O lado certo

Às vezes penso como poderia ter sido penoso não ter estado do lado certo em 1976. Não ter estado do lado certo quando o golpe militar de 1976 instaurou o terror de Estado, o roubo, a matança, a tortura, a mentira, a sistemática ocultação da verdade. Teria sido muito ruim não ter estado do lado certo, disto tenho certeza.

Estar agora, como estão os genocidas, escondendo provas, ameaçando testemunhas, tentando obter a impunidade. Isto teria sido muito ruim, tenho certeza. Ter-se transformado num delinqüente da pior espécie, desses irrecuperáveis. Um assassino, um torturador, um canalha, um vendepátria. Um matador profissional. Isto teria sido muito ruim.

Não foi fácil ter estado do lado que a canalha atropelou em 1976. O lado certo. Sei que tivemos razão de trabalhar por uma Argentina fraterna, justa, democrática, honesta, sã, respeitadora das diferenças. Isto foi o que quisemos, o que nos custou o que custou.

È melhor isso do que ser um canalha, um assassino, um ladrão, um sequestrador, um mentiroso, um terrorista, um usurpador, um traidor, o que são os delinqüentes de 1976. Estou certo, estive do lado certo. Estivemos do lado certo. Teria sido muito ruim, ruim mesmo, ruim de verdade, ter estado do lado dos que atropelaram tudo que é valioso, tudo que é bom, tudo que é verdadeiro, a decência, a honradez, a verdade, a pátria, a família, o trabalho, a dignidade. Isso sim é que teria sido muito ruim.

3 comentários sobre “O lado certo”

  1. Caríssimo Sr.Rolando,
    Até hoje esses senhores agem da mesma forma.Com requintes de crueldade, pois agora estão por trás das cortinas. Agora é bem pior, pois além da impunidade, seus rostos estão mais protegidos pelas sombras do que nunca.
    Saiba que os psicopatas do DOICODI continuam agindo, infelizmente.Eles continuam atropelando, agora como uma matilha de cães vadios.

  2. Prezado Professor Lazarte,
    Sinto-me honrado de tê-lo tido como professor na UFPB, no ano de 1996. Infelizmente, para mim, era um jovem que tinha uma visão muito pouco privilegiada do mundo em que vivia. No entanto, não me esqueço de um pequeno artigo que o senhor escreveu para um “jornalzinho” do curso de Jornalismo, que tratava dos horrores vividos pelo senhor, em seu país.
    Hoje, como professor de História, tenho sempre em mente a sua figura quando trato do assunto com meus alunos.
    Em verdade, tive a satisfação de conhecer uma pessoa tão significativa para mim como o senhor e, ao mesmo tempo, a infelicidade de ser ainda tão imaturo para não poder aprender mais com o senhor.

  3. Caro Vilmar, A sua mensagem me enche de alegria, me faz ver que valeu a pena ter sobrevivido ao holocausto, para prossegirmos a infindável caminhada do ser humano para um mundo melhor, mas justo, sem fome, sem prepotência, como eram e são ainda os nossos ideais. Um abraço, Rolando

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