Protestos revelam insatisfação com atual modelo político

A onda de protestos no Rio, em São Paulo e nas principais capitais brasileiras, completa hoje (20) uma semana desde o último dia 13, onde a manifestação na capital paulistana contra o aumento nas passagens de ônibus foi marcada por episódios de violência policial, prisões e agressões físicas da PM à jornalistas. O evento foi o estopim de uma série protestos que tomaram as ruas com milhares de manifestantes de diversos segmentos sociais. O Movimento Passe Livre (MPL) tomou a dianteira trazendo à pauta de discussões da sociedade, com ampla cobertura da mídia, a questão das políticas públicas na área de transportes, os monopólios do setor e uma série de outras agendas difusas que compõem um cenário de insatisfação com o atual quadro político e modelo gestor brasileiro.
As manifestações ocorridas no dia 17 de junho, simultâneas em capitais de norte à sul do pais, foram alvo de violência de policiais e de manifestantes, além de tentativas de invasão de prédios públicos e símbolos da democracia representativa como Prefeituras, Assembleias Legislativas e do Congresso Nacional. Os protestos revelaram uma profusão de discursos e posicionamentos que iam desde representantes de partidos de esquerda, descontentes com o alinhamento da política do governo federal e do Partido dos Trabalhadores (PT) ao que chamam de “lógica do capital”, até adesão significativa de movimentos de extrema-direita como o Endireita Brasil, liderado pelo advogado Ricardo Salles, recentemente nomeado secretário particular do governador Geraldo Alkmin (PSDB).
A escritora e professora do IM/UFRJ, Tatiana Roque, filha do professor da UFRJ e militante comunista do PCdoB Lincoln Bicalho Roque, torturado e morto durante do regime da ditadura militar,  esteve presente nos protestos no Rio de Janeiro e fez uma leitura positiva. Apesar da  notável fragmentação dos discursos, Tatiana acredita que o objetivo dos protestos se mantém preservado “Acho a manifestação muito positiva, algo que não acontecia há tempos e com um caráter totalmente novo, horizontal, sem lideranças, sem partidos, protesto convocado pela rede por enxameamento… O objetivo do passe livre se mantém, apesar desta bandeira ter se dissipado em meio a outras, mas o fio foi mantido e na passeata de segunda-feira (17) apareceu bastante.”, opina.
Na última quarta-feira (19), os manifestantes obtiveram uma vitória inédita: o prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), junto ao e governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou em pronunciamento transmitido pelas principais emissoras de televisão, a revogação do reajuste das tarifas. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes, fez uma coletiva simultânea a de São Paulo, também transmitida ao vivo, onde retrocedeu no reajuste das passagens no transporte coletivo de ônibus, metrô e barcas, que voltarão ao valor anterior ao reajuste a partir da próxima sexta-feira (21).
Manifestação no Rio de Janeiro
O protesto do último dia 17 na capital carioca, apelidado de Manifestação dos Cem Mil pelos manifestantes e imprensa, reuniu  mais de cem mil pessoas no Centro do Rio de Janeiro, que tomaram de maneira pacífica a frente da igreja da Candelária, a Avenida Rio Branco e a Cinelândia, palco histórico da famosa passeata dos Cem Mil Contra a Ditadura Militar, que teve a presença de artistas e intelectuais, ocorrida no ano de 1968.
Composta principalmente por jovens e estudantes universitários, em sua maioria vestidos de branco, a multidão  entoava frases de ordem contra o aumento das passagens e ia ganhando a adesão de quem saia do trabalho. Dentre os que aderiram na última hora estava Ana Paula Fachim, de 26 anos, funcionária da empresa ETX “Acho esse momento histórico e muito importante para a cidade onde podemos conseguir mudar as coisas. Não resisti e quis ver de perto”, contou entusiasmada.
Os discursos e níveis de politização dos manifestantes eram bastante variados, bem como o motivo da participação. A dona de casa Maria José compareceu acompanhando seu filho, e olhava encantada a multidão e seus gritos de ordem. Quando indagada sobre o motivo da sua presença na manifestação, respondeu com sorriso acanhado e sereno “Acho válido estar aqui… A passagem independentemente do aumento ou não, é muito cara.”, diz. Já o ator Gustavo Guenzburguer, compareceu representando o movimento Reage Artista, criado há cerca de um ano com o intuito de obter melhorias de condições para a classe artística “Nós estamos aqui buscando publicas públicas que contemplem efetivamente dos difusores de cultura”, disse Gustavo empunhando uma faixa do movimento.
Ao som de músicas que iam do funk, hip hop à MPB, a multidão cantava, dançava, gritava palavras de ordem como “Quem não pula, tem aumento!”, e alguns distribuíam flores em um clima pacífico e quase festivo. As faixas e cartazes  também refletiam a diversidade de temas, entre bandeiras de legendas políticas predominantemente do PSTU, PSOL e PCO, bandeiras do Brasil, cartazes do movimento LGBT, faixas contra o governador Sérgio Cabral (PMDB) e o prefeito Eduardo Paes (PMDB), faixas escritas “Não são pelos 20 centavos”, cartazes com slogans publicitários como “Vem pra rua!” (em alusão é propaganda de automóvel da montadora Fiat) e “O gigante acordou!” (em referência a campanha publicitária da marca de whisky Johnnie Walker), misturados à apelos e críticas à presidente Dilma Housseff.  Também havia temas controversos da pauta política, como a PEC 37 “Eu estou aqui contra a PEC 37 porque acho que é fundamental que o Ministério Público possa ter assegurado  direito de investigação.”, disse o estudante de relações internacionais da Universidade Estácio de Sá, Márcio de Souza, enquanto empunhava um cartaz.
A militante do PSOL, Camila Leite, de 21 anos, estudante de Ciências Sociais da UFF, compareceu segurando faixas junto a integrantes do partido “O PSOL é contra o aumento das passagens e também contra a atual política do governo federal”, disse. O militante do PCB Renato Martins, de 32 anos, relatou de episódios de violência de manifestantes apartidários e anti-partidários, que aos gritos de “Sem partido!” agrediam e tentavam expulsar militantes com bandeiras de legendas “Tentaram nos expulsar e um amigo meu foi agredido.”, conta.
Episódio de violência
 
Ao final da manifestação no Rio, por volta das 19h50, um grupo de manifestantes tentou invadir o prédio da Alerj e entrou em confronto com a polícia. Os manifestantes fizeram fogueiras nas imediações, atingiram o prédio com coquetéis molotov e atearam fogo em dois carros, um no estacionamento funcional da Assembleia Legislativa e outro atrás da Alerj. Diversos focos de incêndio foram encontrados na região, que foi alvo de pichações, saques, destruição de lojas e agências bancárias. No fim da noite, um grupo de manifestantes conseguiu invadir o prédio da Alerj, quebrou janelas, ateou fogo na porta e tirou cadeiras de dentro do edifício. A  polícia confrontou os manifestantes com extrema violência, através do uso sprays de pimenta, tiros de balas de borracha, bombas de gás lacrimogênio , além de tiros de fuzil e pistola com munição letal.
Adesão de movimentos de extrema-direita
Movimentos de extrema direita também aderiram à onda de protestos pelo Brasil. O movimento intitulado “Força Correligionária Anti-comunista do Brasil” fez convocação na rede social Facebook para protestos em favor da volta da ditadura militar. Na mesma linha, a página, “Golpe Militar 2014”, com mais de 5.000 integrantes, convocam para a marcha nas ruas.
O movimento “Endireita Brasil”, liderado por Ricardo Salles, teve presença ativa nas manifestações em diversas capitais, nomeando os protestos do último dia 17 como “Dia do Basta”.  O grupo “Faca na Caveira”, formado por militares, predominantemente pertencentes a PM, possui uma página no Facebook com 295.000 adesões, e mistura convocações à marcha com discursos de conteúdo homofóbico. A pauta principal do grupo na página é o veto à PEC 37  “Um dos maiores absurdos do nosso pais”, diz uma postagem do grupo. O grupo sugere ainda o lançamento da campanha do ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa para a presidência em 2014.
A professora Tatiana Roque alerta que essa tentativa de apropriação do discurso acompanha a lógica capitalista “Isso é uma tentativa de captura, como é característico do capitalismo atual. Hoje o capitalismo se mantém e se reproduz por estratégias de sobrecodificação, é assim em todos os âmbitos. A multidão produz, inventa, e o capitalismo se apropria de sua potência. ”
Anonymous e ataques hacker
O coletivo estrangeiro Anonymous também esteve ligado aos protestos e iniciou uma série de ataques hacker à páginas governamentais brasileiras, veículos de imprensa e redes sociais. O Anonymous BR publicou vídeos na rede social Youtube convocando para o os protestos e elencando as cinco causas na visão do grupo para o qual os protestos devem se direcionar: ‘O veto à PEC 37’, ‘A saída de Renan Calheiros do Congresso’, ‘Investigação e punição de irregularidades na Copa pelo Ministério Público’, ‘Criação de lei que torna a corrupção crime hediondo’ e o ‘Fim do foro privilegiado’.
No último fim de semana, o grupo foi responsável pela disseminação de uma série de falsos boatos de censura à rádios e sequestro de militantes, que foram disseminados em sua página no Facebook e compartilhados pelos usuários da rede em ritmo viral, provocando um desencontro de informações.
O grupo também assumiu autoria de ataques hacker à páginas governamentais, perfis de políticos no twitter e páginas de veículos de imprensa, dentre eles a conta da Revista Veja no twitter. A Revista Veja vinha apoiando o grupo, tendo chegado a publicar na íntegra um manifesto de autoria do Anonymous na coluna online do jornalista Augusto Nunes, no último fim de semana.
A cobertura da imprensa
A série de protestos também foi destaque na cobertura da imprensa nacional e internacional, buscando relatar e analisar os acontecimentos.  A Folha de São Paulo destacou-se pela mudança na linha editorial da cobertura. Inicialmente chamando os manifestantes de vândalos, teve o seu enfoque modificado após a manifestação no dia 13 no centro de São Paulo, em que repórteres e fotógrafos do jornal foram agredidos pela PM. A partir do dia 14, o jornal começa a noticiar os excessos da PM paulistana.
O jornalista Alceu Luis Castilho, que é analista de mídias e autor do livro-reportagem “Partido da Terra”, ressalta que a mudança de postura da Folha também esteve relacionada à pesquisas “No caso da Folha há dois fatores para a mudança. Um, mais óbvio, a reação às agressões. Só que na terça-feira um repórter do jornal já havia sido preso. Então entra o fator extra: a pesquisa Datafolha, na quarta-feira (12), que mostrava a aprovação dos protestos pela população. A guinada da imprensa é também uma guinada populista, de conveniência. A Veja seguirá com seu nicho ultraconservador de mercado, com adaptações mínimas.”, diz.
Alceu Luis Castilho aponta que a cobertura vem se revelando incompleta, refletindo tanto o atordoamento da sociedade como sua falta de cacoete em cobrir movimentos sociais. “Na noite desta terça-feira ocorreu algo emblemático. A mídia NINJA, um coletivo de jornalistas independentes, deu uma surra televisiva, em transmissão ao vivo pela internet, nos meios tradicionais. Foi um furo espetacular, na cobertura do conflito na Paulista. Foi ali que vimos, em tempo real, o painel da Coca-Cola sendo queimado, as pessoas sendo presas, o repórter interagindo com a notícia e com a percepção de ser, também ele, notícia.”, salienta.
Os protestos também foram marcados pelo ataque à profissionais de imprensa e empresas de comunicação pelos manifestantes, tendo como principais episódios a agressão e expulsão do jornalista Caco Barcellos, da TV Globo, da cobertura nas ruas de São Paulo e a queima de um carro de reportagem da TV Record “Isso se deve ao fato de os revoltosos não se sentirem representados. Isto por um lado. Por outro, pelo histórico de manipulações e omissões. O caso do Caco Barcellos é uma pena, pois foi a voz mais corajosa no jornalismo brasileiro contra a ‘polícia que mata’. Mas os movimentos de mudança também têm suas contradições, seus defeitos e excessos. Tudo isso significa que a imprensa tradicional terá de se reinventar, e rápido.”, analisa Alceu Luis Castilho.
Bastidores políticos
Segundo o cientista político e professor da UFRJ Luiz Eduardo Motta, ainda é cedo para avaliar o impacto da onda de protestos no cenário político nacional Acho cedo para avaliarmos o impacto desses protestos nas eleições de 2014, pois falta mais de um ano e a característica principal da política é o movimento constante. Até porque está tudo muito recente e ainda não temos os posicionamentos dos atores que compõem esse cenário. Acho que a esquerda vai precisar de sensibilidade para compreender essa situação, se aproximar desses movimentos, abdicar do modelo atual que privilegia o capital e modificar completamente a sua maneira atual de fazer política no Brasil.”, analisa.
Para Luiz Eduardo Motta, o ataque às instituições não implica necessariamente no fim do modelo de democracia representativa, mas demonstra um claro sinal de descontentamento e sentido de falta de representação de uma parcela significativa da sociedade “Precisam se criar novas alternativas, novos discursos e principalmente criar novos canais de comunicação direta com a sociedade. Como diz o filósofo Alain Badiou, há um esgotamento do modelo da democracia liberal e a necessidade de outras formas alternativas a esse modelo que se tornou único nos países ocidentais a partir dos anos 1990. Com a sua crise iniciada no início deste século a retomada do ‘comum’ em oposição ao individuo voltou a ser uma realidade. Isso significa que uma ‘hipótese comunista’ oriunda por alguns segmentos dos movimentos sociais possa ser uma alternativa a esse modelo que se esgotou e tem levado ao planeta a esse estado de barbárie”, completa.
 
(*) Sheila Fonseca é jornalista.

2 comentários sobre “Protestos revelam insatisfação com atual modelo político”

  1. Eu estou sem esperança de ver este País melhorar a situação da saúde, educação e corrupção. Com esta gangue que tomou posse do país, tais como, Renan, Sarney, Michel Temer, Lula e sua turma, fica impossível mudar o País,. O que precisamos é de uma reforma dos políticos, e não de reforma política com os próprios reformando a seu favor.

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