Papa Francisco: Sentido do Natal

Homilia do Papa Francisco, na missa do dia 17.12.2016

No momento em que a espera vigilante se faz mais intensa, no percurso do Advento, no momento em que a Igreja, hoje, começa a orar com as grandes antífonas – momento forte em que nos aproximamos do Natal, a Liturgia nos faz parar um pouco, dizendo: “Paremos!” e nos faz ler esta passagem do Evangelho. O que significa esse parar, num momento que vai progredindo em intensidade? Simplesmente a Igreja quer que nós façamos memória: “Pare e faça memória. Olhe para trás, olhe o caminho.”

A memória: esta postura deuteronômica que dá à alma muita força. A memória, que a própria Escritura destaca como uma maneira de orar, de encontrar Deus. “Lembrem-se de seus líderes”, diz-nos o autor da Carta aos Hebreus. Exercitem a memória daqueles primeiros dias”: a mesma coisa. E depois, na mesma Carta, aquele conjunto de testemunhas, no capítulo 9, que abriram caminho para a chegada da plenitude dos tempos. “Façam memória, olhem para trás, a fim de poderem caminhar melhor adiante.” Eis o significado do dia litúrgico de hoje: a graça da memória. É preciso pedirmos esta graça: não esqueçamos!

É próprio do amor não esquecer. É próprio do amor ter sempre sob os olhos tanto bem que recebemos. É próprio do amor olhar a história: donde vimos, os nossos pais, os nossos antepassados, o caminho da fé. E esta memória nos faz bem, porque torna ainda mais intensa esta espera vigilante do Natal. Um dia tranquilo. A memoria que toma desde o início a eleição do povo: “Jesus Cristo, Filho De David Filho de Abraão”. O povo eleito que caminha em direção a uma promessa, com a força da Aliança, das sucessivas alianças que vai fazendo. Assim é o caminho do cristão, assim é o nosso caminho. Simples: uma promessa nos foi feita; foi-nos dito: caminhe em minha presença e seja irrepreensível, como o é o Pai. Uma promessa que será plena no fim dos tempos, mas que se vai consolidando com cada aliança de fidelidade, e nos faz ver que não fomos nós que elegemos: faz-nos compreender que todos nós fomos eleitos. A eleição, a promessa e a aliança são como as pilastras da memória cristã, este olhar para trás para seguir em frente.

Esta é a graça de cada momento do fazer memória. É quando escutamos esta passagem do Evangelho: é uma história, uma história de graça muito grande; mas também é uma história de pecado. Na caminhada, sempre encontramos graça e pecado. Aqui, na história da Salvação, há grandes pecadores, nesta genealogia, e há santos. Também nós, em nossa vida, vamos encontrar o mesmo: momentos de grande fidelidade ao Senhor, de glória no serviço, e algum momento de infidelidade, de pecado, que nos faz sentir a necessidade da Salvação. E esta também é nossa segurança, porque quando temos necessidade de Salvação, nós confessamos a fé, fazemos uma confissão de fé: “Eu sou pecador, mas Tu podes me salvar. Tu me levas adiante.” E assim, vamos avançando na alegria da esperança.

No Advento, começamos a percorrer este caminho, esperando o Senhor em vigilante espera. Hoje, paramos, olhamos para trás, vemos que foi bonita a caminhada, e que o Senhor não nos decepcionou, que o Senhor é fiel. Vemos também que, tanto na história, quanto em nossa vida, houve belíssimos momentos de fidelidade e tristes momentos de pecado. Mas, o Senhor lá está, com a mão protetora para levantá-lo de novo, e lhe dizer: “Vá adiante!” E é assim a vida cristã: siga em frente, em direção ao encontro definitivo. Que venha o Senhor, nesta caminhada de tanta intensidade, em vigilante espera, que Ele jamais nos tire a graça da memória, de olharmos para trás, vendo tudo quanto o Senhor fez por nós, pela Igreja, na história da Salvação. E assim compreenderemos por que hoje a Igreja faz ler esta passagem que pode parecer um pouco insossa, mas aqui se acha a história de um Deus que quis caminhar com o Seu povo, e afinal fazer-Se um homem, como cada um de nós.

Que o Senhor nos ajude a retomar graça da memória.

– “Mas, é difícil, incômodo: são tantos problemas…” O autor da Carta aos Hebreus tem uma frase belíssima para as nossas lamentações: “Fique tranquilo: você ainda não chegou a dar seu sangue.” Com um pouco de humorismo, por parte daquele autor inspirado, para nos ajudar a seguirmos adiante. Que o Senhor nos dê esta graça.
https://www.youtube.com/watch?v=fz22TZfpli4
(Do minuto 0:18 ao minuto 28:04)
Trad.: AJFC

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