“Para reformar a Igreja, as mulheres têm que se reformar.” Anotações de uma conferência proferida pela Teóloga Serena Noceti

A Igreja Católica, no Brasil, vem dedicando o ano de 2018 como “O ano do Laicato”.

Não obstante tal iniciativa, são ainda raras as atividades dos Leigos e das Leigas, no sentido de responderem a este desafio, de modo mais convincente. Sem prejuízo de outras iniciativas previstas para esse ano, mas, ao contrário, buscando reforçar-las, ocorre-me oportuno chamar a atenção especialmente das Leigas, para a profundidade e a atualidade de uma reflexão proposta pela teóloga Serena Noceti, sobre a condição feminina na atualidade, apontando desafios e perspectivas.

Não tendo tempo para uma tradução, pensando em quem não lê o Italiano, houve por bem fornecer um resumo da referida conferência, integralmente acessível pelo link:   https://www.youtube.com/watch?v=D_QnV56JbEE

Seguem, abaixo, os principais pontos que pude recolher da palestra, a quem interessar possam

–Serena Noceti parte de uma afirmação de Teresa d´Ávila, feita há 500 anos, de que tempos virão em que já não mais se rejeitarão argumentos pelo simples fato de procederem de mulheres. A conferencista toma tal afirmação como uma profecia, mesmo reconhecendo que ainda resta uma longa estrada a percorrer, nessa direção.

–Ela foca tal processo, desde o Concílio Vaticano II. Por iniciativa do Cardeal Suenens, com a autorização do Papa Paulo VI, vinte e três mulheres (religiosas e leigas), a partir da segunda sessão do Vaticano II, foram convidadas, COMO OUVINTES, a assistir aos debates, sobretudo nos bastidores (não podiam participar das aulas conciliares). Não obstante esta presença “silenciosa e simbólica”, esta fato marca uma certa cisão, ao interno da Igreja Católica, quanto ao modo de lidar com as mulheres.

–Nos dezesseis documentos do Concílio Vaticano II, encontram-se apenas nove “brevíssimos” trechos concernentes, de algum modo, às mulheres.

–Um desses documentos, intitulado “Apostolicam Actuositatem”, trata especificamente, não das mulheres, mas dos leigos e leigas.

–Dentre os brevíssimos trechos constantes dos documentos conciliares, a teóloga faz menção a uma passagem no Documento Apostolicam Actuositatem, sem no entanto, uma referência enfática acerca das mulheres, mas acerca dos leigos, em geral. Enquanto isto, há na “Gaudium et Spes”, n. 29 e n. 60, boas referências, como a do n. 29, em que se reprova o sexismo, reconhecendo como atitude contrária ao Projeto de Deus.

–Os temas concernentes às mulheres, além de tímidos, brotavam num contexto dominantemente androcêntrico. Dentre eles falava-se em contracepção, na contribuição das mulheres ao processo do anúncio da Palavra, das religiosas (neste caso, mais como componentes do segmento da vida religiosa feminina e masculina, mais do que algo especificamente dirigido à vida religiosa feminina, a não ser para assinalar elementos externos, tais como vida em clausura, hábito, véu… Não se concentra,por exemplo, num tema relevante como o da ministerialidade feminina…

–O contexto do Concílio é um primeiro passo, que, no período pós-conciliar, vai suscitar uma consciência e um compromisso crescentes, no sentido de uma justa inserção das mulheres, em busca de um justo reconhecimento de sua condição de sujeito, ao interno da Igreja.

–Para tanto, foi muito importante que as mulheres fizessem crescente apelo a categorias consagradas no Concílio, tais como “Povo de Deus”, a condição de Batizados que a todos acolhe como iguais, inclusive a condição de mulheres em sua condição de sujeitos eclesiais.

–Reconhece, todavia, que isto apenas inaugura um novo tempo, mas ainda caminhando aos trancos e barrancos, com altos e baixos, com avanços e contradições…

–A partir das categorias-chave legadas pelo Vaticano II (“Povo de Deus”, reconhecimento da condição de sujeito eclesial de todos os Batizados…), trata, a seguir, de identificar passos de protagonismo das mulheres, em busca do reconhecimento efetivo de sua condição de sujeitos eclesiais, ao lado dos homens), sobretudo nos processos decisórios.

–Lembra um “crescendum” de avanços conquistados pelas mulheres, principalmente graças às suas iniciativas de priorizar sua formação (também) teológica e em outros aspectos tais como: investimento na pesquisa em vários campos, conscientes de que os saberes não são “neutros”, mas refletem aspectos identitários dos ou das que os produzem, nos diversos campos de saberes, também na pesquisa bíblica, no plano pastoral, no plano litúrgico.

–No plano da pesquisa teológica, lembra a posição de mulheres católicas, ao tempo do Papa João XXIII, antes mesmo do início do Concílio, de clamar pelo reconhecimento de sua condição de sujeitos, por exemplo, clamando pelo direito ao reconhecimento eclesial de sua vocação ao ministério ordenado (daquelas que se sentem chamadas a tal ministério).

–Este processo de formação requerido deve incluir, além de categorias teológicas e eclesiológicas, também outras pertinentes a outros saberes, a exemplo da Antropologia. Para se reivindicar, de forma eficaz, o reconhecimento da condição de sujeitos eclesiais, as mulheres precisam tomar consciência e atitude em relação a sua condição de ser humano pleno de direitos, tal como se dá em relação aos homens. Elas precisam levar a sério sua palavra, palavra de mulher, e convencer o conjunto da Igreja de que esta não atenderá ao projeto de Deus, enquanto não reconhecer a paridade de direitos entre mulheres e varões.

–Em conclusão, sustenta a urgência de que as mulheres assumam suas responsabilidades eclesiais, começando por levarem a sério sua formação: reformar as mulheres para reformarem a Igreja.

João Pessoa, 4 de Abril de 2018.

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