O outono do libertador

Quando se puder avaliar o papel histórico de Fidel Castro sem os exageros propagandísticos e o tiroteio ideológico atuais, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser visto como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava. Por Celso Lungaretti (*).

Faltou pouco para Fidel Castro completar meio século como homem forte de Cuba: aos 81 anos de idade, afinal admitiu que sua saúde debilitada o impede de retomar as funções delegadas a seu irmão Raul em junho de 2006. Em carta publicada no Granma, Fidel se declara impossibilitado de “assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total”. E conclui: “Não desejarei nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe”.

Dificilmente o outono do patriarca será avaliado com distanciamento crítico na imprensa e internet. Explícitas ou implícitas, as posições ideológicas dos autores vão inspirar a maioria dos textos.

Não pretendendo ser exceção à regra, pelo menos tentarei fazer justiça ao personagem histórico que marcou profundamente a história mundial na segunda metade do século XX.

Castro nunca teve o perfil do revolucionário que quer mudar o mundo, como Marx, Lênin ou Trotsky. Aspirava apenas a ser o libertador de Cuba, livrando-a da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista, que fizera da ilha um centro de entretenimentos para turistas ricos interessados em prostituição, jogatina, drogas… e discrição.

Os tão alardeados paredóns, as execuções de inimigos, durante a guerra de guerrilhas e depois da tomada do poder, inserem-se perfeitamente na tradição sanguinária das rebeliões latino-americanas. Até então, Fidel pouco mais era do que um caudilho típico da região, o filho de latifundiários que abraça a causa dos pobres e se torna seu general. Chegou a declarar enfaticamente que não havia “comunismo nem marxismo em nossas idéias, só democracia representativa e justiça social”.

A hostilidade exacerbada dos EUA ao novo governo acabou jogando-o nos braços da URSS, pois só a outra potência mundial poderia dar-lhe alguma chance de sobrevivência face ao poderoso vizinho que impunha um embargo comercial, apoiava invasões armadas e promovia atentados terroristas (várias vezes fracassaram os planos mirabolantes da CIA para matar Fidel!).

A contrapartida desse guarda-chuva protetor foi a total submissão da ilha às imposições soviéticas, com a adoção do modelo stalinista de socialismo num só país, com economia totalmente estatizada, autoritarismo político e submissão da classe trabalhadora à burocracia que deveria representá-la. Aparentemente, Castro ainda tentou escapar dessa armadilha, ao concordar com os planos de Che Guevara para revolucionar a África e, principalmente, a América do Sul.

Com a execução de Che e o extermínio dos principais movimentos revolucionários latino-americanos, Fidel teve de se conformar com o isolamento em relação a seus vizinhos e a dependência de um aliado distante e arrogante.

Ao monumental sapo engolido em 1962, quando Nikita Khrushchov nem se deu ao trabalho de consultar Cuba antes de acertar com os EUA a desmontagem das bases de mísseis instaladas na ilha, seguiram-se outros, sempre indigestos e, ainda assim, digeridos. Para compensar, Castro obtinha ajuda econômica que lhe permitiu oferecer condições de existência minimamente dignas para o conjunto da população, com destaque para as realizações marcantes em educação e saúde.

Se pessoas mais capazes e empreendedoras eram impedidas de obter a condição diferenciada que seu potencial lhe asseguraria alhures, acabando por emigrar de um jeito ou de outro, é certo também que a grande maioria considerava sua situação melhor que a de antes. Daí a gratidão e carinho que tributava a Fidel, apesar da falta de liberdade e do afloramento de uma odiosa nomenklatura, reproduzindo a distorção soviética: onde todos deveriam ser iguais, a burocracia partidária e governamental concedia privilégios indevidos aos seus membros, tornando-os mais iguais.

Agonia lenta

A situação, que começara a mudar com a Perestroika, tornou-se crítica após a derrubada do muro de Berlim e o fim do socialismo real no Leste europeu. Ao deixar de ser sustentada pela União Soviética, que lhe injetava recursos e a utilizava como um cartão postal do seu regime, Cuba atravessou uma gravíssima crise econômica, até reaprender a andar por suas próprias pernas. Na década passada, as fugas da ilha com barcos improvisados chegaram ao auge.

O pior já passou, mas os tempos heróicos também. O povo cubano não é o mesmo que se orgulhava de haver reconquistado sua dignidade, com a ilha deixando de ser bordel dos norte-americanos. Essas lembranças estão muito distantes. Hoje, conta mais o quanto Cuba está perdendo ao ficar fora do fluxo de capitais e de comércio do capitalismo globalizado. Nenhum povo se dispõe a sacrificar-se indefinidamente por uma ideologia. Até suporta, estóica ou heroicamente, os rigores, mas quer depois as recompensas.

Então, tudo indica que, sob Raul Castro, Cuba vai encontrar um modus vivendi com as nações capitalistas e assumirá seu papel na economia globalizada. Quanto a Fidel, acabou tendo seu destino atrelado à bipolarização do poder mundial, que lhe permitiu inflar demais o balão cubano, mas só enquanto durou. No fim da linha estava a agonia lenta.

Em circunstâncias quase sempre dificílimas, ele fez o melhor que pôde por seu país – não pelo marxismo ou pela revolução mundial, que nunca foram suas verdadeiras devoções. Quando se puder avaliar seu papel histórico sem os exageros propagandísticos e o tiroteio ideológico atuais, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser visto como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava.

(*) Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

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