Hoje estive em Pitimbu, em casa de uns parentes, e tive uma experiência interessante. Em um certo momento, vi o mar e me dei conta que já não era mais “o mar” abstrato, genérico, como me acostumara a ver o mar. Agora, era algo meu, algo que eu mesmo tinha posto aí. Para que os leitores e leitoras saibam o que estou dizendo, devo lembrar que, dias atrás, escrevi numa destas postagens, o que vira uma manhã de manhã, ao ver o mar em Cabo Branco. O mar daquela vez, fora como que uma gravura, algo fixo e em movimento, que me dizia coisas, falava numa linguagem espacial, com ondas. Desta vez, em Pitimbu, era esse mesmo mar, o mar desenhado como em três dimensões, como num gravado. Não era mais o mar anônimo, genérico, abstrato, de antigamente: era meu mar.
Me dei conta, então, de que a gente vai criando o nosso próprio mundo. Eu vou criando meu mar. Via a linha do horizonte aquático, entrecortada com as choupanas construídas na praia, via os barcos balançando ou quase imóveis, e o mar, o meu mar, o mar em três dimensões, um mar feito por mim e para mim, lá, no mesmo lugar em que antes estivera o mar estranho, o mar alheio. Agora era o meu mar. O poeta se apropria do mundo, do seu modo. O olhar poético nos empossa da realidade, desfazendo a ilusão do alheamento. A realidade vem para dentro. Na volta, vindo de carro, via as colinas verdes, os caminhos desenhados nas encostas, os arbustos e árvores compondo a passagem de regresso para João Pessoa, e notava que isso tudo, as colinas, o verde, as árvores, o caminho nas encostas, estava dentro de mim.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
