Como se viu o Papa Francisco veio ao Brasil, ao Rio de Janeiro. Impossível não ter percebido. Seus gestos, falas e entrevistas foram transmitidas insistentemente pelas telas, pelas mídias. Agora, entre uma vista e outra na tevê percebeu-se o inverno no Rio de Janeiro. Não é muito extenso, mas, às vezes, vem com força. Também, traz promessa de que após as chuvas e ventos frios se chegará à primavera. Pela geografia, se sabe o inverno tem tempo chuvoso e frio preparando a primavera: tempo dos jardins, das flores.
Com se disse, o carismático Francisco de Roma aqui pisou. De verdade não veio ao país com “ouro e prata” e “bateu as portas do nosso coração” (mais ou menos como disse). Pena que ainda tem os parâmetros e se deita sobre os auspícios da estrutura romana. Quisera ser como um Pedro, ‘criado’ nos solos da América do Sul: que ao invés da Mitra (chapéu do Bispo) usa chapéu de bóia-fria, que ao invés do cajado pastoral luta com enxada para ajudar seus irmãos e irmãs na lida, ao invés do anel do bispado carrega um anel de tucum. Tudo que ganhou foi preparado por pessoas simples. Sim, ele existe. Leva seu bispado emérito, em Prelazia do Araguaia. Não frequenta castelos medievais do estado religioso do Vaticano. Mas, vive numa casa acolhedora e simples no meio do Alto Araguaia. Um casebre no tempo das portas e janelas abertas. Esse, ‘nosso’ Pedro, mais parece com a tradição cristã dos sujos e fétidos discípulos do Nazareno do que o carismático que se fez Francisco, de Roma.
O mais engraçado foi que noticiou nas mídias, que o Francisco de Roma pediu um livro do Leonardo Boff. Quer conhecer seus escritos. A fala pareceu um pouco desalentadora. Lembro dos bancos e estudos de teologia que ocupo a semana e pergunto: será possível algum religioso católico e/ou protestante de boa formação (jesuítica) não ter tido acesso a obra de Leonardo Boff? Ainda mais, alguém que está desde 1992 nos altos cargos de Roma? Na verdade, Leonardo Boff é o acadêmico brasileiro mais lido no Mundo. Então, por isso, tenho um pedido para o Leonardo Boff (se algum dia vier a lê essas poucas e toscas palavras). Que ele não envie um ou uns, mas todos (ou, grande parte) de seus livros, artigos e produção geral – como fez quando passou pelo processo seletivo da universidade pública. Faço voto de que ele inunde o castelo, as casas, e barricadas de Roma com sua literatura apócrifa! Subverta a inerte Idade Média. Quem sabe assim ajude os seus habitantes a largar todas suas riquezas dos bancos e da política religiosa. E, entronize de vez, o bispo do Brasil e do Mundo, dom Pedro Casaldáliga.
De fato, o desejo é de que o atual Pedro de Roma consiga colocar nos trilhos o trem romano de vagões cheios de ouro e prata. Fisicamente, para se colocar no lugar tem que se retirar toda carga diminuindo o peso dos vagões, para que se alinha aos trilhos e se ande sobrando espaços para pessoas no trem romano. Daí, alguns podem perguntar: Esperança? Utopia? Que seja. Deve ser por que aqui no Rio começa a sair timidamente o Sol anunciando a possibilidade da primavera.
Fontes:
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/07/17/protestos-contra-a-vinda-do-papa-pedro-expoem-brasil-profundo/;
http://leonardoboff.wordpress.com/2013/07/29/el-papa-de-la-libertad-de-espiritu-y-de-la-razon-cordial/;
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=6211;
http://www.brasildefato.com.br/node/15381.
(*) Fábio Py de Almeida é teólogo, historiador e doutorando em Teologia pela PUC-RJ. Articulador do blog: fabiopymurtadealmeida.blogspot.com
