Naquela estrada, num raio de 70km da última cidade, o Restaurante do Josimar e Erudite era o único com comida razoável para almoçar. O pessoal que passava por ali só gostava desse local para parar.
O movimento era grande, principalmente em final de semana, pois o turismo ecológico com as cachoeiras da redondeza era convidativo para quem apreciava travessias, pedal e banho de rio.
Josimar ficava no caixa, tinha um garçom para atender às mesas, e Océlio, contratado recentemente, ajudava Erudite na cozinha.
Desde que Océlio foi contratado, começou com gracejos com Erudite, que no início fazia de conta que não percebia, mas com o tempo foi se abrindo para ele. O marido não notava, mas o garçom sentia o clima diferente entre os dois. Quando ele entrava na cozinha, via-os rindo e próximos.
Era um dia de sábado e o local começava a encher. O garçom, com seu bloquinho, ia anotando os pedidos e colocando no balcão. As bebidas serviam à medida que pediam. Océlio no caixa, cobrava as miudezas de quem não ficava para a refeição.
As comandas paradas na janelinha do acesso à cozinha, as pessoas começaram a reclamar da demora. Sem entender, o garçom adentrou ao local e não viu ninguém. Procurou os dois lá fora e nada. Depois de um tempo, notou que a moto de Océlio não estava estacionada no lugar de sempre. Dirigiu até o quarto dele e não tinha mais seus pertences, saiu em busca da mulher, constatou a mesma coisa. Concluiu que foram embora juntos.
Imediatamente foi dizer a Josimar que ficou tão nervoso que caiu duro no chão. A clientela deu por conta da confusão e foi ajudá-lo a levantar. Conseguiram sentá-lo numa cadeira, deram água, mas ele continuava pálido e sem reação.
Os clientes com fome e sem terem outro lugar para comer, resolveram eles mesmos preparem a comida. Juntou quem sabia cozinhar e esses foram para a cozinha. Separaram carnes, verduras, arroz, feijão e criaram pratos diferenciados. Estava até bonito de se ver a união de todos no preparo do almoço.
Tudo pronto, arrumaram uma grande mesa e todos comeram e beberam à vontade, os que iam chegando também participavam.
Ainda lavaram as louças e pagaram pelo que consumiram.
Enquanto isso, em volta do Josimar, uma dama solitária beirando os cinquenta anos, cuidava dedicada de sua recuperação. E esse foi melhorando e até comida comeu um pouco.
Todos foram indo embora, mas a dama pediu para sua irmã para ficar, que havia gostado do Josimar e cuidaria dele. A irmã não se opôs, e assim ela permaneceu.
Passaram alguns meses e os dois se entendiam muito bem, foi contratada outra cozinheira e ela ajudava no balcão.
Certo dia, Erudite retorna grávida de malas na mão pedindo perdão a Josimar, dizendo que o filho era dele. Ele, que sempre foi doido para ter um filho, aceitou ela de volta. A sua atual companheira se revoltou e foi embora, não aceitou aquela situação.
A criança nasceu, era bem moreninha, a cara do Océlio, e ainda tinha um sinal no ombro que nem o pai.
Josimar, encantado pela criança, sem querer deixar as duas desamparadas, ainda, com o peito cheio de lembranças da mulher que havia partido, encontrou um pensionato para mãe e filha, prometendo dar um dinheiro todo mês.
Sem esquecer daquela que cuidou dele no momento em que mais precisou, saiu então, à procura da dama que conquistou para sempre o seu coração.
Não sabia direito onde ela morava, ficava em outro estado, mas disposto a encontrá-la percorreu, com seu carro opala azul 92, mais de 500 km. Finalmente chegou à casa da irmã, emocionado, deu umas dez buzinadas.
Ela conhecia bem aquele som, abriu a janela da sala e o viu, saiu de casa ligeirinho indo ao encontro dele que a aguardava de braços abertos. A irmã lhe deu uma bronca, mas entendeu que os dois realmente se amavam.
Despediram e pegaram a estrada de volta. Ao chegar tiveram uma grande surpresa, os amigos do restaurante novamente estavam lá com o almoço prontinho aguardando os dois.
Ana Amelia Guimarães meliaguima@gmail.com
Foto: Curta mais, 19/08/2015

Ana Amélia, seu texto é envolvente e muito bem construído. A história flui com leveza, tem boas reviravoltas e personagens cheios de vida. Você conseguiu equilibrar emoção, humor e sensibilidade de forma simples, mas marcante. A cena dos clientes se unindo para cozinhar é especialmente bonita, mostra um espírito de solidariedade que emociona. E o final, com o reencontro do amor verdadeiro, fecha a narrativa com esperança e calor humano. Uma história que toca e deixa uma boa sensação.