Políticas de picadeiro

No último domingo (17/2), o jornalista Elio Gaspari reservou o principal espaço de sua coluna a um texto no qual critica a marquetagem política no Brasil. Intitulado “governos espetaculares fazem espetáculos”, o artigo parte de um filme de um minuto que louva as ações que o governo federal tem implementado para enfrentar a seca no Nordeste – embora muitos sertanejos estejam, hoje, sem o abastecimento de carros-pipa –, e fecha com o caso do Hospital Regional Euclides Ferreira Gomes, em Sobral, no Ceará, que, apesar de inaugurado em janeiro, só está funcionando como posto de saúde.

O que o autor procura mostrar é que, mais do que levar a água aos nordestinos, ou garantir a operação plena de um empreendimento que recebeu recursos públicos, o que parece realmente importar aos governantes é a midiatização e a repercussão dos investimentos, seja na forma de vinhetas publicitárias ou por meio de cerimônias de inauguração suntuosas, como foi o caso do hospital cearense, que contou com um show da cantora Ivete Sangalo, ao custo de R$ 650 mil.

Pois eis que nesta segunda-feira (18/2), dia seguinte à publicação da coluna de Gaspari, a imprensa brasileira noticia que a fachada do referido hospital desabou, o que, inevitavelmente, levanta suspeitas de que a obra sequer foi bem planejada (quanto mais adequadamente executada) e, possivelmente, envolveu superfaturamento de materiais de construção, etc. Afinal, pela lógica do espetáculo, o que vale é a representação, de modo que um hospital cenográfico já é o bastante – se bater um vento, é só levantar para manter a imagem.

Essa história – apenas uma entre tantas outras de enredo quase idêntico que ocorrem todos os anos no Brasil (já houve casos de prefeitos e vereadores fazendo festa para inaugurar um orelhão) -, parece confirmar um fenômeno que alguns intelectuais, com destaque para o francês Gui Debord, já identificavam na segunda metade do século 20: o processo de espetacularização da vida social.

Na primeira das 221 teses de seu livro “A Sociedade do Espetáculo”, Debord diz: “Toda vida das sociedades modernas nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como um enorme acumulado de espetáculos“. Trata-se de uma paráfrase da abertura do célebre “O capital”, de Karl Marx, no qual, em lugar de “espetáculos”, encontrava-se o termo “mercadorias”.

A troca se deveu a transformações sociais, econômicas e culturais ocorridas no intervalo entre uma obra e outra, e à percepção de que era na supressão do mundo concreto pela força do entretenimento que residia a maior ameaça à sociedade, e não necessariamente na questão da luta de classes.

Pode até ser exagerado culpar a indústria do entretenimento pelas mazelas do mundo – e seria, talvez, impróprio afirmar que foi isso que Debord quis dizer –, mas, sem dúvida, a lógica do espetáculo, da forma como é explorada por políticos no Brasil e mundo afora, é extremamente prejudicial ao bem estar de uma sociedade.

Claramente utilizado como ferramenta de alienação, o espetáculo tapa o sol com peneiras de ouro e varre a poeira para baixo de tapetes persas, auxiliando aqueles que deveriam prestar serviços de verdade ao país a manter-se no poder por meio de ações populistas e assistencialistas. Com tanta maquiagem, a vida real fica em segundo plano, ofuscada por caixas de som, câmeras e discursos retóricos. Resta, assim, somente o artificial, que, como se sabe, não alimenta, cura ou educa ninguém.

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