
Há trinta anos o país virava a página do período mais obscuro de sua história. O regime militar terminava após duas décadas de tiranias, perseguições e um enorme achatamento social. Fechávamos assim, um ciclo perverso, sem indícios de saudades. O povo demonstrava-se sedento por avanços democráticos.
O Brasil iniciava os primeiros passos para redemocratização, buscando solidificar instituições. O primeiro grande passo foi a Constituição Federal, feita em 1988. Ali, esboçávamos um amadurecimento.
A partir da eleição presidencial de 94, iniciamos o período político mais estável da República. Pensávamos que o fantasma de golpes e de governos enfermos eram coisas do passado. A sociedade demonstrava ter apreendido a lição.
Eis que em 2014, um político mimado e insatisfeito com o resultado das eleições presidenciais, agrega a sua sede de poder, toda a perversão da elite brasileira. Na figura dele, a ala conservadora da sociedade depositou suas frustrações e inconformismos.
Aliaram-se ao pior da política brasileira, elegendo Eduardo Cunha Presidente da Câmara. Com um discurso profético, Cunha afirmava que Deus o colocou no cargo para moralizar e por ordem no país. Começava assim um dos períodos políticos mais conturbados dos últimos cinquenta anos. Era o fantasma do golpe que rondava novamente o nosso país.
A palavra golpe, massificada pelo período militar, desta vez, vinha em tons mais amenos e com armaduras, teoricamente, menos nocivas. Desta vez, não seriam os militares os protagonistas da derrubada de um presidente democraticamente eleito. Os protagonistas do golpe atual apropriaram-se de um frágil discurso jurídico. Era o legislativo e o judiciário em ação.
Apesar das diferenças na linha de frente, tanto o golpe de 64 quanto o atual, contaram com a participação de empresários e grupos midiáticos. Eram eles que, mais uma vez, davam suporte ideológico ao movimento.
Amiúde, os defensores da democracia estão impotentes. O golpe está praticamente consumado. A mísera esperança é depositada na reação internacional e na falta de pudor das medidas, que podem geral uma possível insatisfação popular.
Os congressistas não conseguiram disfarçar a perversão dos seus projetos e já causam desânimo nos que foram iludidos pelo discurso moral e renovador.
Foto(*): pt.org.br

Parabéns professor Fábio. Pena que a essa altura não faz mais diferença. Teremos de aguentar mais uns 20 anos de retrocesso antes de um novo ciclo um pouco mais progressista.