Primavera árabe em debate nos 80 anos do Senge-RJ

Da esquerda para a direita: Mário Augusto Jakobskind, Lusia Maria e Olimpio dos Santos (vice e presidente do Senge) e Carlos Latuff. Foto: Claudionor Santana.

O Sindicato dos Engenheiros do Rio de Janeiro (Senge-RJ) promoveu em seu auditório o debate a ‘Primavera árabe – a história que a mídia não contou’ na última segunda feira (12), com a participação do jornalista Mário Augusto Jakobskind e do cartunista Carlos Latuff. O evento fez parte do encerramento do ciclo de comemoração dos 80 anos do sindicato. Na ocasião também foi lançada uma revista com a história da entidade e autorizada pelos Correios a circulação nacional do selo dos 80 anos do Senge, além de comemorar o dia do engenheiro (11/12).
O livro “Líbia: barados na fronteira”, de Mário Augusto Jakobskind, também foi lançado durante as atividades. O autor explicou que uma delegação brasileira foi chamada por um ONG líbia para mostrar o que estava acontecendo no país com os bombardeios da Otan, mas no dia 15 de agosto os ataques foram intensificados e não foi possível chegar por terra ao local pois as estradas ficaram danificadas. O objetivo da delegação era enviar um relatório para o ex-secretário geral da ONU, mas todos tiveram que passar a semana na Tunísia pela falta de acesso a Trípoli, capital da Líbia.
“O Brasil foi convidado porque a partir do governo Lula adquiriu um protagonismo internacional bastante marcante e a mídia ignorava. Tivemos que mudar a pauta e conhecemos a realidade de outro país que havia passado por uma revolução da primavera árabe. Acompanhamos de lá uma cobertura da mídia muito manipulada através das agências internacionais e até da Al Jazeera. O Qatar tinha muitos interesses e mostravam imagens tentando legitimar um apoio popular que não existia, parecido com o que está ocorrendo hoje na Síria”, disse.
Como o autor já tinha grande volume de informações sobre a Líbia e foi estimulado pelo editor, acabou publicando o livro mesmo sem conseguir chegar ao local dos conflitos.
“O jornalismo aqui é deficiente e deixa a desejar. O livro também faz uma pequena análise da primavera árabe. Hoje o mundo vive a centelha de 1968: primavera árabe, Chile, nos EUA, Portugal, são muitos protestos pelo mundo. É uma retomada que o sistema tenta de todas as formas evitar que se propague. Há muita participação popular e precisamos pensar nesses movimentos de massas. Esse tipo de informação não é divulgada”, observou.
Carlos Latuff, conhecido por ser militante da causa Palestina, tem acompanhado os avanços das manifestações em todos os países da região. O artista já enviou charges para todos os países que tiveram protestos, com o propósito de os manifestantes utilizarem seus desenhos nas manifestações nas ruas. A retribuição, avalia, é a apropriação da sua arte pelo povo, que posta na internet os desenhos nos protestos, já que não tem nenhum retorno financeiro. Segundo ele, o Oriente Médio está em ebulição e o processo da Líbia está sendo selvagem devido à truculência no país.
“Se eu for para o Egito, Arábia Saudita, e outros países da região, sou preso por minhas charges. 2011 para o mundo árabe é o que foi 68 para o ocidente e isso tem muito a ver com a internet. A geração anterior recebia as informações pelos jornais, e hoje isso mudou na produção da informação. Eu, por exemplo, me informei principalmente pelo twitter”, destacou Latuff.
Carlos Latuff apresentando suas charges enviadas para os protestos árabes. Foto: Claudionor Santana.

Ele apresentou suas charges num telão e foi explicando o que está acontecendo em determinados países da região. O estopim foi na Tunísia, quando um vendedor de frutas se incendiou, e daí em diante os regimes autoritários foram caindo no entorno. Mas cada país tem sua peculiaridade e representação na geopolítica mundial. Na Líbia, por exemplo, ele defende que as pessoas foram para as ruas por conta do regime de força que assolava o país há décadas, mas a oposição se aproveitou e, apoiada pela CIA, colocou uma junta militar no poder que também vai contra os interesses da população.
“O Kadafi (presidente da Líbia morto) teve um papel revolucionário na década de 70, mas degringolou. Fez aliança até com Berlusconi. Ele foi morto pelas cobras que criou. A intervenção americana na Líbia não tinha nada a ver com direitos humanos, e sim com o petróleo. Na Síria, por sua vez, se ela cair os EUA estarão perto do Irã e no quintal da Rússia. Lá tem uma oposição que o ocidente quer apoiar com armas e dinheiro, e tem um ditador no poder contra o seu povo”, diferenciou.
O artista destaca que o governo americano não tem moral para falar de direitos humanos com nenhum país, pois seleciona suas denúncias conforme seus interesses. Ele exemplificou as violações em países aliados dos norteamericanos, como o Iêmen e o Bahrein, sede da 5ª frota americana, que não são denunciadas, além de oprimir e impedir a divulgação dos protestos em seu país, como no Occupy Wall Street.
Jakobskind fez questão de destacar que Kadafi caiu não pelos seus defeitos, mas sim pelas qualidades. Ele colocou, segundo o jornalista, uma forma de democracia no país que, se transportada ao olhar ocidental, pode ser considerada uma ditadura. Para ele, tratava se de um regime socialista árabe com características próprias.
“São mais de 140 tribos, e não é só o petróleo na região, porque este já estava encaminhando para a França e Itália. A questão é que o norte da África é quisto pelos EUA e o Kadafi resistiu”, concluiu.
Latuff, por sua vez, avaliou que se o Kadafi fazia acordos com o presidente da França, Nicolas Sarkozi, já havia abandonado o caminho da revolução há muito tempo. “Por que não derrubam o Fidel, se tem tanta gente insatisfeita? Porque a revolução cubana, com todos os seus defeitos, manteve a integridade, não teve incoerências. Kadafi deu um golpe na realeza, fez o livro verde, e mudou de lado de acordo com as circunstâncias. Virou mais uma peça no jogo de xadreza da região”, disse.
Internet e perspectivas
Latuff reforçou que a internet tem sido uma ferramenta fundamental nesse novo cenário de insatisfações no mundo, pois hoje o sujeito não precisa da intervenção da imprensa para se comunicar e pode virar protagonista da informação. Hoje qualquer cidadão pode questionar e produzir a informação, de modo que a internet não é a salvação mas se tornou um divisor de águas. E ela não retrocede, tem o poder da multiplicação, só avança num espaço de tempo muito superior ao do celular, apontou o militante.
Em relação ao futuro da primavera árabe, o caricaturista afirma que não se pode prever o que vai acontecer. Mas sem dúvida o árabe de hoje não é o mesmo de antes de janeiro, quando estourou a primeira revolução.
“Vai se falar muito sobre essa primavera árabe, e existem previsões. Aquilo é um tabuleiro de xadrez com forças imensas, mas o fato é que não se esperava o que aconteceu. Os americanos estão mexendo as peças, mas sabem que hoje não têm o ingrediente da força popular. O árabe de hoje não é o mesmo de janeiro, é o início de um processo. Não devemos superestimar nem menosprezar esse movimento”, concluiu.

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