
Desde os anos 2000 a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) promove uma mobilização global contra a pobreza e a violência. Com o púbico feminino urbano e rural organizado a partir da base a alianças com movimentos sociais, defende a autonomia das mulheres na luta pela transformação de suas vidas e a necessidade de superar o sistema capitalista, patriarcal, racista, homofóbico e destruidor do meio ambiente.
Conversamos com Nalu Faria, da Secretaria Nacional da Marcha no Brasil, durante o I Festival Internacional de Utopia, realizado na semana passada em Maricá, no Rio de Janeiro. O movimento feminista foi um dos vários segmentos que debateram alternativas ao modelo hegemônico e à crise humanitária e ambiental que vivemos em todo o mundo.
Na entrevista, a psicóloga e feminista fala sobre os retrocessos para as mulheres com o a entrada do governo interino de Michel Temer (PMDB), os embates travados com setores conservadores que querem alterar a lei Maria da Penha e a importância da democratização dos meios de comunicação para fortalecer a luta contra o patriarcalismo. Segundo ela, o capitalismo se conecta com esse modelo associando a imagem da mulher ao consumo e um padrão de beleza muito lucrativo.
Em relação à conjuntura, tivemos uma mudança de governo que inclusive extinguiu a Secretaria de Mulheres. Como está a análise de vocês sobre o momento atual?
O que houve no Brasil foi um golpe, e com ele uma ruptura da ordem democrática. O que temos é um governo não só ilegítimo, mas que está tentando exercer o governo a partir dessa ampla coalizão de direita que construiu e o tem blindado. Por mais que haja repúdio da população, ele tem o apoio da mídia, do judiciário e do Congresso. Esse golpe dado no Brasil não começou quando o Cunha aceitou o pedido de impeachment. Essa é a característica dos golpes que têm ocorrido em outros países: é longo e às vezes você tem que ficar olhando e pensando quando ele começou. No nosso caso foi quase no dia em que a campanha eleitoral foi feita e depois no não reconhecimento do resultado das eleições, então acho que a gente tem que denunciar e rechaçar esse governo.
Não tem como olhar esse governo parcialmente, basta olharmos pelos temas da saúde, educação, agrário, etc, para denunciar o que se concretiza na ação global dele. Quer destituir não só o Estado de direito, as políticas sociais com caráter mais popular e ao mesmo tempo as organizações sociais, a esquerda e sindicatos, o que eles puderem destruir. Se é um golpe, vão implementar até o fim e aumentando as restrições, a repressão, a partir do que eles necessitam. Estão atacando tudo, mas você tem questões que ficaram mais simbólicas como o fim do Ministério do Desenvolvimento Agrário: destruiu não sei quantos cargos do órgão, uma forma de desconstituir uma estrutura ainda que frágil para dar sustentação às políticas agrícolas. Destruíram o Ministério da Igualdade Racial e os Direitos Humanos, e a coisa está indo fundo. Querem chegar a Constituição de 1988, tirar os direitos trabalhistas, por isso que estamos nessa ação da mobilização da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo no sentido de “Não ao Golpe, Fora Temer!”
Estava sendo discutida a mudança na Lei Maria da Penha (PLC – Projeto de Lei da Câmara 07/2016), que trata da violência à mulher.

A Lei Maria da Penha está sofrendo ataques há muito tempo, já estava acontecendo nos temas das mulheres mas em outros também. Como a gente tem um Congresso que foi ficando cada vez mais conservador, mesmo no período do governo Lula e final do governo Dilma sempre temos muitas leis buscando retroceder conquistas. Igual no tema do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), quando avança aqui eles tentam com a Anvisa retroceder. Há muito tempo estão propondo alterações na lei Maria da Penha, mas havia uma resistência. Acontece que com esse governo mais conservador e ilegítimo, eles se apressam para aprovar esses projetos. O golpe é longo, já ocorria antes do impeachment.
Em 2015 o Congresso trabalhou e aprovou projetos muito rapidamente. No final do ano teve aquele em relação ao retrocesso no atendimento às mulheres vítimas de estupro e que engravidassem para ter direito ao aborto legal: não foi aprovado no plenário da Câmara, mas passou na Comissão de Cidadania e Justiça. Foi um projeto do Eduardo Cunha, que gerou muita mobilização. E a mesma coisa agora com a Lei Maria da Penha, eles estão apressando a votação. E esse projeto já foi votado na Câmara, e agora está no Senado.
Você falou sobre o aborto e a violência. Quais outras questões estruturais estão na pauta da Marcha?
O que alterou a vida das mulheres de fato no governo Lula e Dilma? A política de valorização do salário mínimo, que tem um impacto grande nos salários das mulheres e nas suas aposentadorias, e as políticas de transferência de renda, além de políticas vinculadas à educação como as cotas sociais e raciais. No Pronatec, por exemplo, as mulheres são mais de 50% porque por mais que elas tenham qualificação são sempre consideradas desqualificadas: têm um leque de profissões mais restrito no mercado de trabalho. Então essa coisa de buscar qualificação, ampliar o leque de possibilidades. Esse é um processo que temos vivido no Brasil há muito tempo, que as mulheres negras, mas também os homens negros, assim como os agricultores, buscam aproveitar cada possibilidade.
A questão do estudo é muito forte, muitas mulheres voltam a estudar na idade adulta depois que os filhos crescem. Num governo que estava priorizando isso tinha um impacto muito grande na vida delas. Só que todas essas questões estão correndo risco, principalmente o tema do salário mínimo assim como o do crédito na agricultura, que foi uma inovação para a mulher no meio rural. Apesar de restrito e pouco, a parte da comercialização do PAA e PNAE terá um impacto muito grande na vida das mulheres. Mesmo com políticas insuficientes no governo Lula e Dilma, a gente tinha diminuído a migração das mulheres no campo e aumentado suas rendas. Todas são questões que corremos muito risco e com certeza vai retroceder.
Você disse que foi um golpe também midiático, como é a discussão entre as mulheres sobre os meios de comunicação?
Tem várias questões, até no movimento de mulheres tem posições diferentes em relação à mídia e outros setores. Tem a ideia da democratização, da representação, mas nós da MMM temos uma visão muito mais crítica em relação aos meios de comunicação oligopolizados e como a gente precisa de outra forma de comunicação. Precisamos de uma democratização profunda dos meios de comunicação, mas também um embate ideológico que altere a orientação e a forma como se estruturam estes meios. Nós dos movimentos temos que produzir a nossa comunicação também, não podemos ficar só dependendo da comunicação feita pelas empresas. Temos de ser capazes de gerar a notícia e circular essa informação, inclusive quando conseguimos fazer isso acabamos pautando alguns meios tradicionais. Então isso é muito importante, e já estamos fazendo no Brasil em vários movimentos, inclusive na América Latina, de gerar coalizações nos nossos instrumentos de comunicação para termos capacidade de atuar, produzir e disseminar em rede mais informações.
Quanto à representação na mídia, existem muitas críticas em relação à exploração da imagem da mulher associada ao consumo. Como é essa questão cultural?
Questionamos por que tem de prender e enquadrar as mulheres num padrão de beleza, que queremos ampliá-lo. Por que é para elas que fica essa preocupação do físico ser agradável, do corpo ser retocado? Sempre o pensamento liberal vai dizer que já tem homem que se preocupa também, que se depila quando fazemos a crítica à depilação… Mas é sempre aquela exceção que confirma a regra, porque no cotidiano da maioria dos homens quanto eles gastam de pensamento com a sua estética, como o seu cabelo está ou não? É muito menos que as mulheres, porque essa cobrança social é feita para elas. O homem não precisa estar bonito para ser respeitado, enquanto elas estão sempre sendo cobradas para ser bonitas dentro de um padrão.
Isso teria a ver com o capitalismo de uma forma mais ampla?
É muito a confluência do capitalismo e do patriarcado, porque essa ideia de mulheres bonitas e agradáveis é muito patriarcal. Por que é para agradar os homens, enquanto o capitalismo se utiliza disso criando a indústria da beleza. Quando o capitalismo diz para as mulheres que elas têm de consumir cosméticos, têm de ser eternamente jovens e magras, é pensando que é essa forma que agrada aos homens. Claro que reforçando um modelo de sexualidade heterossexual, e trabalhando sempre com uma ideia de insatisfação nas mulheres e de um sentimento de inadequação. Como se o corpo da mulher precisa ser retocado, e o capitalismo investe muito nisso. Basta olhar as propagandas de cirurgia plástica, de ginástica, de botox. Claro que alguns homens usam botox, mas quem usa em massa são as mulheres porque tem essa cobrança e imposição. É um dos temas onde vemos muito essa conexão entre capitalismo e patriarcado. Mas vemos isso também no trabalho: as mulheres são mantidas como as que ganham menos na sociedade, porque isso justifica a continuação também do trabalho doméstico. Existe um imaginário da sociedade, e isso é um dos elementos que faz com que elas aceitem trabalhar mais em casa.
