Produzir e consumir diferente para produzir outro mundo

Seminário XXXX. Foto: Arquivo/PACS.
Seminário “Consumo Ético e Responsável: uma proposta para o desenvolvimento local” em Campo Grande (RJ). Foto: Arquivo/PACS.

Em um mundo onde a “saída” econômica da maioria dos países é o incentivo indiscriminado do ato de comprar, o seminário “Consumo Ético e Responsável: uma proposta para o desenvolvimento local” levou a Campo Grande, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, reflexões, críticas e propostas de novas maneiras de promover a circulação de riquezas. Cerca de 50 pessoas, em sua maioria mulheres, compareceram à atividade promovida pelo Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), que ocorreu no dia 14/6.
Fabíola Zerbini, da instituição Faces do Brasil, veio de São Paulo para participar do seminário e apresentou à platéia, de maneira clara e didática, outras maneiras de se construir o desenvolvimento local, propondo o consumo responsável de produtos. Já Marcos Arruda, do PACS, abordou fatos importantes da atual conjuntura como os reflexos do endividamento público e a privatização dos recursos naturais, principalmente do petróleo.
Robson Patrocínio, também do PACS, explicou que o Seminário serviu para fortalecer o trabalho das pessoas e dos grupos de produção em economia solidária na região. Os presentes, no caso, já participaram dos cursos de formações promovidos pelo Instituto. Como exemplos, citou dois importantes espaços de articulação local na região: a Rede de Socieconomia Solidária da Zona Oeste e o Comitê Popular de Mulheres. “Vemos a economia solidária como estratégica para o desenvolvimento da Zona Oeste, que possui 58% do município. Por isso, temos que pensar em casar a gestão e a viabilidade das produções com o debate político em torno das questões de gênero, orçamento público, das dívidas [externa e interna] no Brasil, entre outras pautas”, pontuou.
Ainda durante o seminário foram lançadas as publicações: “Gestando a Vida – experiências do fazer Socieconomia Solidária” e “Economia Política nas mãos das Mulheres – uma experiência de Educação Popular”. Os livretos contam as experiências de quatro anos do curso “Gestão e Viabilidade” e cinco anos do “Mulheres e Economia”, e compõem a coleção “Semeando a Socioeconomia”, série editada pelo PACS desde 1998.
Dívida pública e privatização de recursos naturais
Para se promover o desenvolvimento local é necessário pensar que cada canto do país está ligado à política macroeconômica. Isso que dizer que essa região recebe reflexos do que é decidido no país e até no mundo. Essa é a conclusão de quem escutou Marcos Arruda durante o Seminário. Uma reflexão feita sobre o salário mínimo, direito conquistado pelos trabalhadores nos anos de 1940. “Se a gente tivesse uma política de valorização do trabalho diferente, o salário de hoje não estaria valendo um quarto do que valia quando foi criado. Transformando o valor de compra dele para o de agora ele valeria R$ 2,020. Mas o tão falado salário mínimo do governo Lula só vale R$ 510” , explicou.
Arruda afirma que essa realidade está ligada a um modelo de desenvolvimento que tem concentrado cada dia mais a riqueza gerada no Brasil nas mãos dos poucos que detém os meios de produção, isto é, empresas e corporações. “Na década de 1980, a relação percentual entre capital e trabalho era de 50% para cada lado. Hoje já batemos 64% para o capital e 36% para o trabalho”, relatou. Outro ponto lembrado foi o debate sobre as dívidas públicas. Atualmente, os países do hemisfério norte, os mais ricos no geral, também enfrentam uma forte crise. “Eles estão sentido agora o buraco em suas contas quando os governos tiraram dinheiro de suas poupanças públicas para dar aos bancos e grandes empresas”, explicou. Porém, Arruda diferenciou as duas situações: “Quando o Brasil e países latinos têm que pagar a dívida o FMI sempre diz que temos que aceitar pacotes de ajustes estruturais. Para que eles servem? Justamente para pagarmos a dívida pública, que é um tributo colonial. Agora, vejam se o FMI chega impondo o mesmo quando países como Alemanha, Grécia e França entram em crise. Não chega!”, ressaltou.
Felipe Brum, da Cooperativa Forte da Cidade de Deus, lembrou algo importante: “Na TV falam que a gente paga a dívida, mas eu reparei que ela nunca termina. Descobri que a gente paga os juros, e não a dívida de vez”. Sobre isso Marcos Arruda completou: “Estamos falando aqui do sobrendividamento, não só do endividamento. Trata-se da cobrança em cima de juros. Isso se chama capitalização da dívida, que é quando se ganha em cima do que não se gasta. Os Estados Unidos, por exemplo, fazem guerra não com o dinheiro que sai da máquina de fazer dinheiro, mas com seus títulos especulativos. Dinheiro vindo de juros”.
Concentração de riquezas no sistema capitalista
“O padrão de consumo é alto e desigual entre os países. Existe o uso de recursos naturais muito além do necessário, sem falar na geração de lixo que é muito grande. Os produtos são fabricados para acabarem mais rápido e as pessoas voltarem a consumir. Essa é chamada obsolescência programada”, explicou Fabíola Zerbini.
“Mas eu vi uma propaganda uma vez que dizia que o couro do sapato se desmanchava por causa do meio ambiente. Como fica isso?”, perguntou da platéia Maria Aparecida. Sobre a questão, Marcos Arruda já havia alertado: “Nossa matriz energética está voltada para a captura ilimitada dos recursos naturais sem que se pense e priorize a preservação do planeta”. Fabíola Zerbini responde a pertinente pergunta: “Isso não é verdade. A produção hoje demanda muito recurso natural, minério e petróleo, principalmente. Então, é melhor para o meio ambiente ter um produto durável do que o consumo indiscriminado de bens que se acabam”.
Cerca de 50 pessoas participaram da atividade, em sua maioria mulheres. Foto: Arquivo/PACS.
Cerca de 50 pessoas, em sua maioria mulheres, participaram da atividade. Foto: Arquivo/PACS.

A pesquisadora explicou que a “propaganda” foi o ingrediente que faltava para a constituição de populações extremamente consumistas: “Ela começa a ser utilizada pelos donos dos meios de produção na década de 1920 quando eles inauguram a produção em série. Acaba aí a lista de espera, já que vários produtos passam a ser produzidos ao mesmo tempo. Daí passa a existir mais produto que comprador. Então, tendo que convencer as pessoas, eles passam a criar as necessidades por meio da propaganda”.
“Você falando me lembrei das crianças. Elas já competem uma com as outras e nem querem mais brincar juntas. Antes a criança brincava de Barbie, que era uma coisa cara, né? Hoje ela continua brincando, mas no computador. Ela vai lá e brinca de trocar e comprar roupas de boneca na Internet”, contou Margareth André dos Santos, do Comitê Popular de Mulheres. “Sei que jogo é esse. Tem uma taxa de pagamento que se a gente paga a criança, ou melhor, a Barbie do computador recebe um guarda-roupas virtual três vezes maior. Essa é a lógica do capitalismo e sei que é complicado combater, mas temos que tentar sempre”, afirmou Fabíola.
A construção de uma nova economia
Outro ponto lembrado por Fabíola Zerbini foi a concentração das riquezas, deixando a produção e distribuição nas mãos de poucos. “As 200 empresas do mundo hoje concentram 70% do comércio internacional, sendo que 40% delas filiais de uma mesma corporação. Esse número parece até alto, mas se formos pensar no tamanho mundo, ele é muito pequeno. Pensem nos estabelecimentos do seu bairro, somados já passam rapidinho de 200” , compara.
A economia solidária surge como alternativa para quem quer lutar contra essa forma desigual de produzir e consumir e, ao mesmo tempo, conseguir gerar renda própria e promover desenvolvimento local. Isso combatendo a exploração de trabalhadores e trabalhadoras e a degradação do meio ambiente. “O mundo não agüenta mais o atual padrão de desenvolvimento. Temos que criar outro, com novos conceitos. Então temos que nos lembrar da ideologia de resistência. Não assinar embaixo do que a gente não concorda, mas ver, julgar e agir. Começar a priorizar os produtos que sabemos que foram produzidos sem exploração”, opinou Fabíola Zerbini.
Participantes do evento expondo as suas XXXX. Foto: Arquivo/PACS.
Participantes do evento colocando em discussão seus pontos de vista. Foto: Arquivo/PACS.

Para quem acredita e constrói a economia solidária, lutar para a politização do consumo é fundamental. “É complicado vender nossos produtos com preços justos. As pessoas não sabem que a gente tem que considerar nossa luz, o material que a gente usa para a produção que por vezes está caro. Temos que incluir também nosso tempo de trabalho. Em lojas de shopping as pessoas compram coisas pela marca. E também tem os produtos chineses, que muitos preferem por serem super baratos”, problematizou Maria Regina Fontes, que produz esculturas chamadas de “africanas”.
Leila Netto, do grupo Mulheres de Pedra, disse que nesses casos os produtos da economia solidária devem seguir valores muito mais que fincaneiros. “Temos que mostrar que comprar produtos da economia solidária envolve valores, mas valores éticos. A gente não lida com a exploração buscando o lucro. Temos que ter respeito e mostrar para quem vai comprar um novo olhar para a proposta”. Segundo ela, muitos grupos da economia solidária reproduzem a lógica capitalista. “Sempre vem alguém oferecendo uma vantagem ou outra, gente competindo. Temos que ser firmes e usar a nossa linguagem, colocarmos nossos valores na prática”, disse.
“A produção de base solidária não inclui a competição, a acumulação desigual de riquezas entre os componentes dos grupos, o que muda a lógica capital e trabalho. Se todo mundo que é da economia solidária passar a comprar produtos solidários podemos fazer dos fóruns e feiras, que hoje já são importantes espaços políticos de tomada de decisão, importantes espaços econômicos”, avaliou Fabíola Zerbini.
Para começar a criar laços na comunidade, quem dá a dica é Margareth André dos Santos, do Comitê Popular de Mulheres do Rio de Janeiro. Ela falou que a prática das “trocas solidárias” aproxima as pessoas. E deu um exemplo simples: “Promovi a festa de aniversário da filha de um pedreiro do meu bairro. O pagamento dele foi colocar o piso da casa dela”.
Além de priorizar trocas e a compra responsável de produtos, também são princípios da economia solidária: igualdade de gênero na produção e remuneração digna do trabalhador e da trabalhadora; condições de trabalho adequadas; práticas ambientais sustentáveis; valorização justa do produto; e manutenção de relações comerciais duradouras. Essa maneira de se fazer economia pretende promover o consumo diferente, criando formas de se adquirir produtos e serviços que contribuam de forma responsável para a melhoria de vida de pessoas, do ambiente e da sociedade como um todo.
(*) Texto publicado originalmente no site do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul – PACS (http://www.pacs.org.br/).

Um comentário sobre “Produzir e consumir diferente para produzir outro mundo”

  1. Pingback: Tweets that mention http://fazendomedia.org/?p=4174utm_sourcepingback -- Topsy.com

Deixe uma resposta