Os ensinamentos de Realengo à República

A tragédia em Realengo não é apenas mais uma entre tantas que nos atingem – desde desastres aéreos até chacinas como a de El Dourado dos Carajás. O que aconteceu no Rio de Janeiro é um divisor de águas, uma mudança substantiva no modo de o Brasil se relacionar com a escola e um salto sem precedentes em direção ao pânico social.
A partir dessa tragédia, as famílias não terão apenas o receio de que ofereçam drogas a seus filhos nas escolas. Agora elas temerão que algum psicopata entre atirando nas salas de aula.
Acidentes como o da TAM e o da GOL sempre poderão ser compreendidos pela imprevisibilidade inerente ao transporte aéreo, enquanto Carajás é fruto de um conflito social que, infelizmente, sabemos que ainda provoca mortes no país. Mas e as crianças? Abatidas como patos, num ato supremo de covardia? Como classificar a tragédia em Realengo? O que pode vir depois? Alguma coisa poderia ter sido feita para prevenir? Como conviver com essa incerteza mortal?
Difícil responder a tudo isso, mesmo porque não há como uma sociedade criar políticas públicas específicas para impedir que pessoas saiam por aí matando as outras. Mas é possível construir políticas públicas para dificultar o acesso a armas, por exemplo.
Além disso, há outra coisa a se fazer. Rever a forma como tratamos nossas crianças e adolescentes, qual o lugar que lhes reservamos no imaginário social, de que forma elas se inserem e são inseridas nos espaços público e privado.
E mais. Seria bom que começássemos a discutir, seriamente, que tipo de sociedade estamos construindo. E começar a perguntar quais fatores contribuem para que um cidadão cometa um crime como esse. Sim, é preciso traçar o perfil psicológico do criminoso e pesquisar se ele foi mesmo vítima de abusos, assim como é preciso conhecer sua verdadeira inserção em meios fundamentalistas religiosos – tenham estes quaisquer matizes.
Além disso, vale ressaltar que nenhuma análise que se pretenda séria pode deixar de lado a responsabilidade das corporações de mídia, entendidas aqui de modo amplo, desde empresas que fabricam jogos violentos até os meios de comunicação de massa (sobretudo cinema e televisão) que cotidianamente impõem valores individualistas, egoístas, que fazem com que o outro seja visto como um adversário ou inimigo – o tal programa BBB é o exemplo mais bem acabado disso, e aí você pode acrescentar o incentivo à inveja, à superficialidade, à competição desmedida. Vale qualquer coisa para ganhar 1,5 milhão ou 15 minutos de fama.
Não há um estudo a esse respeito, mas o fato é que todos os casos de psicopatas que promovem chacinas em locais de grande circulação de pessoas e depois cometem suicídio são registrados em países capitalistas avançados, a começar pelos EUA. O raciocínio faz todo o sentido numa terra que hiper-valoriza a ideia de “self made man”, que se diz o país das oportunidades para todos e ao mesmo tempo joga a culpa do fracasso sobre aqueles que não conseguiram ganhar dinheiro – medida suprema de sucesso nesse modelo de sociedade.
Sendo assim, o mais provável é que a tragédia de Realengo tenha sido motivada por uma conjunção de fatores, a saber: abuso anterior contra o atirador, inclusive por parte de familiares (uma possibilidade que merece ser investigada), o fundamentalismo religioso, o sucateamento do ensino, o aprofundamento do capitalismo no país e os valores disseminados pelas corporações de mídia.
Não há como trazer de volta os mortos em Realengo, mas é possível que eles sirvam de alerta para pensarmos – e agirmos – na construção de uma sociedade pautada pela busca da harmonia, da paz e da elevação espiritual.

4 comentários sobre “Os ensinamentos de Realengo à República”

  1. É INACREDITÁVEL O QUE ESTÃO FAZENDO COM ESSAS CRIANÇAS!
    Alguém aqui deixaria seu filho de 10, 12 anos, voltar pro mesmo lugar, pra mesma sala (mesmo que pintada, repaginada) , onde tivesse visto seus coleguinhas serem assassinados com tiros na cabeça, tivessem sido alvejados , fugindo pelos corredores de um louco assassino com disposição ferrenha em lhes tira a vida (e que matava RINDO)?!!
    Alguém permitiria isso com um filho que ama? Alguém trabalharia e dormiria tranquilo sabendo que seu filho terá que conviver diariamente com uma tragédia dessa proporção que viveu na pele de forma INTENSAMENTE DOLOROSA com tão pouca idade?!
    É INACREDITÁVEL O QUE ESTÃO FAZENDO COM ESSAS FAMÍLIAS!

  2. Excelente análise! Muito tem se debatido sobre, segurança, bullyng, fundamentalismo religioso, mas nehuma corporação midíatica refletiu sobre o nosso sistema canibal e INDIVIDUALISTA . Que segundo sua teoria, o sistema é justo pois todos recebem a mesma oportunidade social e profissional. Quem não está bem incerido no sistema neocapitalista é um fracassado. E outra coisa que não vemos e nunca vamos ver é a mídia refletindo sobre ela mesma, sobre a sua contribuição para tragédias como essa. Porta voz oficial do sistema neocapitalista, a grande mídia prega sistemásticamente através de sua programação (novelas e principalmente reality show) um individualismo cruel e covarde. O que se representa e é assimilado com a realidade é que a vida é um jogo que se joga individualmente, e que para vencer é preciso ignorar, passar por cima, aniquilar quem deveria ser o nosso próximo. Vale tudo: trapacear, mentir, humilhar, desprezar e etc mais. O que importa é vencer o jogo da vida, não importa o que se fez para isso, pois “o fim justufica os meios”. Importante também é percebermos a distorção que essas instituições implantaram na sociedade, fazendo confundir SUCESSO com FAMA. Hoje não importa o que se faça o importante é a fama, é ser popular. E isso se vive muito intensamente no cotidiano escolar. O brigão, o engraçadinho bagunceiro, o bom de bola, os grupinhos fechados de meninas mais providas de beleza… e o desprezo, em geral, por quem não tem o perfil adequado para ser um porpular ou fazer parte de algum grupinho.
    Nós pais e professores temos que promover cotidianamente discursos e debates com as nossas crianças deiferente do que veem apresentado a elas. Que a vida é um jogo sim, mas que deve ser jogado no coletivo. Que a fama é passageira e que o verdadeiro sucesso é construido ao longo da vida…e que não pode ser resumido a uma vitória pessoal, pois a realização de um sonho depende do incentivo e colaboração de muitas pessoas (pais, professores e amigos).
    Não podemos esquecer que ainda somos responsáveis pela educação dos nossos filhos, e que temos que diminuir o espaço entre ele e esse discurso do individualismo produzido pela grande mídia, que tem colaborado para a distorção dos verdadeiros valores e para a falta de respeito ao próximo.

  3. Pingback: A parcela de culpa das corporações midiáticas no caso de Realengo |

  4. A parcela de culpa das corporações midiáticas no caso de Realengo
    Publicado em 18/04/2011 por Cleber Araujo
    No caso da chacina de Realengo muito tem se debatido sobre segurança, bullyng, fundamentalismo religioso e novas estratégias educacionais, mas nehuma corporação midiática refletiu (nem abriu espaço para reflexão) sobre o sistema canibal e INDIVIDUALISTA que vivemos. Que segundo sua teoria, o sistema é justo pois todos recebem a mesma oportunidade social e profissional. Quem não está bem inserido no sistema neocapitalista é um fracassado.
    Outra coisa que não vemos e nunca vamos ver é a mídia refletindo sobre ela mesma, sobre a sua contribuição para tragédias como essa. Porta-voz oficial do sistema neocapitalista, a grande mídia prega sistematicamente através de sua programação (novelas e principalmente reality show) um individualismo cruel e covarde. O que se representa, assimilando com a realidade, é que a vida é um jogo que se joga individualmente. Para vencer é preciso ignorar, passar por cima, aniquilar quem deveria ser o nosso próximo. Vale tudo: trapacear, mentir, humilhar, desprezar e etc mais. O que importa é vencer o jogo da vida, não importa o que se faça para isso, pois “o fim justifica os meios”.
    Importante também é percebermos a distorção que essas instituições implantaram na sociedade, fazendo confundir SUCESSO com FAMA. Hoje não importa o que se faça, o importante é a fama, é ser popular. E isso se vive muito intensamente no cotidiano escolar. O brigão, o engraçadinho bagunceiro, o bom de bola, os grupinhos fechados de meninas mais providas de beleza… e o desprezo, em geral, por quem não tem o perfil adequado para ser um porpular ou fazer parte de algum grupinho.
    Nós pais e professores temos que promover cotidianamente discursos e debates com nossas crianças diferentes do que tem sido apresentado a elas. Que a vida é um jogo sim, mas que deve ser jogado no coletivo. Que a fama é passageira e que o verdadeiro sucesso é construido ao longo da vida…e que não pode ser resumido a uma vitória pessoal, pois a realização de um sonho depende do incentivo e colaboração de muitas pessoas (pais, professores e amigos, etc).
    Não podemos esquecer que ainda somos responsáveis pela educação das nossas crianças – filhos e alunos, e que temos que diminuir o espaço entre elas e esse discurso do individualismo produzido pela grande mídia, que tem colaborado para a distorção dos verdadeiros valores e para a falta de respeito e amor ao próximo.
    Artigo inspirado no texto de Marcelo Salles, OS ENSINAMENTOS DE REALENGO À REPÚBLICA, públicado do site Fazendo Média.
    http://baracoadentro.com

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