Os bichos de Bento

Onças, cavalos, corujas, tejos e tatus. Esses são os bichos que Bento revela ao entalhar a madeira. As mãos calejadas do artista deslizam no material seguindo as linhas, veios, nós da madeira, todos dados pela natureza. É como se a forma e conteúdo já estivessem naturalmente desenhados no tronco e que Bento apenas revelasse aos nossos olhos animais, santas e santos, cada um com uma feição própria, original.

Aparentemente Bento divide-se entre bichos e santos. Entre seres divinos e o próprio sagrado representado pela natureza de seus animais. No entanto, há uma secreta união entre estes dois temas, cabendo somente ao artista saber como ela se realiza.

A obra escultural de Bento Medeiros Gouveia (mais conhecido como Bento de Sumé) é um dos principais destaques deste XII Salão do Artesanato Paraibano, que ocorre até o próximo dia 27, num enorme estande montado no bairro do Catolé, em Campina Grande.
Quem primeiro me falou do trabalho de Seu Bento foi o renomado artista plástico Chico Ferreira que mostrou a sua originalidade através de algumas peças deste importante escultor paraibano, que ele mantém num pequeno acervo pessoal:

– Presta atenção na expressão, no olhar!

No Salão, hesito entre uma coruja e um tatu. As corujas de Bento são diferentes daquelas que estamos acostumados, símbolo da sabedoria e de mistérios antigos. São bacurais erradios, que desviam o olhar e que parecem selvagemente querer fugir, como se a madeira tivesse vida. Já o tatu, esculpido numa única peça, com cor, textura e carapaça próprias, lembra um ser imaginário, desenhado mentalmente por um Jorge Luis Borges ou mesmo por um Franz Kafka.

Com o tatu de Bento em mãos, não imagino o bicho num outro lugar que não seja minha toca, meu escritório, a biblioteca. Ele irá ficará junto aos livros. Lembro instantaneamente do tatu do livro “Jardim dos Animais” (publicado em 1988, pelo poeta mineiro Ronald Claver) e musicado pelo nosso Paulo Ró. Um ilógico jardim no qual o tatu caca, cava, cava sua própria sina. E o que é a sina da escrita senão uma escavação nos domínios da razão e do inconsciente? A escrita é a arqueologia de si mesmo e de todos os outros, busca sem fim, redenção e perdição, ao mesmo tempo ilusão e autoconhecimento.

Esse bicho “pré-histórico” e ensimesmado, desentranhado da madeira bruta pelas mãos calejadas Bento de Sumé e, instalado na estante, parece ter tons metafísicos…

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