OS PADRES DA EUROPA APELAM À “DESOBEDIÊNCIA”

Artigo publicado pelo jornal suíço Le Matin

BENTO XVI NA TORMENTA – Os padres europeus já não suportam os casos de pedofilia, na Igreja Católica. Reclamam ao Papa reformas e, enquanto esperam, apelam à “desobediência religiosa”.

O Papa Bento XVI enfrenta uma efervescência de movimentos de desobediência na Europa, que tomaram nova amplitude em consequência dos escândalos dos padres pedófilos.

O fenômeno alcança toda a Europa, mas é em dois países em que as Igrejas foram particularmente afetadas, que a contestação se dá de modo mais virulento: a Áustria e a Irlanda.

A Áustria, onde um antigo arcebispo, Hans Hermann Grör, foi acusado de pedofilia, tornou-se um laboratório da contestação.

Em 2011, 400 religiosos aí lançaram a “Iniciativa dos padres”, “um apelo à desobediência religiosa” que migra para a Alemanha e que clama pela ordenação de mulheres. Ao ponto de Bento XVI, num discurso diante de 1500 padres, na Quinta-Feira Santa, ter feito alusão a tal iniciativa e ter dito que essa desobediência, que ameaça desembocar num cisma, não é uma boa solução para renovar a Igreja.

Foi também na Áustria que, nesses últimos dias, que o Cardeal de Viena, Christoph Schönborn, próximo de Bento XVI, recebeu e confirmou em seu posto um conselheiro paroquial homossexual, que seu pároco desaprovava.

Apelo à reforma

Na Irlanda, onde a Igreja ficou traumatizada pela revelação de milhlares de abusos de pedofilia, um vasto movimento entende que a Igreja deve renova-se profundamente, aceitando a contracepção, a ordenação das mulheres, o casamento dos padres…

820 dos 3.400 padres irlandeses apoiaram um dos seus, o Pe. Tony Flannery, criticado no Vaticano por pedir uma evolução liberal da Igreja.

Na Alemanha, na Bélgica, na Holanda – países em que estouraram numerosos abusos -, na França, na Inglaterra, na Espanha, a contestação também se organiza. Os direitos das mulheres e os homossexuais figuram no centro das preocupações.

Para os contestatários, a crise nasceu do retraimento do Vaticano sobre os costumes e de sua recusa de reformas. Segundo eles, a extensão do escândalo de pedofilia explica-se principalmente pela recusa de tomar em consideração a sexualidade na vida dos padres.

Acrescentam-se tensões nesse domínio: principalmente no Sul da Alemanha, certos paroquianos protestam contra a fusão das paróquias em razão da falta de padres. Eles estimam que uma tarefa conjunta entre os leigos e os padres casados poderia aliviar essa falta. Não é apenas no campo “progressista” que o papa enfrenta rebeliões: os integristas da Fraternidade São Pio X recusam o Concílio Vaticano II.

Em seu discurso de Quinta-Feira Santa, na Basílica de São Pedro, Bento XVI lamentou a existência de uma “situação muitas vezes dramática da Igreja”, perguntando-se se o fato de se atirar em todas as direções permite remediar tal situação: “Será que a desobediência é um caminho para renovar a Igreja?”

Joseph Ratzinger também apelou a “não simplificar o problema” das reformas, admitindo que o desejo de mudança havia motivado o próprio Cristo face ao clero judeu do seu tempo.

Contra o imobilismo

Bento XVI reconheceu igualmente uma certa sinceridade dos reformadores austríacos, “quando dizem estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das instituições por meio drásticos para se abrir caminhos novos”.

Se o papa recusar por princípio as reformas quanto ao casamento dos padres, o sacerdócio às mulheres, a comunhão aos separados, ele se pronunciou contra “o imobilismo e o endurecimento”, consciente de que a Igreja não deve simplesmente impor regras.

O papa que criticou, recentemente, por várias vezes, uma tendência de certos padres a negligenciar os leigos, louvou, na Páscoa, em discurso notável, o papel “fundamental” das mulheres nas comunidades cristãs, apelando implicitamente a que o papel delas seja ampliado.

http://www.lematin.ch/societe/benoit-xvi-affronte-appel-desobeissance/story/27408548

(Trad.: Alder Júlio F. Calado)

Deixe uma resposta