O olhar poético. O olhar poético-literário. Pensava que poderia chegar a ser bom escrever alguma coisa sobre isto. Afinal, pensava, o que é que nos resgata da mesmice, da rotina cinza que nos faz crer que já vimos isto, que isto é o mesmo que já conhecemos?
Não seria para dissertar, mas apenas para ir tentando clarear para mim mesmo, o que é este olhar, como é que existe e permanece em nós esta possibilidade de nos conectarmos com o que está aqui de verdade, e não com a cópia arquivada na nossa memória, como diz Julio Cortázar em “Manual de Instruções,” nas Histórias de Cronópios e de Famas.
Isto que está aqui é acessível, sim, mas tenho que fazer algum exercício, ou, melhor dizendo, tenho que parar de resistir, e me deixar vir, me deixar estar aqui. Aqui encontro isto, porque aqui não tem nada mais do que isto. Mas, onde estou eu quando não estou aqui? Em algum outro lugar, ou em muitos outros lugares. Todo mundo está em muitos lugares ao mesmo tempo.
A imaginação, o espírito, o desejo, a vontade, a lembrança, a projeção. O ser humano é um feixe de possibilidades em movimento. Mas quando decido estar aqui, quando me disponho a vir para o presente, ou quando por algum motivo acontece de que eu possa de fato estar aqui, o cotidiano se torna mágico, como diz a canção de Mercedes Sosa. Posso relaxar um pouco e então o presente, então o que está aqui.
Mas para isto, necessito relaxar um pouco alguma intencionalidade meio forçada, meio treinada a querer outra coisa, a estar em algum outro lugar, de algum outro modo. A literatura e a poesia vão afastando os véus que nos separavam do que aqui está. Quando nos deixamos levar por um poema, ou, melhor ainda, pela poesia da existência, estamos aqui, ocorre o milagre, a maravilha, de estarmos aqui, de fato.
Então aquele mesmo velho par de óculos antigo e tão conhecido, não é mais nem tão antigo nem tão conhecido. Rebrilha com algo que nunca antes tinha visto, e me admiro das suas formas, dos seus reflexos. E a chuva que esta manhã, e o rosto dela no café da manhã, e as lembranças de Morro Branco e de Montecarlo, e todas as lembranças, nada é, nada nunca será nunca mais tão igual porque é novo a toda hora.
Quando me disponho a tentar conhecer esta mirada poética e literária, estou como se disséssemos, abrindo uma fresta, deixando que a realidade venha, ou que eu e a realidade sejamos uma só e a mesma coisa. Quando leio uma novela, um romance, um conto, um poema, me dissolvo, me reúno, vou mais além, e venho mais para cá. Estou mais aqui, sou mais eu.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
