxistas, lojistas, empregados de hotéis, professores de rede pública de ensino. Ou seja, uma camada média da população que vê na educação a ferramenta de transformação do passado. E que passado é este? Não parece fácil verbalizar sobre ele. O passado das usinas de cana, o passado escravo, o passado dos coronéis. Um passado tratado em voz baixa, por códigos, metáforas.. Campos dos Goytacazes se assemelha a uma cidade fictícia na qual os senhores do século XIX ainda olham de suas varandas para as ruas estreitas por onde passam as carroças com doces, riquezas e negros. Esta é a palavra proibida. Se o mito da democracia racial cumpre alguma função na sociedade brasileira, nas planícies goytacazes experimentamos um estranho fenômeno: a reprodução mais silenciosa e perversa de uma forma de desigualdade que longe de ser apenas econômica, confisca de boa parte dos moradores o direito à palavra, à memória e desta forma, confisca as formas possíveis de resistência.
Este estranho silêncio faz com que estas desigualdades sejam vistas como o fracasso pessoal do individuo, empurrando os fracassados para a sombra. Mas e quanto aos que não aceitam esta sorte? As duas mortes recentes em Campos, envolvendo a questão da terra, atualizam tratamentos comuns de um passado violento. Cícero Guedes, um homem negro, capaz de liderar centenas de homens e mulheres esperançosos em um outro futuro, foi assassinado. A lavradora Regina Pinho foi assassinada. Morava no Assentamento Zumbi dos Palmares, no qual residem aproximadamente 506 famílias. Estranha é a justiça que, tão célere em algumas desapropriações na cidade de São João da Barra, vem discutindo a desapropriação na Usina Cambahyba há 14 anos.
Anualmente a cidade de Campos dos Goytacazes ocupa os noticiários por denúncias de trabalho análogo a condição de escravidão. Situações degradantes na qual trabalhadores não recebem água potável, em locais que não possuem sanitários, foram denunciadas em 2012, mas este cenário é corriqueiro. E são estas as pessoas que vemos, entrando por alguns dos bairros mais afastados do centro da cidade. Esta população é em sua grande maioria, negra. Nem parda, nem mestiça, tampouco mulata pelas classificações raciais brasileiras. Esta população descende de escravos que trabalharam nas mesmas usinas que hoje abrigam famílias acuadas, ameaçadas. A prática da agricultura familiar, a possibilidade de organização, o uso da voz e a ousadia de resistência parecem trazer ao primeiro plano aqueles fantasmas que jamais descansam em paz. Eles chegam com a queima da cana, fumaça sombria. Chumbo, tecido retorcido, noite. Não dão descanso aos vivos, pelo contrário, parecem querer guiar suas vidas. E quando não funciona o silêncio, a aceitação da sina, a solução final já tão desgastada e conhecida, é mais uma vez empregada. Aniquilamento do outro, emboscada, asfixia. E aqui estamos, um tanto asfixiados, abatidos, aniquilados. E até a palavra recua na boca, parece desdenhar do papel, da justiça, do mundo dos homens.
(*) Luciane Soares da Silva é professora da UENF.

4 comentários sobre “Raça, terra e silêncio em Campos dos Goytacazes”

  1. O termo contundente é bastante adequado e, infelizmente, o termo comum também é inerente ao assunto em todos os cantos desse nosso país. Parabéns Dra. Luciane!!

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