O império, as torturas oficiais e a cumplicidade da imprensa

Foto: Página/12
Foto: Página/12

“Todos sabiam que se torturava, mas os grandes meios de comunicação conspiraram para não chamar a coisa por seu nome”.
De Salvador-Bahia – O texto é de quase dois anos atrás, traduzido por mim do jornal argentino Página/12, mas creio que vale a pena republicar, pois se trata de tema frequentemente “esquecido” pelos monopólios da imprensa hegemônica.
Ao contrário do que se lê aqui, por conta da lucidez e militância do conhecido sociólogo argentino, o império estadunidense aparece sempre na Rede Globo e em quase todos os demais meios de comunicação do Brasil como os campeões dos direitos humanos, que se outorgam a missão de apontar violações de tais direitos nos demais países.
Claro, países que tenham governos de viés progressista ou que, de alguma maneira, contrariem seus interesses econômicos e de suas empresas multinacionais.
Segue o texto:
Por Atilio A. Boron (cientista político argentino) – traduzido do jornal Página/12, edição impressa de 10/12/2014 – Tradução: Jadson Oliveira
A publicação do informe do Comitê de Inteligência do Senado dos Estados Unidos, divulgado ontem (09/12/2014), descreve com minúcias as diferentes “técnicas de interrogatório” utilizadas pela CIA para extrair informação relevante na luta contra o terrorismo. O que se fez público é apenas um resumo, de umas 500 páginas, dum estudo que contém mais de 6.000 e cuja primeira e rápida leitura produz uma sensação de horror, indignação e repugnância como poucas vezes experimentou quem escreve estas linhas. Os adjetivos para qualificar esse lúgubre inventário de horrores e atrocidades não conseguem transmitir a patológica desumanidade do que ali se conta, somente comparável às violações aos direitos humanos perpetradas na Argentina pela ditadura civil-militar.
O informe é suscetível de múltiplas leituras, que seguramente animarão um significativo debate. Por enquanto, produz um dano irreparável à pretensão estadunidense de erigir-se como campeão dos direitos humanos, na medida em que uma agência do governo, ligada diretamente à presidência, perpetrou estas atrocidades ao longo de vários anos com o aval dos ocupantes da Casa Branca. Muito especialmente, de George W. Bush, que vetou em março de 2008 uma lei do Congresso que proibia a aplicação da técnica do “submarino” (waterboarding em inglês – Nota do tradutor: é o “afogamento”, técnica muito utilizada na ditadura brasileira na década de 1970) e que seu predileto secretário da Defesa, Donald Runsfeld, em dezembro de 2002 autorizou explicitamente uma série de “técnicas de interrogatório”, que somente em virtude dum perverso eufemismo podem não ser qualificadas como torturas.
Obviamente, se já antes os Estados Unidos careciam de autoridade moral para julgar terceiros países por supostas violações aos direitos humanos, depois da publicação deste informe o que Barack Obama deveria fazer é pedir perdão à comunidade internacional e assegurar que essas práticas não só não voltarão a ser utilizadas pela CIA ou pelas forças regulares do Pentágono, nem tampouco pelo número crescente de mercenários contratados para defender os interesses do império.
Uma última palavra sobre a cumplicidade da imprensa: todos sabiam que se torturava, mas os grandes meios de comunicação – não os pasquins da cadeia de Rupert Murdoch – conspiraram para não chamar a coisa por seu nome. Para The Washington Post, The New York Times e a Agência Reuters eram métodos de interrogatório “brutais” ou “duros”; para a cadeia de televisão CBS, “técnicas extremas de interrogatório”, e para Candy Crowley, da CNN, eram “torturas, segundo quem as descreva”. Para o canal de notícias Msnbc (fusão da Microsoft com a NBC) eram, segundo Mika Brzezinski, filha do estrategista imperial Zbigniew Brzezinski, “táticas de interrogatório utilizadas pela CIA”. É esse o papel da imprensa numa democracia?

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