Problemas com a idade?

Desde que me entendo por gente que tenho mais de cem anos, e, mesmo assim, nunca me senti velho. Nunca tive pensamento limitado e que cerceasse o novo, mesmo que tivesse e tenha, em alguns momentos, severas restrições ao que muitos chamam de moderno. Sempre admirei e me interessei pelas inovações que vivi e presenciei. Tanto é verdade, que me utilizo da moderna tecnologia como instrumento de trabalho. Porém, é fato que muitas vezes, no dia-a-dia, não mais reconheço o mundo que me cerca.

Sou de uma geração que cresceu se acostumando a apertar botões. O mundo foi se tornando dependente dos botões e fomos nos acostumando. Lembro-me de bancos que há trinta anos forneciam cartões aos seus clientes feitos de papel, como era o caso do Comind, já extinto. Hoje, os cartões quase falam com a gente. Conheci pessoas que tinham medo de usar os caixas-eletrônicos nos bancos. Hoje, muitos ainda têm medo de pagar suas contas de casa pelos seus computadores. São os medos de cada era.

O que mais me assusta é o caminho que a humanidade está trilhando. Inclusive, o termo humanidade está muito desgastado e talvez nem mais consiga exemplificar o que somos. É melhor eu nem entrar nesta questão, senão fico louco, desligo o computador e vou ler “A relíquia” de Eça de Queirós, que poucos jovens de hoje em dia leram ou lerão. Agora, voltemos à questão da idade! Mas já aviso, nunca saberemos, de fato, a idade que temos!

Há muito tempo que já estou acostumado a ser chamado de tio na rua. Foi horrível a primeira vez, mas, depois me acostumei. Uma vez, eu tinha apenas vinte e cinco anos e estava com uma amiga, que hoje mora em Londres e é uma burguesinha autêntica, visitando a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Um chatíssimo vendedor de assinaturas de revistas resolveu me enlouquecer, perseguindo-me a fim de me empurrar uma assinatura qualquer. Como último argumento ele olhou para esta minha amiga ao meu lado e me disse, segurando uma coleção de revistas ditas joviais: “Faça então uma assinatura para sua filha!”. Eu quase estrangulei o sujeito! Porém, de lá para cá, outras incontáveis situações como esta aconteceram. Quando me lembro dessas situações, pergunto-me o que viam em mim, para me acharem quase primo de Matusalém. Provavelmente, era minha atitude e postura diante da vida, até porque, rugas e cabelos brancos eu ainda não possuía.

Nunca segui modismos, nem nas roupas, e muito menos no modo de falar, e sempre admiti isto! Na minha adolescência, todo jovem de classe média tinha que usar tênis da Redley, caros e coloridíssimos, e que eram vendidos nas lojas Cantão. Antes dessa moda, jovem comprava roupa na Pier, mas, depois de inventarem que o nome Píer era uma sigla significando “paraíbas invadindo o estado do Rio” tal loja caiu em desgraça e quem lá comprasse, era quase que exilado do convívio social. Pois eu sempre optei pelo clássico, porém eterno. Acreditem, eu usava mocassins das marcas Sândalo ou Samello!

Assim, o tempo foi passando e hoje já tenho amigos da minha faixa etária tendo netos! Confesso, eu não me preparei para isto! Já tive reuniões de trabalho com jovens vinte anos mais novos do que eu e que têm filhos, que poderiam ser meus netos. No entanto, também percebi que estes jovens executivos possuem uma excelente bagagem de conhecimentos, vomitam estatísticas sensacionais, mas não sabem ou não viveram para entender como a vida moldou tais resultados estatísticos. Hoje, as empresas e as agências de publicidade moldam suas campanhas para a faixa etária entre dezoito e vinte e sete anos, desprezando comercialmente quem tem mais. E por que fazem isto? Preconceito? Aí está uma questão para ser muito bem discutida.

Antigamente, a adolescência acabava aos dezoito anos. Hoje vai até os trinta! O que não significa que após a adolescência terminar, o indivíduo deixe de agir como tal. Inclusive, alguns episódios despertam ainda mais infantilidade e estupidez. É o caso da separação. Noventa e nove por cento dos homens passam a se comportar feito adolescentes logo após se separarem. Os de meia-idade então passam a pintar cabelo, malhar em academias, compram carros esportivos, se vestem como se tivessem vinte anos e partem em busca de conquistar garotinhas. É muito ridículo! Já as mulheres ou vão para a terapia e se enchem de Prozac, ou então passam um bom tempo odiando os homens por tudo, caracterizando aí um comportamento tipicamente adolescente. Algumas mulheres também resolvem achar que o tempo não passou e que a lei da gravidade não atuou em seus corpos e passam a usar vestidinhos que mesmo na adolescência já mostravam demais, lançando-se na caça de homens bem mais jovens, desejando que seus ex-maridos fiquem sabendo. É um verdadeiro circo dos horrores!

Como está bem claro, sou muito crítico em relação à conduta das pessoas, ou melhor, da própria sociedade. Há mais de vinte anos que vejo pessoas comprando livros de auto-ajuda em busca de se “encontrarem”, mesmo que de forma rápida e por receita pronta. O que percebo é que as pessoas ainda não entenderam que cada idade tem suas belezas e características, e que, se bem vividas, são fantásticas. Já passei da idade de ir a shows do Luan Santana, por exemplo. Fico zonzo com a barulheira e isto não me faz peça de museu. Aprendi a vivenciar o que me dá prazer, independente do que a correnteza do momento me imponha e pronto! Prefiro um batepapo com amigos inteligentes, pois até nas besteiras que possamos falar, aprendemos algumas coisas. Por exemplo, aprendi que depois dos trinta e cinco anos, devemos dar preferência a ter encontros românticos à luz de velas ou ao luar, pois assim não conseguimos ver direito os detalhes da outra pessoa. A penumbra é ótima aliada para o amor na maturidade!

Garanto que muita gente, ao ler este artigo, dirá: “Puxa, que velho chato!”. E daí? Prefiro ser velho a ser extinto! Também não voltaria nem um mês no tempo. O que vivi, vivi. E hoje, consigo me sentir bem melhor do que me sentia há muitos anos atrás, mesmo estando o mundo tão estranho. Já admiti várias vezes que sou saudosista, mas também, já aprendi que vivemos sempre o passado, pois a simples leitura da frase anterior já é coisa passada. O presente é ínfimo, e o futuro, uma ficção. E isto é pura Física, coisa que só aprendi percebendo-a na prática e não me lembro sequer de uma única fórmula decorada nos tempos de escola. Será que é Alzheimer?

O autor é carioca, por engano. De formação é historiador e publicitário, radialista por acidente e jornalista por necessidade de informação. Vive vários dilemas religiosos, filosóficos e sociológicos. Ama o questionamento.

Fonte: Debates Culturais

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