Politicamente libertários

A idéia de “correção política” empobreceu os debates recentes sobre episódios de conteúdo discriminatório na mídia eletrônica. Apesar das suas históricas fragilidades, o conceito serviu de referência para marcar posições opostas na polêmica e fomentou a ideologização do antagonismo resultante. Aproveitando a velha antipatia da esquerda pelo mundo das celebridades, os analistas mais radicais lançaram-se contra supostos ícones da grosseria conservadora, misturando publicidade, novela, humorismo e noticiário como se a radiodifusão os reduzisse à mesma essência monstruosa. Sob avalanches de insultos, desabafos e proselitismos sectários, houve quem sugerisse bases doutrinárias para a vigilância da manifestação criativa.
Entendo que a cartilha “politicamente correta” seja sistematizada para adequar-se às finalidades pedagógicas da moda, incorporando a natureza maniqueísta de todo código normativo. E é fácil vigiar condutas e vocabulários alheios enquanto zelamos por certos princípios universais de cidadania, especialmente nos contextos acadêmico, escolar, informativo, governamental, jurídico ou publicitário. Mas o procedimento ganha outro sentido ao tornar-se dogmático, assimilando critérios discutíveis e esparramando-os sobre domínios constitucionalmente protegidos de tutelas.
Quando cito exemplos de obras “incorretas” para ilustrar a ameaça do precedente censório, respondem-me que veículos de concessão pública devem sofrer ingerência externa e que ela não implica o cerceamento da atividade artística. Ninguém parece lembrar que a televisão e o rádio abarcam também cinema, literatura, música, teatro e artes plásticas, expressões que dificilmente carregam significados objetivos, unívocos e incontroversos. Tampouco são absolutas as propriedades que legitimam os fenômenos culturais: o menosprezo ao humorismo anedótico repete aquele dirigido outrora ao happening, à instalação, ao rap, ao documentário, à animação, etc.
As concessões não podem ficar permeáveis a qualquer tipo de interferência. Em vez de cumprir papel educativo na divulgação de autores e estéticas relevantes, a televisão e o rádio correm o risco de assimilar a mediocridade asséptica do “bom gosto”, da “elegância”, do “progressismo” e de outras qualidades transcendentes, adaptáveis aos humores de indivíduos, grupos ou governos. Aliás, ditadores sempre alegam “valores éticos e sociais” para destruir criações indesejáveis.
Talvez porque se ressintam da falta de consenso geral sobre tais valores, alguns comentaristas recorrem a seus dramas pessoais para brandir uma espécie de sabedoria imanente acerca dos “limites” que devemos observar. Evito responder no mesmo tom apelativo (questionando se também há limites para o uso demagógico do sofrimento) e proponho um exercício mais leve: encontrem dez comédias cinematográficas que não ironizam religião, aparência, gênero, condição social, etnia ou sexualidade, nem vítimas de preconceito, violência, acidente, doença ou quaisquer dissabores que o riso possa desrespeitar. Depois nomeiem dez humoristas que jamais tenham recorrido a eles. E ouçam José Simão, Laerte e Chico Anysio sobre o assunto.
A tão desejada regulamentação da mídia explica a predominância dos apelos intervencionistas, mas ela jamais terá o decisivo apoio da sociedade se invadir as esferas da opinião, do entretenimento e da fantasia. Criar uma base realista de critérios para separá-los da propaganda enganosa, da manipulação jornalística, do crime eleitoral e da própria apologia discriminatória não é tarefa simples ou rápida, nem deveria ser. Ávidos por acelerar o processo (ou para controlá-lo), os afoitos agarram falsas oportunidades como se recebessem chamados insurgentes, atropelando os articuladores que buscam opções sensatas e viáveis para um desafio de tamanha envergadura. Os adversários da nova lei exultam quando a idéia atola no pântano das bravatas morais.
Por isso ouso deixar esta humilde sugestão à militância virtual: afaste-se dos buldogues. Eles odeiam suas agendas inclusivas. Protegidos pela retórica intransigente e hostil, querem apenas inviabilizar o diálogo e sufocá-lo com um udenismo às avessas pseudo-revolucionário, obsoleto e provinciano. Os hidrófobos políticos expõem a face totalitária dessa utopia cultural limpa de conflitos e provocações, onde só vemos e ouvimos o que nos agrada, onde as mediações intelectuais baseiam-se na culpa, na hipocrisia e no policiamento. O “fundamentalismo do bem” é inimigo da alteridade.
A liberdade de expressão não possui caráter utilitarista, nem existe para ocupar vácuos de outras prerrogativas soberanas. A democracia jamais precisará submeter-se a imperativos lingüísticos para conciliar polidez e ironia, respeito pelo próximo e espírito iconoclasta. Combatamos intolerantes e insensatos sem perder a tolerância e a sensatez que nos diferenciam deles. Sejamos capazes de encontrar alternativas libertárias à falaciosa polaridade entre os imbecis preconceituosos e a cavalaria civilizatória que tenta silenciá-los.
(*) Guilherme Scalzilli é historiador e escritor. Blog: http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com/. Texto publicado originalmente no Amálgama.

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