Para além da cultura da re-ação, em busca de superação dos impasses, desde suas raízes

Nas linhas que seguem, não nos move outro propósito senão o de seguir tentando contribuir com os esforços envidados por distintos sujeitos sociais, de superação dos atuais impasses, desde uma perspectiva bem clara: a busca de irmos construindo um novo modo de produção, um novo modo de consumo, um novo modo de gestão de sociedade, em relação amorosa com o Planeta e com toda a comunidade dos viventes.

Isto nos afasta, de partida, de falsas expectativas de enfrentar os atuais desafios por varejo, expressão da cultura reacionista (reagir a cada ataque, por varejo, sem atenção às interconexões entre as partes e das partes com o todo). Estamos, quanto a isto, convencidos, como assinala a célebre personagem José Dolores, do filme “Queimada”, de que “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir.”

Pense-se, por exemplo, num tipo de estrago, profundamente arrasador, quase completamente esquecido das análises de realidade que vêm circulando. Refiro-me ao ENORME PREUJUÍZO SOCIAL que se tem constituído numa profunda sangria social: a sucessão de escândalos diários praticados pelos sujeitos encarregados, em tese, de defender e promover o Bem Comum. Quem será capaz de calcular as perdas gigantescas (de tempo, de recursos, de energia criativa, etc.), decorrentes dessa sucessão de gravíssimos escândalos relativos a autoridades encarregadas de gerir o Bem Comum, obrigando os distintos agentes públicos a se ocuparem, não em defender e promover o Bem Comum, mas, ao contrário, em pilhar as riquezas nacionais? Devastadores são os efeitos desta realidade: em vez de estarmos consagrando o melhor de nós em criar condições de fazer prevalecer o PÚBLICO, eis que gastamos nossas energias em apurar, denunciar, julgar e punir (?) desmandos infindos… Mas, não é disso que tratam as linhas que seguem. Junto com tanta gente, espalhada pelo mundo afora, prefiro priorizar a ousadia de ensaiar passos alternativos à barbárie deste “sistema totalitário mercantilista”.

Feliz quem – enquanto pessoa e enquanto sujeito coletivo, sempre atentos aos múltiplos sinais que a vida nos oferece – não cessa de buscar ensaiar passos para ir corrigindo distorções de todo tipo e aprimorando, desde o chão do dia-a-dia, seu processo de humanização, bem como feliz é quem não cessa de buscar saídas para os impasses presentes sobrevindos ao país.
E nesse caminho, há de se manter, ainda quando – ou principalmente quando – sejam escassos os sinais de superação, ou ainda quando tentativas feitas resultem eventualmente frustradas. Só não dá para nos omitirmos, nem cruzar os braços. Só àqueles que ousam buscar corresponde mais legitimamente o direito de encontrar: “Quem procura, encontra.”

Por outro lado, há de se buscar estabelecer critérios consistentes de busca, procurando “apostar no que dá certo”, já que infelizmente também há quem prefira seguir teimando em apostar no que já deu sobejas provas de fracasso… No sentido de buscar “apostar no qu dá certo” (“A árvore se conhece pelos frutos”), tem-se mostrado eficaz o exercício contínuo do discernimento expresso, por exemplo, no conhecido alerta paulino – “Examinem tudo, e fiquem com o que é bom” (1 Ts 5, 21: “Omnia probate, bonum tenete” ou, no original grego transliterado: “Panta dokimateze, tò kalón katechéte”).

Observando em volta de nós – desde nossa micro-experiências exitosas e também ousando ir mais longe -, encontramos sinais alvissareiros do acerto ou da fecundidade dessas buscas. Trata-se de micro-experiências promissoras, ainda que moleculares. Ilustremos aqui com a alusão a algumas delas, mais precisamente detendo-nos em duas delas: a experiência do “Buen Vivir”, que nos vem dos povos originários dos Andes e a experiência vivida pelo povo de um país minúsculo, o Butão, localizado entre a China e a Índia. De cada uma dessas experiências, recomendo alguns vídeos, abaixo mencionados. Atentos, de antemão, para a necessidade de analisá-las, não como receitas, mas como possibilidades experimentadas num determinado contexto histórico-cultural, com o objetivo de nos inspirarmos nos seus princípios norteadores, sem cairmos na armadilha de “imitar” ou tentar reproduzir acriticamente…

1. Em que consiste a experiência do “Buen Vvivir”?

Desde tempos imememoriais, através de sua peregrinação multissecular, a humanidade, por meio dos povos originários, nos vem legando densas lições de vida, ensinando-nos a ler e a tomar a sério os sinais que a vida nos oferce, inclusive por meio da Mãe-Terra, da qual se sente parte. Seu legado nos tem ensinado a lidar adequadamente com o chamado paradigma indiciário: saber ler e extrair lições dos sinais dos tempos.

Ao (re)visitarmos vídeos tais como os seguintes, acerca das eexperiências compartilhadas do “Buen Vivir”:
https://www.youtube.com/watch?v=–HNBD4xJZ4
https://www.youtube.com/watch?v=oXVRsC6yONk

vamos percebendo algumas de suas principais marcas:
– profundo sentimento de pertença, de respeito, de gratidão, em relação amorosa com a mesma Casa Comum – a Mãe Natureza;
– organização comunitária fundada e alimentada no Bem Comum, não apenas dos Humanos, mas também de toda a comunidade dos viventes;
– produção, não para a acumulação individual, não para o consumismo, mas para uma vida feliz de todos os viventes;
– gestão coletiva/comunitária dos bens comuns;
– uso comum da terra, das águas, das florestas, dos bens da Mãe-Natureza;
– exercício da partilha dos bens, dos serviços, dos trabalhos;
– cultura de festa e celebração da vida de todos.

2. Breves notas sobre a experiência organizativa do Butão, fundada no chamado índice de “Felicidade Interna Bruta”

O Butão é um minúsculo país situado entre a China e a Índia, na região do Himalaia, em região pouco acessível, o que explica, em parte, as condições que permitiram àquele povo manter sua identidade cultural com mais afinco. Mas, o que torna tão singular e conhecido esse povo é seu modo de vida e de organização social, fiel aos seus valores culturais fortemente preservados, relativamente distantes da cultura ocidental, ainda que certos hábitos ocidentais – em especial, no mundo da tecnologia – já sejam acolhidos.

O que aqui nos interessa focalizar é sua experiência organizativa conhecida pelo seu famoso índice “Felicidade Interna Bruta”, em alusão e contraponto ao “Produto Interno Bruto”. Diferentemente deste, os Butaneses preferem mensurar sua riqueza pelo critério da qualidade de vida de sua gente, razão por que os índices de mensuração se afastam significativamente dos que calculam o PIB. Ao contrário deste, o FIB (Felicidade Interna Bruta) baseia-se em quatro pilares: desenvolvimento sócio-econômico sustentável e equitativo; conservação do Meio Ambiente; Preservação e Promoção da Cultura; Promoção de uma boa Governança.

cf. http://bodisatva.com.br/o-que-significa-felicidade-interna-bruta-fib-2/

Tais princípios axiais são periodicamente postos à prova, por meio de uma abordagem à população, baseada em nove critérios destinados a sondar a situação concreta dos Butaneses. São os seguintes:
– Bem-estar psicológico, critério com o qual se cuida de avaliar o grau de satisfação pessoal dos seus membros;
– Avaliação da saúde da população, feita com base nos resultados concretos das políticas de saúde adotadas, com critérios avaliativos e auto-avaliativos, envolvendo nutrição, exercício, qualidade do sono, entre outros elementos;
– Avaliação do uso do tempo, nas diferentes atividades do dia-a-dia: tempo de lazer, tempo em família, tempo educacional, tempo no trânsito, tempo no trabalho, etc.
– Avaliação da vitalidade comunitária – Aqui se trata de examinar o sentimento de pertencimento comunitário, a qualidade do relacionamento em comunidade, disponibilidade, disposição de servir, etc.
– Avaliação da Educação (formal e não-formal), implicando grau de envolvimento na educação dos filhos, cuidado com a educação ambiental, cuidado com o desenvolvimento de habilidades, etc.
– Avaliação da participação cultural – Interessa saber como se dá a participação na cultura do seu povo, incentivo ao despertar e exercício dos valores artísticos, cuidado com o desenvolvimento do respeito à diversidade étnica, religiosa, de gênero…

– Avaliação do cuidado com o Meio Ambiente – Foca a capacidade de percepção dos cidadãos e das cidadãs, no que tange a qualidade da água, do ar, do solo, da biodiversidade, acesso a áreas verdes, sistema de coleta de lixo, etc.
– Avaliação da Governança – Trata-se de saber dos cidadãos e das cidadãs sobre como apreciam as diversas instâncias do governo, a mídia, o sistema eleitoral, a segurança pública, segundo critérios de responsabilidade, de honestidade, transparência, além do grau de envolvimento e oarticipação dos cidadãos e cidadãs nos processos políticos.
– Avaliação do padrão de vida – Aqui se tomam em consideração elementos avaliativos tais como renda individual e familiar, segurança financeira, capacidade de endividamento, qualidade da moradia…
(Dados colhidos no “link”:
http://www.felicidadeinternabruta.org.br/sobre.html

3. Buscando extrair lições para nós dessas experiências

Reiterando o já dito, aqui não se tem o propósito de sugerir reeditar ou importar experiências societais bem sucedidas alhures. Cada povo tem características próprias: geográficas, econômicas, históricas, políticas, culturais, a que devem corresponder suas iniciativas de organização, de formação e de lutas sociais. Trata-se, sim, de conhecer suas distintas formas de organização, com o propósito de examinar como se deram sua evolução, suas conquistas, bem como em que valores e critérios se inspiraram, como possibilidades de inspiração, no que couber, a outros povos.

Nesse sentido, após examinarmos brevemente esses dois casos, cumpre extrair – e agora pensando em nossa sociedade – alguns traços que eventualmente nos sirvam de lição, para enfrentarmos e superarmos os impasses atuais que nos cercam. Destaquemos alguns desses traços:
– ambas as experiências apresentam modos próprios de produção, de consumo e de gestão societal que se afastam consideravelmente dos padrões capitalistas ocidentais.

Quanto ao modo de produção, não se baseiam na propriedade individual dos meios de produção, nem se submetem à lógica do mercado capitalista, que tem no lucro, na concorrência, na competição, o foco central de sua motivação. Isto lhes permite produzir, não o que é bom para o mercado (as transnacionais, as grandes empresas, o latifúndio, etc., mas o que é vital para o conjunto de seus membros. Igualmente, afastam-se substancialmente da lógica capitalista, à medida que seu paradigma de produção se subordina à convivência amorosa com a Mãe-Natureza, tratando-a, não como coisa ou propriedade fonte de exploração infinita, mas como bem a ser preservado e cuidado, tomando em consideração as necessidades e os interesses do conjunto dos viventes. Mais: têm critérios próprios par escolher o quê, como, para que, para quem produzir.

Quanto ao modo de consumo, afastam-se substancialmente do paradigma consumista característico das sociedades capitalistas, à medida que se empenham em assegurar o necessário para sua vida de qualidade – social, comunitária, pessoal, sem deixar de tomar a sério a dignidade do conjunto dos viventes, não apenas dos humanos. Assim, o consumo relativo a todos os bens e serviços – alimentação, água, energia, solo, flora, fauna, biodiversidade, etc. – se faz sem excessos, sem desperdícios, e com criatividade humanizadora.

No que tange o modo de gestão, aplicam-se a agir comunitariamente, com o protagonismo dos seus cidadãos e cidadãs, zelando pelo bom relacionamento com a Mãe-Terra e com toda a comunidade dos viventes e habitantes da Casa Comum.

Deixe uma resposta