Palavras do Papa Francisco na abertura do sínodo sobre a família

“Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e o Seu amor é perfeito em nós.”

As leituras bíblicas deste Domingo parecem ter sido escolhidas propositadamente para o evento de graça que a Igreja está vivenciando. Ou seja: a Assembléia Ordinaria do Sínodo dos Bispos sobre o tema da Família, que se abre com esta celebração eucarística.

Elas se acham centradas sobre três argumentos: o drama da solidão, o amor entre homem e mulher e a família.

A solidão – Adão, como lemos na primeira leitura, vivia no Paraíso, colocava os nomes nas outras criaturas, exercendo um domínio que mostrava sua indiscutível e incomparável superioridade, mas, não obstante isto, se sentia só, porque não encontrava uma ajuda que lhe correspondesse, e experimentava a solidão.

A solildão, o drama que até hoje atinge tantos homens e mulheres. Penso nos anciãos abandonados até por seus entes queridos e por seus próprios filhos; penso nos viúvos e nas viúvas; penso em tantos homens e mulheres deixados por sua própria mulher e por seu próprio marido; penso em tantas pessoas que, de fato, se sentem sozinhas, não entendidas e não escutadas; penso nos migantes e nos fugitivos que escapam de guerra e de perseguições; e em tantos jovens, vítimas da cultura do consumismo… e da cultura do descarte.

Hoje, vive-se o paradoxo de um mundo globalizado, em que vemos muitas habitações luxuosas, arranha-céus, mas cada vez menos o calor da casa e da família; tantos projetos ambiciosos, mas pouco tempo para viver o projetado; tantos meios diversificados de diversão, mas um vazio cada vez maior no coração; tantos prazeres, mas pouco amor; muita liberdade, mas pouca autonomia. Está aumentando cada vez mais o número de pessoas que vivem sozinhas, mas também o daquelas que se fecham no egoísmo… na violência destrutiva e no escravismo do prazer e do dinheiro.

Vivemos, hoje, em certo sentido, a mesma experiência de Adão: muito poder acompanhado de muita solidão e vulnerabilidade. E a família é um ícone disto. Cada vez menos seriedade quando se trata de levar adiante uma relação sólida e fecunda de amor: na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, nas horas boas e nas horas más. O amor duradouro, fiel, estável, fértil torna-se cada vez mais alvo de brincadeira, e olhado como se fosse artigo de antiguidade. Parece que as sociedades mais avançadas são justamente as que têm o percentual mais baixo de natalidade e o percentual mais alto de aborto, de suicídio, de desequilíbrio ambiental e social.

O amor entre homem e mulher – Lemos ainda na primeira leitura que o coração de Deus ficou como que dolorido, ao ver a solidão de Adão, e disse: “Não é bom que o homem fique só: quero dar-lhe uma companhia, que lhe corresponda.” Estas palavras demonstram que nada torna feliz o coração do homem como um coração a ele semelhante, que lhe corresponda e que o ame e que o tire da solidão e do sentir-se sozinho. Demonstram, também, que Deus não criou o ser humano para viver ou para estar só, mas para a felicidade, para compartilhar seu caminho com outra pessoa que lhe seja complementar; para viver a experiência maravilhosa do amor: isto é, amar e ser amado e para ver o seu amor fecundo nos filhos, como diz o salmo que hoje foi proclamado.

Eis o sonho de Deus para sua criatura amada: vê-la realizada na união de amor entre homem e mulher; feliz na caminhada comum, fecunda na doação recíproca. É o próprio desígnio que Jesus , no Evangelho de hoje retoma com estas palavras:” Desde o início da criação Deus os fez macho e fêmea, por isto o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois se tornarão uma só carne”.

Jesus, diante da pergunta retórica que lhe foi feita- provavelmente como uma armadilha, para torná-lo antipático aos olhos da multidão que O seguia e que praticava o divórcio como realidade consolidada e intocável -, responde de uma maneira inesperada: remete tudo à origem da criação, para nos ensinar que Deus abençoa o amor humano, é Ele que une o coração de um homem e de uma mulher que se amam e os une na unidade e na indissolubilidade. Isto significa que o objetivo da vida conjugal não é somente viver juntos para sempre, mas amar-se para sempre! Jesus restabelece, assim, a ordem originária e originante.

A família- “ Então, o homem não separe o que Deus uniu” . é uma exortação aos crentes, a fim de superarem toda forma de individualismo e de legalismo, que escondem um traço de egoísmo e um medo de aderir ao significado autêntico do casal e da sexualidade humana no projeto de Deus.

De fato, somente à luz da loucura da gratuidade do amor pascal de Jesus resultará compreensível a loucura da gratuidade de um amor conjugal único e até à morte.

Para Deus o matrimônio não é uma utopia de adolescente, mas é um sonho sem o qual a sua criatura estará condenada à solidão! Na verdade , o medo de aderir a este projeto paralisa o coração humano.

Paradoxalmente , também ;o homem de hoje- que muitas vezes ridiculariza este desígnio- fica atraído e fascinado por todo amor autêntico; vai atrás dos prazeres carnais, mas deseja a doação total.

De fato, “agora que saboreamos plenamente as promessas da liberdade ilimitada, começamos a compreender de novo a expressão “tristeza deste mundo”. Os prazeres proibidos perderam seu atrativo tão logo passaram a ser proibidos. Mesmo que se achem amplamente difundidos e renovados infindamente, resultam insípidos porque são tão finitos, e nós, ao contrário, temos sede de infinito”.

Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver sua missão na fidelidade, na verdade e na caridade. Viver sua missão na fidelidade ao seu Mestre, como voz que clama no deserto, para defender o amor fiel e encorajar numerosíssimas famílias a viverem seu matrimônio como um espaço em que se manifesta o amor divino: para defenderem a sacralidade da vida, de toda vida; para defender a unidade e a indissolubilidade do vínculo conjugal como sinal da graça de Deus e da capacidade do homem, de amar seriamente.

A Igreja é chamada a viver sua missão na verdade que não muda conforme as modas passageiras ou as opiniões dominantes. A verdade que protege o homem e a humanidade das tentações da auto-referencialiade e de transformar o amor fecundo em egoísmo estéril, a união fiel em laços temporários. “Sem verdade, a caridade vira sentimentalismo. O amor se torna um … vazio, a ser vivido arbitrariamente. É o risco fatal do amor em uma cultura sem verdade.”

E a Igreja é chamada a sua missão na caridade não aponta o dedo para julgar os outros, mas – fiel à sua natureza de mãe – sente-se no dever de buscar sanar as feridas com o óleo do acolhimento e da misericórdia; a ser “hospitaleira” com as portas abertas para acolher a quem quer que bata pedindo socorro; a sair mais da própria casa em direção aos outros com amor verdadeiro, para caminhar com a humanidade ferida, para incluí-la e conduzi-la ao caminho de salvação.

Uma Igreja que ensina e defende os valores fundamentais, sem esquecer que “ o sábado é feito para o homem e não o homem para o sábado”; e que Jesus também disse:”não são os sadios que precisam de médico, mas os doentes; Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. Uma Igreja que educa para o amor autêntico, capaz de tirar da solidão, sem esquecer a sua missão de bom samaritano da humanidade ferida.

Recordo São João Paulo II, quando dizia:” os erros e os males devem ser sempre condenados e combatidos, mas o homem que cai esse acidenta deve ser compreendido e amado (…) Devemos amar o nosso tempo e ajudar o homem do nosso tempo”. E a Igreja deve busca-lo, acolhê-lo e acompanhá-lo, porque uma Igreja de portas fechadas trai a si própria e a sua missão e, em vez de ser uma ponte, torna-se uma barreira:” De fato, aquele que santifica e os que são santificados vêm de uma mesma origem; por isto não se envergonha de chama-los irmãos”.

Com este espírito, peçamos ao Senhor que nos acompanhe no Sínodo e que guie a sua Igreja, por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria e de São José, seu castíssimo esposo.

https://www.youtube.com/watch?v=2vqz5O6HX5M
(Do minuto 37:11 ao minuto 54:50)
Trad. : AJFC
Digitação: Águeda F.C.

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