Prisão de Bolsonaro: o Brasil mostra como se sustenta uma democracia

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O que o Brasil nos mostra hoje — e o mundo observa — é que é possível verificar os fatos quando há uma disposição persistente para compará-los, examiná-los e corrigi-los. Quando uma sociedade renuncia ao pensamento crítico, quando se recusa a questionar suas próprias crenças — por mais confortáveis ​​que sejam —, abre-se caminho para que líderes como Bolsonaro cheguem ao poder. E no Chile, essa não é uma ameaça futura: estamos vivenciando-a agora.

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro é o resultado de um longo processo judicial que demonstrou algo sério, porém simples de entender: um presidente derrotado tentou se manter no poder minando a democracia. O Supremo Tribunal Federal o condenou a mais de 27 anos por conspiração para golpe de Estado, fabricação de um “decreto de intervenção”, coordenação de campanhas de desinformação e pressão sobre as Forças Armadas para que desconsiderassem os resultados das eleições de 2022.

A prisão de sábado, no entanto, não se deu por conta dessa condenação, mas sim pela violação da tornozeleira eletrônica. Seus aliados alegaram inicialmente que se tratava de “repressão religiosa”, já que uma vigília havia sido organizada em frente à sua casa.

Em seguida, surgiu um vídeo no qual o próprio Bolsonaro confessa ter usado uma solda elétrica para quebrar o aparelho. Agora, seus apoiadores alegam que ele teve um colapso nervoso e estão preparando esse argumento. O motivo que consideram relevante é sua suposta saúde frágil.

É precisamente na área da saúde que Bolsonaro carrega um dos capítulos mais graves de seu legado.

Embora não tenha sido julgado pelos crimes cometidos durante a pandemia, é impossível separar este episódio do seu passado. Enquanto mais de 700 mil pessoas morriam de Covid-19, ele zombava daqueles que não conseguiam respirar, promovia tratamentos inúteis e sabotava os esforços de vacinação. Seu desprezo pela vida está documentado. Assim como seu desprezo pela democracia.

Num mundo onde as instituições recuam diante de líderes autoritários, o Brasil fez o que muitos países não conseguiram: defender a democracia e a justiça de forma transparente. Demonstrou que nenhuma posição pode proteger aqueles que conspiram contra o Estado de Direito.

Essa notícia transcende o Brasil e desafia diretamente o Chile. Enquanto Bolsonaro enfrenta as consequências de seus atos, aqui ouvimos candidatos à presidência negando os crimes cometidos durante a ditadura e até propondo a liberdade para autores de crimes contra a humanidade. Candidatos indignados porque, depois de muitos — muitos mesmo — anos, a Penitenciária de Punta Peuco finalmente se tornará uma prisão comum.

Bolsonaro usou sua posição para enganar seus seguidores com retórica violenta e falsas promessas que ainda ressoam em grande parte da sociedade brasileira. Essa mesma arquitetura de engano — mentiras como método, o uso político do medo e a manipulação emocional como estratégia eleitoral — está se repetindo hoje no Chile.

Os discursos apaixonados, muitas vezes agressivos, e as falsidades disseminadas durante a campanha criam estados de espírito, corroem a confiança, confundem os cidadãos, geram dissonância cognitiva e apresentam — no final do caos — um suposto “salvador” que promete restaurar uma ordem que ele próprio ajudou a desestabilizar.

A dúvida, esse grande recurso do pensamento crítico, provoca inquietação em sociedades que buscam certezas. E essa inquietação torna-se terreno fértil para políticos e líderes religiosos que a utilizam — juntamente com o medo que ela gera — para impor narrativas que apresentam como inquestionáveis. As redes sociais, infestadas de bots e trolls, amplificam ficções disfarçadas de fatos , rapidamente legitimadas por aqueles que apenas desejam acalmar a ansiedade da dúvida. Certezas — mesmo que não sejam reais — proporcionam segurança.

Com Bolsonaro, testemunhamos os danos que esse método de governar inflige a uma nação e o perigo que representa para a democracia. Sabemos que ninguém tem acesso privilegiado à verdade, mas temos o dever — como cidadãos conscientes — de tentar nos aproximar dela. Permitir que a mentira se estabeleça como uma forma legítima de governo é abdicar de nossa responsabilidade democrática .

O que o Brasil nos mostra hoje — e o mundo observa — é que é possível verificar os fatos quando há uma disposição persistente para compará-los, examiná-los e corrigi-los. Quando uma sociedade renuncia ao pensamento crítico, quando se recusa a questionar suas próprias crenças — por mais confortáveis ​​que sejam —, abre-se caminho para que líderes como Bolsonaro cheguem ao poder. E no Chile, essa não é uma ameaça futura: estamos vivenciando-a agora .

O que está acontecendo no Brasil é importante porque confirma que as democracias fracassam não apenas por causa daqueles que as atacam violentamente, mas também por causa daqueles que se acomodam e param de questionar. Eu aplaudo o exemplo que o Brasil está nos dando.

Por: Catalina Baeza 

Fonte: ElDesconcierto.cl 27 de novembro de 2025

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