Povos do cerrado fazem marcha até o Congresso e apresentam reivindicações para o Governo

Grito do Cerrado em direção ao Congresso Nacional. Fotos: Eduardo Sá.

Brasília – Cerca de 300 pessoas marcharam na tarde de ontem (13) da Catedral de Brasília ao Congresso Nacional, antes de uma audiência realizada para despertar no poder público a importância do Cerrado brasileiro e entregar as reivindicações das organizações. A manifestação ocorreu durante o VII Encontro dos Povos do Cerrado, que vai até o próximo domingo e conta com a participação de vários movimentos do bioma. O Grito do Cerrado, nome dado ao protesto, também foi marcado pela tradicional corrida das toras realizada entre os povos indígenas canela e krahô.
O auditório do Senado ficou quase lotado, e participaram da mesa diversos representantes do governo e lideranças de organizações. Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), presidente da Comissão de Meio Ambiente no Senado, mediou as exposições. O senador ressaltou a falta de mecanismos para garantir a preservação do cerrado, apresentando a demarcação de terras indígenas como solução para os altos índices de desmatamento, e deu destaque à sua riqueza natural. “O cerrado é uma das regiões mais importantes do planeta, é uma questão de inteligência o compromisso com a sua biodiversidade. É preciso garantir os benefícios para todo o seu povo, e preservar principalmente a água e sua diversidade cultural”, afirmou.
ato congressoBraulino Caetano, coordenador da Rede Cerrado, apresentou as reivindicações dos movimentos, com destaque à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 51/03, conhecida como “PEC da Caatinga e do Cerrado”, em busca da garantia de reservas de uso sustentável da biodiversidade pelos povos tradicionais. “Queremos que o cerrado vire patrimônio da União. Só assim atingiremos a sustentabilidade, pois as empresas são muito poderosas. A PEC está no Congresso, só que a bancada ruralista trava há 6 anos. Saiu da gaveta, mas só deve ser votada depois do Código Florestal”, destacou.
É urgente a legalização, titulação e demarcação das áreas indígenas e quilombolas, assim como os territórios de populações extrativistas, segundo Maria Alice, representante das quebradeiras de coco babaçu no Maranhão. Para ela, é um absurdo ver milhares de pessoas sendo despejadas e outros acampadas à beira das estradas num país com tanta terra. “Muita coisa que a gente não consegue na lei temos que fazer na marra. Queremos voltar aqui e elogiar os projetos que estão sendo votados. Viemos reivindicar nossos direitos, quem não tem terra não é nada. O agronegócio tem nos deixado morte e conflitos, e não tem nos alimentado. Muitas vezes tiram 300 famílias para um negócio atender o estrangeiro, porque, por exemplo, nós não comemos soja e tem mais 400 mil hectares. Quem precisa produzir e preservar a terra é excluído dela”, criticou.
O presidente da Embrapa, Pedro Arraes, reforçou que o cerrado tem uma riqueza muito grande e ajudou muito o Brasil nos últimos anos. No entanto, Arraes observa que nossas explorações têm deixado feridas na natureza alertando para a necessidade de mudanças. “Precisamos fazer com que a exploração seja mais sustentável e em harmonia com a natureza, com o conhecimento dos povos e da nova ciência conjuntamente. A Embrapa vai continuar sendo um braço tecnológico na agricultura e escutando as demandas para ajudar nas soluções para uma renda e condição de vida melhores”, disse.
audiencia finalO senador Jorge Viana (PT-AC) parabenizou o evento, pois cria uma sinergia para ganhar espaço no Congresso e sensibilizar mais a sociedade, assim como foi na Amazônia. “Essa região cerca o poder da república, que não enxerga. Temos desafios muito bonitos nesse século, mas muitas das ideias são velhas. É preciso botar o pé no século 21 e adotar essa região como estratégica”, afirmou o senador.
Tradicionalmente o governo fala e vai embora, criticou uma liderança indígena Xavante, em referência ao presidente da Embrapa e o Secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, que foram embora depois de suas falas. “Ficamos falando para nós mesmos. Cada dia que passa a cultura indígena e seu conhecimento está morrendo, o governo desse país está promovendo um etnocídio e genocídio. É importante a preservação do cerrado para que as culturas sobrevivam, e só falam do econômico. É importante também ter mais pesquisa, mas que chegue aos povos tradicionais. É tanta burocracia que não damos conta de tantos processos”, afirmou.
(*) Matéria reproduzida da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

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