Papa por tempo determinado

Não gostaria de escrever muito sobre a saída do Papa. É muito assunto. Com muitas viscosidades e questões ainda em “esclarecimento”. Embora sob o teto da Cúria Romana pouca coisa vaze ou se esclareça. É um dado histórico da instituição. Os poucos e miseráveis detalhes que se fica sabendo leva-nos a elucubrações para desvendar o ocorrido por completo. Afinal, o Vaticano é uma forma de governo antiga e construída a partir dos tempos medievais.
Primeiro, que Joseph Ratzinger é certamente, na teologia católica, um dos pilares do pensamento religioso do século passado. Figura junto a teólogos de excelência como Karl Rahner, Hans Urs von Balthasar e Johann Baptist Metz. Como teólogo, ajudou a atualizar conceitos como “crer”, “Jesus”, “igreja” e “fé”, todos explicitados no seu legado teológico. Pensa-se que por ser um grande teólogo, um “homem das letras”, como se diz popularmente, teve dificuldades nos pronunciamentos. Como ocorreu logo no início de seu mandato junto aos Mulçumanos, levando-o a não fazer tantas aparições e a pulverizar intervenções indiretas como nas Américas, junto aos teólogos dissidentes, progressistas, e nos casos da pedofilia que assola a instituição. Aliás, as questões ligadas à pedofilia e à sexualidade, e as disputas internas dos cardeais pelos cargos (poder), também foram outras dificuldades de seu pontificado. E todos esses pontos devem ser pauta do seu sucessor.
Pois bem, esses pontos, descritos acima, vêm sendo ventilados na mídia. Tudo isso deve ter influenciado a saída de Joseph Ratzinger do papado. Contudo, a alegação de que, como li em alguns meios de comunicação, seu mandato fôra “salvo” pela própria atitude de delegar o poder, de entregar o papado, desculpem-me, não, compartilho. Seu papado foi continuação do anterior, já que antes detinha a direção da Congregação da Doutrina da Santa Fé. Era o braço direito (para os maldosos, era também a cabeça) do papa anterior. Ele, Joseph Ratzinger, cassou ou disciplinou religiosos mais progressistas como Leonardo Boff, Ivone Gebara, Gustavo Gutiérrez, Hans Küng, Edward Schillebeeckx, Charles Curran, Lavinia Byrne, Jacques Dupuis, Bernhard Häring, e mais recentemente Roger Haight. Todos que, com suas obras, de forma indireta, ajudavam a desenvolver e construir ainda mais os tentáculos da instituição milenar. Em conjunto (mal ou bem) ajudaram a remodelar a face despótica da instituição medieval.
Assim, de fato, a impressão é de que saiu por questões de saúde, e suas já conhecidas dificuldades com o público. Mas também percebo alguns estudos que, ao analisarem os documentos dos últimos anos do Vaticano, entreveem cada vez mais o fechamento de suas políticas/religiosas de estado. Nesse sentido, de produção de textos e documentos, não poderia ter havido pessoa melhor na Cúria romana a assumir o “mandato tampão”. Afinal, não tinham (e não tem!) teólogo como Joseph Ratzinger na Cúria. A percepção é de que ficou o tempo necessário para produzir o material, disciplinar, reafirmar o valor da língua (morta) do latim nos momentos centrais da religião, colocar o anel do Papa para beijarem antes da hóstia (hábito medieval abandonado há tempos) e sair. No geral, a marca de seu papado foi o retorno a certas demandas medievais. Por isso, a escolha do seu nome, Bento, a fim de lembrar o importante religioso medieval Bento de Núrsia.
Perdoem-me o tanto de maldade, mas não vejo tantos méritos em renunciar quem, de certa forma, nunca gostou dos cliques e holofotes. Mais parece que era esse o combinado. Que em determinado momento, após os escritos, disciplinas e o retorno de atos medievais, não se precisaria mais manter a envergadura do poder, como existe precedente na Idade Média. Agora, para os que de bom coração indicaram o valor da sua renúncia, apenas uma colocação. Ele continua como Papa. Só que, agora, como emérito. O que na minha percepção causa um problema para os intelectuais do Vaticano, que terão de se virar agora, digo, escrever para justificar como se pode seguir dois Papas?
Fico me convencendo de que o ideal seriam três papas. Afinal, somos ou não somos trinitários?
(*) Fábio Py Murta de Almeida é historiador e teólogo. Doutorando em teologia pela PUC-RIO.

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