Padres brasileiros e a decadência da Igreja

Por Gedeon José de Oliveira e Genildo Santana

Em 2004 o Padre teólogo e filosofo Urbano Zilles, escreve o livro “Crer e compreender” objetivando retomar as pesquisas em torno da relação fé e razão na história da filosofia, de modo a destacar a importância entre filosofia e teologia, tanto na atual conjuntura quanto na formação dos padres. Zilles, entende que o conceito de Deus é um dos mais antigos, mais universais e mais fecundos do patrimônio cultural da humanidade. Daí a importância das disciplinas de filosofia e teologia na formação dos seminaristas, para assim, formar padres que dialoguem com o mundo atual e os desafios pastorais.

A partir das aulas de filosofia no seminário do Rio Grande Sul, Zilles faz uma constatação perturbadora na formação dos seminaristas: “cresce nos seminários a percepção de que muitos seminaristas que estão no curso de filosofia, estão não porque queiram, e nem por vocação, mas por obrigação, por ser condição para chegar ao sacerdócio” (ZILLES, 2004 p. 57).

Os documentos da igreja, em especial a encíclica Fides et Ratio, de Joao Paulo II, enfatizam a importância da formação filosófica aos seminaristas, tendo em vista os desafios que o mundo contemporâneo impõe. Trata-se de aprofundar os mecanismos político-econômicos na produção de doenças, no crescente controle da vida humana, da dicotomia corpo-alma, na produção da pobreza, do racismo, do machismo, do desenvolvimento tecnológico e do poder estatal, que de muitas maneiras determinam a vida. Não obstante, problemas em torno da pedofilia, do homossexualismo e da riqueza de muitos padres, acirram os problemas de igreja. A voz da igreja que não encontra eco na sociedade atual, devido aos seus graves problemas. Deste modo, a condição de ser sacerdote no mundo moderno, implica em conhecer profundamente as filosofias contemporânea, mesmo aquelas incompatíveis com a fé cristã, “pois a ignorância, além de não ser virtude, não habilita ao diálogo” (ZILLES, 2004, p, 58).

Ora, o decreto Optatam Totius, do Concílio Vaticano II, afirma que as disciplinas filosóficas devem levar o estudante a adquirirem um conhecimento sólido e coerente do homem, do mundo e de Deus, apoiados no patrimônio perenemente válido, afirma Zilles. Mas o documento alarga os estudos filosóficos, de modo que as investigações filosóficas dos tempos modernos, aquelas que influenciam a nação, bem como o progresso da ciência, para que os candidatos ao sacerdócio conheçam de maneira clara os sinais dos tempos presente. (n 15). Um dos problemas apresentados no mundo de hoje pela filosofia quanto pela teologia, é a questão da linguagem. O filosofo Giorgio Agamben afirma que, na linguagem formulada pela filosofia ocidental, a vida foi separada da morte. Ao separar a vida da morte, a linguagem na analítica ontológica tornou a vida abstrata. O autor reflete sobre o puro ato da comunicação e as implicações éticas da própria existência da linguagem, para pensar o conceito forma-de-vida. Trata-se, portanto, do problema da gramática ou do conceito do que seja a vida. Sem uma formação adequada, muitos padres abordam os problemas modernos de forma moralista, ou assumem posturas dogmáticas em defesa da instituição em detrimento da vida humana, e dos empobrecidos.

Ocorre que muitos padres brasileiros, principalmente aqueles das correntes pentecostais (carismáticos), tem contribuído consideravelmente com a decadência da igreja. Com o problema da pandemia, por exemplo, uma senhora que foi contaminada e posteriormente curada, disse que um determinado padre, afirmou que ela foi contaminada porque não tinha fé. Essa ocorrência, também acontece com pessoas que desenvolveram a depressão. A orientação dos padres se resume na falta de fé por parte dos fiéis. Esses exemplos absurdos, nos provoca a questionar o modelo de formação dos seminaristas implementados pelas chamadas novas comunidades e pelos padres carismáticos. Com esses modelos de comunidades e de padres, não faltam leigos, padres e comunidades que militam contra o Papa Francisco e contra as orientações da CNBB no que dizem respeito a liturgias e a política. Problema fica mais acirrado, quando essas orientações ganham respaldo de bispos. Não é raro, ouvir de bispos que padres intelectuais no campo da teologia pastoral, não dão testemunhos, de modo que a preferência por padres carismáticos ganha espaços em paroquias ricas, assim como espaço de poder nas funções das dioceses.

Com este quadro patológico do qual se encontra a grande parte da Igreja no Brasil, a nostalgia toma conta daqueles padres sérios e comprometidos com o evangelho. Os padres estrangeiros voltam como modelos de sacerdócio que alimentam nossas esperanças. Certamente, a maioria dos padres estrangeiros, movidos pelo espirito da missão, foram os verdadeiros protagonistas na edificação das comunidades de base, na criação de igrejas, no atendimento pastoral as necessidades do povo, de modo a encarnar o evangelho na realidade dos mais sofridos.

Hoje há de se perguntar se há mesmo uma Igreja Católica. Se ela é una de verdade, uma vez que cada congregação, cada grupo vai de acordo com suas próprias convicções. Encíclicas papalinas, Bulas, documentos da CNBB já não são mais para a igreja, uma vez que se aceita a orientação dos gurus de cada comunidade ou grupo. Documentos papais são rejeitados abertamente por muitos católicos, inclusive taxando-o de herege, e na linguagem política, comunista.

É inegável a existência de ídolos na sociedade e na Igreja. Ídolos que geram morte e alienação. A Igreja que quer ser fiel a Jesus tem que denunciar esses ídolos. E tantos outros. Porque foi o que Jesus fez.

As denúncias de Jesus se dirigem a grupos opressores, diríamos mais a pecadores coletivos do que individuais, que produzem o pecado estrutural. Jesus responsabiliza pelo anti-reino não só o Maligno – realidade trans-histórica – mas também agentes históricos. Concentramo-nos aos ricos, aos escribas e fariseus, aos sacerdotes e aos governantes, como detentores do poder econômico, intelectual/exemplar, religioso e político (Sobriño, 1996, p. 254).

O Eclesiocentrismo é um dos ídolos. O eclesiocentrismo é esponsável por males incalculáveis que nos contam a história. Esse Mito de Superioridade que ainda persiste na igreja católica deve ser combatido com todas as armas cristãs possíveis. A heresia do eclesiocentrismo está presente na Igreja dos tempos atuais. Há quase que uma divinização da Liturgia e dos Ministros. Embora persista uma importância intocável a instituição igreja, aos poucos, ela vai perdendo espaço dentro da sociedade como um todo. E com ela seus ministros, sejam eles Bispos, Padres, Pastores. Ouço sempre sermões com apelo para o compromisso com a Igreja. E compromisso com a Igreja não resulta, NECESSARIAMENTE, compromisso com Deus, com o Reino de Deus ou com os pobres. O eclesiocentrismo é, em última nota, anticristão.

Urge que se livre desses falsos deuses. No diálogo ecumênico, a igreja católica reconhece as outras igrejas, mas se assume – e não abre mão – ser a única criada por Deus. É o mesmo que quebrar qualquer possível diálogo ecumênico.

Os ídolos desumanizam. E aqui lembro a desumanidade do Cardeal Ratzingher, depois Papa Bento XVI, ao inquirir Dom Pedro Casaldáliga, nos anos 80, exigindo-lhe a assinatura de um documento que o Bispo não concordara com seu teor, sob pena de exclusão. Sem falar na insensibilidade para a realidade da Prelazia de São Félix, no Mato Grosso. Isso porque, para o Cardeal, as doutrinas, os dogmas, o magistério eclesiástico era mais importante do que a realidade de morte dos países Latino-Americanos. E hoje, persiste no discurso eclesiástico a mesma ideia, a mesma insensibilidade, a mesma desumanidade quando recusa comunhão aos divorciados, aos homossexuais, às prostitutas e em todas as ações afins. Quando se diz perfeita e condena os que lhe são diferentes em cultura, em ideia, em ação.

Sendo a criação o Ato Primeiro e a Religião o Ato Segundo, a Religião está a serviço da criação e não o inverso. Há uma Primazia da Criação em relação à Religião. A Religião, e consequentemente as Igrejas, devem servir ao Humano. Nada mais fiel a Deus que deu Seu Filho único para salvar a Humanidade.

É imperioso que a Igreja que queira ser fiel a Jesus Cristo e fundamentada n’Ele, não se distancie do mundo dos pobres, com toda conflitividade que eles trazem em si. Sendo os pobres o lugar eclesial e, ao mesmo tempo, o referencial do Reino de Deus, os seus destinatários, os seus construtores, não podem ser relegados a um ostracismo que envergonha quem se diz seguidor de Cristo. E, enquanto Instituição, a Igreja Católica se distanciou dos pobres. Seus discursos não contemplam mais os pobres como sujeitos da Evangelização. Sua homilia não se destina aos pobres. Tornou-se abstrata, sem concretude profética, sem denúncia. Pelo contrário, muitos padres justificam as condições desumanas em que se encontram muitos brasileiros.

“A quem chamamos hoje de raposa”? Se questionava com frequência o Padre Assis Rocha, quando na diocese de Afogados da Ingazeira, em Pernambuco. Os Dogmas, as políticas, os interesses institucionais não podem estar acima desse sujeito histórico, que é o pobre. Principalmente na América Latina, esse continente tão subtraído em seus direitos de existir e de guiar seu próprio caminho.

Os preceitos morais, a ética sexual não pode, como parece ser, o principal tema de qualquer Igreja que queira ser digna de se chamar de Cristã.

Essa distância entre o clero e o povo, mais especificamente os pobres, é notória na Igreja Católica. Ela infantiliza o povo em sua catequese. Não aprofunda o debate, não aceita a visão diversa, seja ela da Filosofia, da Sociologia, da Ciência, da História. Afirma Dogmas e uma Ética sexual que faz as ciências rirem. Com isso, não queremos ridicularizar a Igreja, muito pelo contrário. É justamente porque a amamos e nos interessamos por ela que fazemos esse alerta e temos essa preocupação. Se a ela fôssemos indiferentes, não nos preocuparíamos em que ela tomasse um rumo mais Cristão e mais coerente com uma Igreja que se diz fundamentada em Jesus Cristo e sua seguidora.

A Igreja Católica, enquanto Instituição Oficial, se distanciou dos pobres. É como diz a fofoca Eclesiológica: a Igreja fez uma opção dos pobres e os pobres optaram pelos evangélicos.

Por isso, finda-se por se tornar uma “contradictio in terminis”, andar “às voltas com Deus” e não andar “às voltas com os pobres.” É contraditório falar de Deus e não falar dos pobres, não assumir sua condição de pobreza, não denunciar os que provocam essa mesma pobreza, não denunciar os que tiram proveito dessa pobreza, os que exploram os pobres, os que os humilham.

O Papa João Paulo II, segundo José Ignácio Gonzáles Faus, pediu muitos perdões por erros cometidos pela Igreja Católica. Um dos perdões foi dirigido a Galileu Galilei. Em seu discurso no dia 31 de Outubro de 1992 afirmou: “Paradoxalmente, Galileu, fiel sincero, mostrou-se nesse ponto [critérios de interpretação da Escritura] mais perspicaz que seus adversários teológicos.” (FAUS, 1998. p. 105).

Diz-nos José Antonio Yoldi que durante uma aula inaugural na Universidade de Sorbonne, quando alguém cochichou ao ouvido de Merleau-Ponty que Roma tinha reabilitado Galileu, ele comentou: “O catolicismo romano sempre é enganado no passado, infalível no presente e inocente no futuro” (Yoldi, 1994. p. 29).

Não é o que se dá no momento presente? Vemos uma Igreja Infalível que terá muitos perdões a pedir no futuro. E nesse futuro se dirá inocente e enganada nesse passado de hoje. Não cheira acerta mediocridade?

Lembro que há alguns anos um Juiz de Direito da Diocese de patos fez uma façanha: andou em todas as paróquias ouvindo sermões dos padres. Procurou o Bispo de então e sugeriu: “Mande os padres estudarem. Não sabem o que dizem, não tem linha de raciocínio, ferem os outros nos sermões”.

A Igreja de Roma sempre teve dificuldade com o diferente. Em nome da Unidade, que pode ser Uniformidade, disse-se dona da verdade e única capaz de Interpretação das Escrituras. Deu ao Papa uma Infalibilidade de fazer inveja a imperadores. Os Dogmas cumpriram o que faltava na missão centralizadora da Igreja Católica.

Já anteriormente, promoveu uma ferrenha perseguição ao padre Jesuíta, Teilhard de Chardin, por suas pesquisas e concepções científicas. Teilhard de Chardin tentava fazer uma união da ciência com a Fé. Tentava ver Deus nas pedras. Buscava O Coração da Matéria, Título de um dos seus livros. Há, em sua Doutrina Moral, uma tentativa de silenciar os grupos de Minoria, como as prostitutas e homossexuais. Eles não têm vez, nem voz na Igreja. Não podem comungar, visto que estão em situação de pecado. Há uma espécie de silenciamento dos padres casados, que são também teólogos e filósofos de formação. Mas, quando se pronunciam, são descredibilizados, pelo fato de terem renunciado ao Ministério.

O que mais nos assusta, inquieta e preocupa é justamente o Silêncio da Igreja. A fala dos teólogos, por mais que tentassem, não foi historicamente silenciada. Faz parte hoje do vocabulário da Igreja. Mas o silêncio promovido pela Igreja fala. Fala da ausência de compromisso dessa mesma Igreja que se pretende seguidora de Cristo. Fala da ausência do discurso profético-libertador. Fala do distanciamento do mundo e do universo dos pobres. E Mais: da aproximação com os poderosos, com os ditos “donos do mundo”.

Por que esse medo do mundo moderno? A Igreja atacou Dan Brown no lançamento do livro Código da Vinci, em 2003, atacou José Saramago quando lançou Caim, em 2009, atacou o existencialismo de Sartre, ataca a ciência, a bioética, a literatura, a filosofia.

Padres dogmáticos e litúrgicos, entendem que basta isso para exercer o sacerdócio. Ouvi de um padre amigo que não precisava estudar pois já estava bem estabelecido. Não é um reducionismo do que seja o sacerdócio? Do seu papel? Enquanto assim se portam, ficam condenando ao inferno jovens que transam, pessoas que se separam e contraem novas núpcias,

Em palavras outras, uma Igreja em moldes medievais, com paradigmas medievais, com doutrina sexual medieval, formatos medievais (Dioceses e Paróquias) em tempos de ciências, de pluralidade de pensamento, sendo a pluralidade de ideias e posturas um dos paradigmas do mundo já dito pós-moderno.

Esses fatos, e tanto outros exigem mudanças dentro da igreja. Uma mudança que, certamente traria benefícios para igreja é o reconhecimento dos padres casados e o retorno no exercício do ministério. Outra mudança de igual importância é a ordenação de mulheres. As mulheres vem ocupando espaço de poder em todas as instâncias da sociedade, de modo que na igreja ainda perdura um papel secundário, evidenciando um preconceito histórico da instituição igreja.

Fonte: Teologia Nordeste

(05-12-2020)

Deixe uma resposta