Quando emergem as correntezas subterrâneas: testemunho acerca da ação missionária de Frei Roberto Eufrásio de Oliveira

Somos gente nova vivendo a união

Somos povo semente de uma nova nação ê, ê 

Somos gente nova vivendo o amor 

Somos comunidade, povo do senhor, ê, ê

 

Vou convidar os meus irmãos trabalhadores 

Operários, lavradores, biscateiros e outros mais 

E juntos vamos celebrar a confiança 

Nossa luta na esperança de ter terra, pão e paz, ê, ê [..] 

(Zé Vicente, “Baião das Comunidades”)

Parte expressiva das agruras dos tempos presentes, agravadas por uma conjuntura de pandemia e de pandemônio, associa-se também ao modo de como as igrejas cristãs se têm fortemente distanciado da Tradição de Jesus de Nazaré, a quem dizem obedecer, mas cujas práticas sinalizam um horizonte não apenas distanciado, mas com frequência, também contrário ao proposto pelo movimento de Jesus. No caso específico da Igreja Católica Romana (mas também de outras igrejas cristãs), resulta impactante seu distanciamento das origens do cristianismo, pelo menos no que diz respeito a segmentos consideráveis de seu universo de seguidores. Revisitando as primeiras comunidades cristãs, nos primeiros séculos, surpreendem-nos agradavelmente os testemunhos proféticos e fraternos daquelas comunidades, como podemos observar por relatos constantes dos Atos dos Apóstolos (cf. At 2;4). Tomando o cuidado de evitar certas tendências idealizadoras, importa reavivar a memória e o compromisso destes grupos e comunidades cristãs dos primeiros séculos e, em certa medida, também presentes e atuantes – ainda que com exceções, como “minorias abraâmicas” – em distintos períodos históricos. No atual contexto sócio- eclesial, deparamo-nos com um clero fechado em si mesmo, quando muito, recorrendo às mídias católicas sob o pretexto de evangelização ou de missão. Trata-se de uma proposta que, apenas excepcionalmente, apresenta ou testemunha sua raiz.

Nem a figura carismática do Papa Francisco, em seus pronunciamentos, escritos e testemunhos têm conseguido mover o comportamento habitual conjunto de bispos e padres. Salvo algumas exceções sempre honrosas, a enorme maioria das dioceses e paróquias segue surda e muda em relação aos constantes apelos do Papa Francisco, a começar de sua Exortação apostólica “Evangelii Gaudium”, proposta como programa de igreja para os próximos anos. Em consequência também desta desatenção, a enorme maioria das dioceses e paróquias vive um estado de inércia, no que toca ao essencial de sua missão: evangelizar, anunciar e testemunhar a Boa Nova de Jesus de Nazaré, junto aos pobres (cf. Lc 4,16-19). Nelas, a vida dos pobres tem preocupação superficial, longe de ocupar a centralidade recomendada pelo Evangelho e pelo Papa Francisco. O que se tem, em grandes proporções, é um clero, em grande parte, pouco preparado intelectualmente, menos ainda, do ponto de vista pastoral e de uma espiritualidade encarnada.

Alegra-nos, no entanto, constatar que, entre as “minorias abraâmicas” de missionários e missionárias, comprometidos com o anúncio e o testemunho do legado de Jesus, também merecem reconhecimento e aplauso de nossa parte os bons frutos que vêm sendo produzidos nas “correntezas subterrâneas”. Neste sentido, nas linhas que seguem, cuidamos de focar um exemplo ilustrativo de missionário – a figura de Frei Roberto Eufrásio de Oliveira – que, há 50 anos, vem peregrinando pelo campo e pelas periferias urbanas, no Nordeste brasileiro, notadamente em Sergipe, Paraíba, Pernambuco e Ceará.

Este ano, e mais precisamente em 19 de Junho, Frei Roberto estará completando 50 anos de ordenação presbiteral, razão propícia para quê, juntando-se às comunidades, grupos e pessoas, componentes do movimento missionário que tem animado, cuide-se de exercitar a memória e celebrar as sementes espalhados cujos frutos vêm sendo colhidos, por conta desta atuação missionária, no Nordeste.

Prestes a completar seus 76 anos, em 4 de julho próximo, Frei Roberto Eufrásio de Oliveira é um religioso Missionário, atuando em vários estados do Nordeste. Cearense de Ubajara, logo cedo sentiu os sinais de sua vocação missionária, ainda junto aos seus pais e irmãos. Teve uma formação muito voltada para os temas despertados pelo Concílio Vaticano II, em especial em sua dimensão de igreja povo de Deus. Com seu estilo de vida simples, alegre, criativo e discreto, Frei Roberto se tem dedicado, ao longo destas décadas, a viver como pobre no meio do povo dos pobres, dele fazendo o seu tesouro, dócil ao que o Espírito do Ressuscitado o inspira. Eis porque quando alguém que o conhece menos, busca rastrear seus passos de missionário, se sente profundamente impactado pela qualidade e pela quantidade de suas ações fecundas de missionário, junto ao povo dos pobres, no meio rural e nas periferias urbanas, caracterizados por um abençoado rosário de obras, fazendo-nos evocar o que assinala o Evangelho: “a árvore se conhece pelos frutos” (cf. Mt 7,16).

Mesmo já vindo acompanhando, há algumas décadas, sua ação profético missionária, nos sentimos alegremente surpresos pela qualidade e quantidade de seus frutos. Também tal constatação nos faz vir à lembrança um escrito que se apresenta no topo de uma cisterna situada no Santuário das Comunidades, a 5 km de Caruaru, no sítio Juriti: “gente simples fazendo coisas pequenas em lugares pouco importantes consegue mudanças extraordinárias”.

Na oportunidade da celebração dos 50 anos de sua ordenação presbiteral, externou Frei Roberto sua intenção de comemorar este feito junto daqueles grupos e comunidades com quem ele partilhou, em momentos distintos, esta sua atividade profético-missionária, no Nordeste. Desde o início, fez questão de acentuar que não se tratava de um convite voltado a celebrar apenas sua vida missionária pessoal, mas sobretudo de chamar amigos e amigas de tantas comunidades com quem trabalhou, para ajudá-lo a agradecer a Deus pela graça de ser missionário entre o povo dos pobres. Achou por bem compartilhar entre amigos e amigas de vários estados do Nordeste, por onde passou, uma carta convite explicitando e sugerindo atividades de exercício da memória histórica e  avaliação prospectiva e celebração desta temporada, não se esquecendo de convidar principalmente para os compromissos daí resultantes, em relação aos próximos anos. Vale a pena, a este respeito, transcrever a íntegra de seu convite

 

Choró Limão, 26/11/2020

Estimado (a)

“Quando a memória de um povo é destruída, atinge-se sua identidade profunda… nossa tarefa histórica no momento é restaurar a memória destruída pelos colonizadores…”

América Latina: Da conquista à nova evangelização. Pág.58

Em junho 2021 fecha o ciclo de 50 anos de vivência humana e eclesial na esteira do movimento conciliar suscitado pelo espírito renovador e reecriador da terra e dos humanos nos anos de 1962 a 1965, lançado pelo Papa camponês João 23. Centenas de pessoas percorreram esse caminho do espírito, e ajudaram a edificar a história de uma igreja povo de Deus, enraizada em Jesus de Nazaré, nos apóstolos e profetas, e mártires das origens do cristianismo, centrada na opção evangélica pelos pobres e por sua libertação integral.

Assim proponho utilizar esta data jubilar para propiciar um encontro de todas as pessoas, como você que ao longo da vida ajudaram a construir esta etapa preciosa da história. E continuam apostando nas energias criadoras e mobilizadoras do espírito criador.

Sou cidadão cearense, filho de Paulo Eufrásio e de Virginia Eufrásio Sampaio, nascido no município de Ubajara na serra da Ibiapaba Ceará, nossa família camponesa e me considero descendente dos indígenas e dos negros.

Em quatro estados do Nordeste vivi meus 50 anos após a conclusão dos estudos.

  1.   De 1970 a 1988 na Diocese de Propriá no estado de Sergipe
  2.   De 1989 a 2000 na Arquidiocese da Paraíba
  3.   De 2008 a 2013 na Cidade Ouricuri, Diocese de Salgueiro no sertão do Araripe Pernambuco.
  4.   De 2016 a 2020 no município de Choró no sertão central, na Diocese de Quixadá.

O que está sendo pensado e preparado olhando para o mês de Junho de 2021:

  1.   No dia 10 de Janeiro está acertado um encontro na Diocese de Propriá articulado por Zé Pipiu.
  2.   No dia 17 de Janeiro acontecerá um encontro em Café do Vento na Paraíba articulado por Alder Julio.
  3.   No dia 23 de Janeiro acontecerá um encontro em Ouricuri sendo Paulo Pedro o articulador.

 

Nesses encontros programados vamos preparar juntos, a celebração desta história de 50 anos, construída e vivida nestas diferentes dioceses.  Queremos preparar um encontro de pessoas que percorreram essa história, promover a comunicação de testemunhos vividos, das experiências construídas, do dinamismo iluminador da vida dos pobres e excluídos em nossas vidas. Queremos perceber juntos o espírito que nos alimentou em todos esses anos, alimentar nossa esperança comum considerando os desafios estruturais na cidade e na Igreja e finalmente agradecidos olhar para frente.

O que estamos propondo aos participantes desses encontros desde agora:

 

  •   Que cada um faça o resgate das etapas significativas de sua história, lembrando a área de atuação e anotando as energias irradiadoras de sua presença e ação ali onde Deus o enviou.
  •   Cada participante vá pensando em propostas para a celebração destes 50 anos. Será possível pensar num calendário de minha presença nas comunidades de onde vêem os representantes dos encontros preparatórios?

 

Esta história de 50 anos de caminhada e evangelização nos sertões nordestinos não é a história de Frei Roberto. Mas sim a história de todos nós, que conduzidos pelo espírito de Deus procuramos seguir Jesus, despertando trabalhadores do campo e da cidade na construção do Reino de Deus.”

Resulta deveras vasto e profícuo o trabalho deste Missionário. Ainda na década dos anos 70, graças à iniciativa de um pequeno grupo de missionários e missionárias, entre os quais Frei Enoque Salvador e o próprio Frei Roberto, foi fundada a associação de missionários e missionárias do Nordeste, que, enfrentando conjunturas adversas, vem resistindo até hoje. A AMINE (Associação dos Missionários e Missionárias do Nordeste), com efeito, tem se dedicado, durante estas décadas, a promover as missões populares, em um estilo bastante inovador, à medida que não se limita a reunir a comunidade para realizar, em três ou quatro dias, as missões populares. A AMINE cuida de preparar e organizar as missões populares, no campo e nas periferias urbanas, em três diferentes momentos interconectados, assegurando um antes um durante e um depois, isto é, combinando com as comunidades que demandam a realização dessas missões populares o compromisso de assegurar, seis meses ou um ano de preparação antes de sua realização, do que elas/eles chamam de “pré missão”, isto é, um  breve período de preparação, durante o qual são acordados temas, metodologia, tarefas e responsabilidades, como pré-requisito para a realização das missões populares propriamente ditas, durante uma semana. Também, faz parte desta mesma empreitada o compromisso com a realização da “pós missão”, isto é, um tempo de retorno àquelas comunidades, em busca de acompanhamento e incentivo dos frutos dos trabalhos, durante as fases precedentes. Estes registros podem ser encontrados em um dos livros escritos por Frei Roberto, “Experiência missionária no Nordeste”, inicialmente publicado pela Editora Ideia, de João Pessoa, em 2005. Estas missões populares têm tido uma grande recepção por parte de muitas comunidades, espalhadas pelo Nordeste. São, de fato, bastante frequentes os convites recebidos pela AMINE. Esta atividade constitui uma das experiências missionárias mais de perto acompanhadas e protagonizadas também por Frei Roberto e várias equipes de missionários e missionárias da AMINE.

Em áreas do sertão sergipano, ao redor do município de Poço Redondo e Diocese de Propriá, ele teve sua primeira incursão missionária. Aqui, bem nos lembramos do grande pastor e profeta Dom José Brandão, Bispo daquela Diocese. Naquela reunião, Frei Roberto protagoniza relevantes e memoráveis incursões missionárias junto ao povo dos Pobres, principalmente os do campo, graças a várias iniciativas que ele cumpre junto com aquela gente. Parte desta experiência se acha registrada em seu livro intitulado “Caminhando com Jesus” publicado há uns 10 anos, e recentemente reeditado. Nele, entre auspiciosos relatos, se acha um que desperta especial atenção. Trata-se do convite feito por comunidades pobres daquela região do Sertão , para que Frei Roberto comparecesse até aquelas comunidades em uma missão popular. Era costume que padres, quando vindos àquela região, ficassem hospedados na casa de um fazendeiro, que havia construído uma capela. Mas, o fazendeiro fazia exigências amargas para aquele povo. Ao saber da presença de Frei Roberto naquela região, o fazendeiro não hesitou em ir até o Frade, suplicando que ele viesse se hospedar em sua residência, mantendo a tradição. Frei Roberto, agradecendo-lhe pelo convite, ponderou que já estava bem hospedado, em uma casinha de um mendigo daquela região. Surpreso com a recusa de Frei Roberto, o fazendeiro reagiu raivoso, dizendo que ele não lhe daria a chave da capela, e voltou revoltado, pronto para relatar o acontecido ao próprio Bispo. Da parte de Frei Roberto, ele seguiu sua missão, hospedado na casa daquela figura acolhedora de mendigo. São fatos como este que bem caracterizam a coerência missionária de Frei Roberto, em relação ao discipulado de Jesus de Nazaré e do seu Movimento.

As missões populares correspondem a uma das dimensões mais preciosas da Teologia da Enxada, experiência nordestina, inspirada pelo teólogo padre José Comblin, em conjunto com jovens seminaristas preocupados com terem uma formação voltada a serviço de seu povo, em especial da zona rural, donde provinham. Experiência também correspondente a uma dimensão da Teologia da Libertação, tendo início no final dos anos 60. Neste sentido, a Teologia da Enxada também é um dos campos privilegiados da ação missionária de Frei Roberto. Após o período de expulsão – 1972 -, de exílio no Chile, Padre José Comblin retorna ao Brasil, para dar continuidade às suas atividades formativas, no Nordeste, em especial no campo. Frei Roberto é um daqueles e daquelas que, em Itamaracá – PE, em 1980, com a coordenação do Padre José Comblin, estiveram reunidos durante vários dias para repensarem  o prosseguimento da caminhada missionária no Nordeste. Até os primeiros anos da década de 1970, as atividades de formação daqueles jovens que compunham os núcleos de Tacaimbó – PE e de Salgado de São Félix – PB, contaram com o acompanhamento da equipe de formadores e formadoras, coordenada pelo padre Comblin, mesmo durante sua ausência do Brasil, em razão de sua expulsão do país (1972). Tendo retornado ao Chile, mais precisamente a Talca, os trabalhos de formação deram prosseguimento, com a participação de formadores e formadoras (Padre Renê Guerre, Padre Joseph Servat, irmã Maria Emília Ferreira, entre outros), mas com o retorno de Comblin ao Brasil, havia a necessidade de uma reorientação do processo formativo, razão por que foi organizado aquele encontro em Itamaracá, a partir do qual se decidiu iniciar, já em 1981, na área chamada Avarzeado do município de Pilões – PB, ainda integrante do território da arquidiocese da Paraíba, a experiência do Seminário Rural. Poucos anos após sua criação, teve que ser fechado, por imposição de Roma, o que abriu a possibilidade de fundação, agora em Serra Redonda -PB, do Centro de Formação Missionária, experiência bem acolhida por Dom José Maria Pires, Bispo da Paraíba. Frei Roberto também participou desta experiência que resultou em várias outras, que ele também animou, em especial as escolas de Formação Missionária, onde a cada ano, atuava e atua como professor de história da igreja e como animador da liturgia, com cantos populares e com visitação às casas, durante o período de formação.

Articulando e alternando suas atividades junto a estas primeiras experiências, Frei Roberto passa, no início dos anos 90 a iniciar uma nova experiência missionária, desta feita na região compreendida entre os municípios de Capim e Cuité – PB, onde atuou cerca de 5 anos, como missionário a serviço da causa do povo dos pobres. Sobre este período, na jornada do dia 17 de Janeiro realizada em Café do Vento, no sítio onde se encontra o Centro de Formação Padre José Comblin, animado pelo padre Hermínio Canova, também presente nesta reunião, foram impactantes vários depoimentos de pessoas, mulheres e homens, que acompanharam de perto os passos missionários Frei Roberto. Tais testemunhos sublinhavam vários pontos da frutuosidade daquela ação missionária, destacando-se a organização de missões populares, os trabalhos de mutirão de construção de casas populares, a defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do campo, o incentivo às atividades culturais, como as cantorias, o Cordel, a organização de iniciativas de trabalhos artesanais para as mulheres, entre outros.

Na segunda metade dos anos 90, Frei Roberto, missionário itinerante, passa a dividir suas atividades com o padre Vicente Zambello, Padre “Fidei donum”, em duas áreas pastorais pertencentes ou vizinhas no território de Bayeux (Mutirão) e em Várzea Nova, pertencente ao município de Santa Rita. Em sua distribuição de trabalhos, enquanto o Pe. Vicente assumia mais diretamente os trabalhos missionários na comunidade Mutirão, numa área elevada do município de Bayeux. Coube a Frei Roberto acompanhar mais de perto a comunidade de Várzea Nova. De vez em quando, alternando trabalhos e atividades em uma e outra destas áreas pastorais, Padre Vicente e Frei Roberto protagonizaram, sempre junto com as respectivas comunidades, iniciativas profético missionárias de grande alcance. No que diz respeito ao processo formativo destas comunidades e ao serviços litúrgicos, articulados a atividades de cidadania, isto é, de tomada de consciência comunitária dos seus direitos de cidadãos e cidadãs como resultado destes trabalhos pastorais e missionários, várias foram as oportunidades em que, conscientes de seus direitos negadas, estas comunidades se uniram em protesto público, de reivindicações de vários tipos, entre os quais, o da luta pela construção de barreiras na BR, e de passarelas de prevenção de frequentes e tais ocorrências de acidentes. O mesmo ocorre em relação à luta pela água. Naquelas comunidades, sobre este ponto, foram candentes os testemunhos ouvidos espontaneamente da parte daquelas e daqueles que acompanharam de perto estas iniciativas, tendo, inclusive, sido lembrado o nome de uma mulher missionária muito admirada pela sua coragem profética, pelo anúncio e testemunho cristão: referimo-nos à animadora Margarida Lucena de Freitas, que fez sua Páscoa há poucos anos atrás, e cujo legado há de ser cultivado por aqueles e aquelas que a conheceram de perto e com ela lutaram pelas mesmas causas do Reino de Deus e sua justiça.

Frei Roberto também atuou junto a algumas Comunidades Quilombolas, ao redor da cidade de Serra Redonda, acompanhando e incentivando a consciência negra naquela gente. Outra experiência vivida por Roberto teve um caráter mais explicitamente contemplativo trata-se do seu recolhimento, em companhia de Frei Eliomar, em um período de cerca de 3 anos, em um eremitério próximo ao município pernambucano de Bom Conselho. Tratou-se de uma experiência de contemplação e de revisão, em um clima de oração mais continuada e de contemplação de revisão de vida.

 

Outra experiência vivida por Frei Roberto, a merecer igual registro, se passou em um distrito próximo a cidade de Caruaru, no distrito chamado Rafael, onde atuou, sempre como missionário itinerante, durante uns três anos.

Experiências vivenciadas por Frei que alcançam frutos mais alvissareiros, prendem-se ao seu tempo Missionário junto com as comunidades urbanas e rurais do município de Ouricuri, no alto sertão pernambucano, há cerca de 10 anos, durante os quais acompanhou de perto e animou relevantes iniciativas protagonizadas por movimentos sociais populares, de organização das lutas socioambientais daquela região, entre outras atividades desenvolvidas naquele lugar.

Ao fazer-nos ressoar a palavra do Evangelho, segundo o qual, quem encontra onde está o seu tesouro aí está o teu coração, também Frei Roberto houve por bem compartilhar sua imensa alegria e seu zelo pelo tesouro que encontrou e cuja alegria quer compartilhar com aquelas e aqueles que acompanharam sua saga missionária, uns por 50 anos, outros por 40, por 30, por 20, por 10… A razão pela qual decidiu convidar – ver convite acima – comunidades distintas e seus amigos e amigas, para se associarem a esta iniciativa de Ação de Graças, de exercício da memória, de renovação e fortalecimento dos compromissos missionários, para celebrar ou concelebrar estes 50 anos de sua ordenação presbiteral. Neste sentido, de acordo com o cronograma de visitas por ele proposto, o primeiro lugar a visitar foi o sertão sergipano, mais precisamente no município de Itabi, por meio da ação dos trabalhadores e trabalhadoras Rurais e seu sindicato,

Justamente nesta região sertaneja, em volta dos municípios de Itabi, Poço Redondo e outros, foi iniciada a ação missionária de Frei Roberto, de Frei Enoque e outros companheiros e companheiras de caminhada, onde se deu um forte impacto da ação missionária, especialmente por meio das missões populares, muito incentivados pelo bispo de então, Dom José Brandão. Junto aos antigos amigos e amigas e atuais comunidades daquela região, é que se deu, na sede do sindicato rural de Itabi, o encontro comemorativo, com a participação de cerca de 40 pessoas.

-O que podemos recolher como aprendizado deste exercício de memória  da saga missionária de Roberto?

A caminhada frutuosa do missionário Frei Roberto nos traz, nos remete ao Espírito característico das primeiras comunidades cristãs, tal como relata o livro Atos dos Apóstolos, tal caminhadas inserem-se diretamente no seguimento de Jesus e seus discípulos e discípulas, ao longo de toda a tradição de Jesus e de seu movimento. Também nos faz lembrar vários movimentos e comunidades que têm sido fiéis à Tradição de Jesus, ao exemplo de movimentos tais como o dos Valdenses, o movimento dos Espirituais Franciscanos, o das Beguinas, para mencionarmos apenas três ilustrações. Mais recentemente, a trajetória missionária de Frei Roberto e outros itinerantes também nos reforçam a segunda memória de experiências recentes, tais como a do Concílio Ecumênico Vaticano II, a do Pacto das Catacumbas (1965), das CEBS e da Teologia da Libertação, implantados sob os auspícios da conferência de Medellín (1968)(1979), entre outras.

 

As comemorações já realizadas ou ainda em curso dos 50 anos da memória da ordenação presbiteral de Frei Roberto nos reforçam, igualmente, aspectos impactantes desta caminhada profético-missionária, nos reforça os compromissos de seguirmos firmes, a enfrentar os grandes desafios. Durante o encontro de Café do Vento (Sobrado – PB), em preparação ao grande encontro de comemoração dos 50 anos, compareceram dezesseis participantes: Hermínio Canova (anfitrião e também celebrante de seus 50 anos de ordenação presbiteral em 29 de Novembro de 2020), Frei Roberto Eufrásio de Oliveira (figura principal dos encontros comemorativos), Maria José (Café do Vento), João Batista (Luiz Gomes – RN), Tancredo, Maria do Céu, Dona Santa (Cuité, Capim e arredores), Maria da Soledade, conhecida como Neném, Luiz Henrique, Domingos (Escola de Formação Missionária de Santa Fé, membros da coordenação), Cícero e Andrea (Várzea Nova), Elenilson Delmiro dos Santos (grupo Kairós), Alder Júlio Ferreira Calado (grupo Kairós). O encontro foi iniciado com a oração com a leitura do Evangelho do dia. Após a partilha da palavra de Deus, encerrou-se com o canto “Baião das comunidades”. Em seguida, coube ao padre Hermínio dar as boas vindas e fazer uma breve reflexão sobre a relevância, no Cristianismo, de se fazer memória. Não se trata de trazer à tona meras lembranças que inspirem saudosismo, mas de um exercício que induz compromissos, de um exercício empenhativo. Elenilson, também, reforçou o sentido da memória. O ponto seguinte foi o de exercitar-se uma reflexão sobre nossa atual realidade. E o fizemos por meio de sete palavras-chave, precedidas por uma outra que serve de pano de fundo às demais: vivemos em uma verdadeira mudança de época, algo que se passa em raros momentos da história.

Vivemos uma profunda crise sócio ambiental, a Mãe Terra geme. Conforme estudos recentes da parte de cientistas, que se têm debruçado sobre as possíveis origens da covid-19, inclui-se a hipótese de que ela manifeste uma reação do planeta contra as atitudes seres humanos de profunda e Crescente agressividade para com a mãe natureza e toda sua comunidade de vivente . não tendo opção quanto ao salvamento de seus filhos e filhas (humanos, animais, vegetais…), como uma mãe amorosa que também ama profundamente todos os seus filhos e filhas, não apenas os humanos, sente-se constrangida a emitir um duro sinal aos agressores, como meio de alertá-los do crime que vêm praticando contra o planeta e a comunidade dos viventes.

Também, nossa realidade vem marcada por uma profunda crise ética, em que se observa uma reviravolta dos valores, inclusive da própria verdade, hoje frequentemente tratada como uma “pós-verdade”, Isto é, como se os humanos passassem a entender a verdade conforme seus próprios caprichos, ou seja, “a verdade é aquilo que eu quero que ela seja”. Além disto, há uma subversão dos princípios e valores em que tantos dizem basear sua vida, a exemplo de tantos segmentos da população que se confessam cristãos (católicos, ortodoxos, reformados), ainda que suas atitudes se distanciem visivelmente dos princípios mais elementares do Jesus de Nazaré e das primeiras comunidades cristãs.

Nosso mundo vem, igualmente, sendo marcado por profunda crise econômica, muito visível quando se busca observar o modo de produção capitalista, é demoníaco hoje, principalmente por seu segmento financista, cujos agentes não cessam de acumular escandalosos lucros, justamente em tempos de pandemia, testemunhando assim que o seu Deus é o Deus Mamon, que nada tem a ver com o Deus anunciado e testemunhado por Jesus de Nazaré.

Outro ponto que acentuamos, nesta lista de palavras-chave, foi a crise política, de gestão societal cada vez maior, percebemos que o estado (antigo, medieval, moderno, contemporâneo) não responde minimamente às aspirações da enorme maioria dos países, nos diversos continentes, contribuindo junto com as forças do mercado capitalista, para agravar em ainda mais as desigualdades espantosos de que é vítima acrescente maioria dos habitantes da terra.

A crise religiosa constituiu outra palavra-chave, no sentido de que as grandes forças malignas que marcam o atual modo de produção de gestão e de consumo têm uma enorme contribuição da parte de lideranças religiosas que, em que pese seus discursos em contrário, só tem contribuindo para com o atual e perverso modo de produção, de consumo e de gestão societal.

Por último, frisamos, como palavra-chave, o lugar das igrejas cristãs, em especial a Igreja Católica Romana, como agentes de fortalecimento desta crise à medida que se empenham em justificar, apelando ao nome de Deus, as atitudes mais perversas dos dirigentes atuais, seja em escala mundial ( a medonha figura de Donald Trump), seja em âmbito nacional (bolsonarista).

Como arremate das presentes linhas, compartilhamos mais dois aspectos. Um primeiro consiste em destacar que, para além da figura de Roberto, é considerável o número de missionárias e missionários brasileiros nordestinos, nascidos ou não no Brasil, que igualmente merecem uma reflexão e um tributo mais explícitos, oportunamente. Com efeito, muitos são os nomes que vêm espontaneamente à memória, quando registramos estas linhas. Irmã Sarita Furtado, irmã Agostinha Vieira de Melo, irmã Jacinta, irmã Hermínia travessão lá no santuário das cebs, em Caruaru parênteses, Padre Vicente zambello, Padre Hermínio Canova que, ainda em novembro passado, completou seus 50 anos de ordenação presbiteral, diáconos como Paulo Carlos de Souza, de Jataúba, diácono José Duran, apenas para citar alguns exemplos, aos quais devemos acrescentar uma gama de leigas e leigos, a exemplo de José Duda (de Jataúba), de Elvira Galindo (Alagoinha/Pesqueira), José Sena (Pesqueira), dentre tantas e tantos outros. Outro aspecto que temos a realçar diz respeito a uma explicação do título destas linhas: “quando emergem as correntezas subterrâneas “. a utilização de parábolas, figuras de linguagem constitui, desde os tempos de Jesus (Suas tão luminosas parábolas), passando pelas místicas e místicos da Idade Média e em outros períodos, fato é que a linguagem simbólica tem-se apresentado como um segundo recurso comunicativo. Mais recentemente, a memória a imagem criada pelo Frei Carlos Mesters se reporta às CEBs como um conjunto imenso de riachos que vão alimentar “o rio das CEBs”. Ainda mais recentemente, figuras tais como a de José comblin, João Batista Magalhães Sales e outras, trazem em seus escritos ou em suas falas a expressão “correntezas subterrâneas”, para designarem o modo de organização das pequenas comunidades, cuja atuação se dá, de preferência, junto aos pobres do campo e das periferias urbanas, gente humilde, anônima, invisibilizada, como se fossem correntezas que circulam abaixo da superfície, e, como o da comemoração dos 50 anos de ordenação presbiteral de Frei Roberto é assim que costumam funcionar estas forças eclesiais, na simplicidade, na descrição, no entusiasmo.

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