Muitas coisas, como sempre que estamos diante de um fenômeno social irruptivo. Aqui apenas pretendo me referir a algumas coisas que me parecem relevantes. Acredito que em boa medida estas passeatas tenham a sua origem em uma profunda insatisfação de vastos setores da cidadania (mormente os mais excluídos e explorados, mas não somente) com um sistema político que não apenas não os representa, mas, pior ainda, descaradamente os explora além do suportável.
Se somente tivéssemos dito isto, teríamos dito muito pouco, mas talvez estejamos, ainda assim, chegando perto da razão de base (ou, ao menos, uma das razões centrais) de todo este descontentamento que as passeatas vem evidenciando pelas ruas do Brasil, de norte a sul e do leste ao oeste.
Não apenas a classe política desfruta de privilégios inaceitáveis em uma ordem democrática, como também o governo como tal, desde o federal até os estaduais e municipais, por onde quer que olhemos, estão longe demais da cidadania. Atrelados demais, uns e outros, ao sistema de exploração que pode ser resumido na palavra: capitalismo. E isto é o que me parece que todos estamos sendo obrigados a olhar.
Há uma vasta gama de setores sociais explorados que não suporta mais. Expropriados da sua força de trabalho e da sua saúde pelos empresários, espremidos pelos governos que os olham com indiferença e desdém, encontram nas manifestações uma oportunidade de dizerem da sua existência. Este é o lado salutar destes protestos, que apontam para uma injustiça essencial do sistema em que vivemos, instituído em cima da exploração, do menosprezo pela vida.
É aqui onde vejo a necessidade de irmos mais longe: há uma injustiça gritante no fato de que os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, os assalariados e assalariadas, paguem imposto de renda sobre os seus vencimentos. O trabalho não é uma atividade especulativa, não é investimento ou aplicação financeira. Portanto, não é uma renda. É injusto que seja tributada a remuneração do trabalho, o salário. Isto deve acabar.
Creio apenas ter dito algumas coisas que, como as pessoas pelas ruas, vinha calando. É tempo de dizer, de fazer jus ao sentido de uma profissão, de uma trajetória pessoal e coletiva. É tempo de honrar a vida, apontando para a justiça que deve ser a base da ordem social.
O lado negativo destas mobilizações todas, obviamente, pode e deve ser visto no vandalismo, tanto quanto nas tentativas de manipulação da parte de burocracias partidárias e sindicais oportunistas e de setores de direita ávidos de espaços de poder que lhes são negados pelas urnas.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

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